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Ambições do Brasil extrapolam o protagonismo regional

Estratégia diplomática do Brasil é ser participante ativo das principais decisões mundiais

Desde que se tornou independente, o Brasil sempre concentrou suas atenções diplomáticas e militares nos vizinhos mais próximos. Era o foco da política externa, mas até a criação do Mercosul, já nos anos 1980, pouco ou quase nada se fez para que se estreitassem os laços econômicos, por ­exemplo.

“O palco histórico do Brasil e a âncora de nossa política externa é, desde sempre, a América do Sul. Aqui estão nossas principais prioridades e desafios. A relação com os países da região está hoje assinalada pelo considerável avanço que o Brasil realizou com a expansão de sua economia e pelo fortalecimento de suas empresas estatais e privadas. Até o final da década de 1980, o comércio regional de mercadorias era inexpressivo, enquanto o investimento brasileiro nesses países era praticamente nulo”, relata o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia.

Empurrado pelo revigoramento econômico e pela estabilidade política das duas últimas décadas, o Brasil partiu para uma mudança em sua estratégia de inserção no mundo. Sem desviar o foco em seu próprio universo sul-americano, diversificou sua agenda diplomática: é global na economia e em questões ambientais ou humanitárias, mas segue prioritariamente regional quando se trata de defesa, como explica o almirante Mario Cesar Flores, ex-ministro da Marinha.

“É razoável que suas preocupações priorizem realisticamente seu território, a América do Sul — admitida a extensão conjuntural, em função do assunto, à América Central e Caribe, como admitiu no caso do Haiti — e o Atlântico Sul, sobretudo o ocidental, teatro de seus interesses vitais, onde o Brasil precisa ter presença estratégica. Fora desse teatro, é sensato aceitar que os interesses brasileiros sejam protegidos pela ordem internacional ­protagonizada por outros Estados, a que o Brasil aportaria o apoio viável e conveniente”.


Ex-ministro da Marinha Mario Flores:
Brasil precisa ter presença estratégica
significativa no Atlântico Sul (Foto: Victor Schneider)

Ao avaliar o protagonismo do Brasil no continente, Flores faz uma analogia com importância da posição diplomática dos Estados Unidos no contexto global. “No pós-Primeira Guerra Mundial, o isolacionismo dos EUA facilitou as condições que conduziram à Segunda Guerra Mundial. Resguardadas as proporções, o mesmo se aplica ao Brasil na sua região geopolítica, onde sua estatura relativa é incompatível com o absenteísmo, exige sua presença em prol da tranquilidade regional”.


Novo ator no palco

O fato de ser um ator novo no palco das grandes decisões internacionais conspira a favor do Brasil, segundo Oliver Stuenkel, professor-adjunto do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getulio ­Vargas (FGV).

“[Atualmente] as posições dos países emergentes são mais importantes porque tais Estados estão localizados em regiões do mundo onde as bases da democracia ainda não são sólidas. Além disso, há indicações de que a credibilidade do Brasil e a da Índia entre os países pobres possa exceder aquela do mundo rico, talvez precisamente porque esses dois países raramente são percebidos como excessivamente paternalistas. Como foi dito acima, o Brasil pode indicar vários casos em que assumiu os riscos para ­defender a democracia — no Paraguai, na Venezuela e, mais recentemente, em Honduras”, disse Stuenkel, em seu artigo "Potências emergentes e o futuro da promoção da democracia", publicado na revista ­Interesse Nacional.


Oliver Stuenkel, professor da FGV, diz que
fato de o Brasil ser um ator novo no palco
internacional conspira a seu favor (Foto: CebriOnline)

O consultor legislativo do Senado Joanisval Brito Gonçalves também realçou a ­importância da sinergia que deve existir entre os dois campos, diplomático e da defesa.

“O Barão do Rio Branco [patrono da diplomacia brasileira] dizia, há cem anos, que política externa se faz com diplomatas e militares. Felizmente, temos diplomatas fantásticos, mas não são só os nossos diplomatas fantásticos que vão garantir a integridade e os interesses nacionais do Brasil no futuro. Defesa é um seguro que a nação paga. E cada vez mais, à medida que o Brasil busca um papel maior de protagonista no cenário internacional, tem que ter bem equilibrada essa relação que o barão dizia ser essencial em política externa”.


O dilema dos recursos

“Para garantir esse entorno de paz dentro desse novo mundo que existe — multipolar, com muitas ameaças distintas —, o fato de a gente ter defesas não só é bom para nós, mas contribui para que não haja tentação de desestabilização da ordem mundial naquelas áreas em que nós podemos atuar. Em outras palavras, se me permitem uma expressão, é preciso dizer ‘não vem que não tem’. O Brasil tem que estar capacitado a dizer isso. Nós não vamos nos meter em outras aventuras, não temos essas pretensões”, raciocinou o chanceler, ao defender a necessidade de prioridade e recursos para o setor, em sua participação nos debates.

Cristovam Buarque (PDT-¿DF), que já presidiu a Comissão de Relações Exteriores, é enfático ao alertar que o Brasil pode enfrentar sérias dificuldades se não contar, o mais brevemente possível, com uma defesa nacional “bem consolidada, organizada”.

“Podemos ter grandes problemas, tanto quando analisamos nossas fronteiras como quando analisamos as relações no mundo global, por conta de recursos naturais que vão ficar cada vez mais escassos, inclusive a água; por conta da tentativa de apropriação dos mares e do espaço. Porque cada vez mais o espaço tem donos que estão jogando coisas sem sabermos sob que controle, por conta de formas diferentes de impor relações comerciais”, disse o senador.


Patrulhamento na Amazônia: para senador Cristovam, Brasil pode enfrentar sérias dificuldades sem defesa consolidada (Foto: Exército Brasileiro)

O engenheiro Simon Rosental, professor da Escola Superior de Guerra (ESG), resume em dois cenários a polêmica sobre o incremento de recursos para a defesa:

“Se o que queremos para o futuro é um Brasil que produza apenas commodities e continue sob o domínio econômico e tecnológico, penso que não há necessidade de recursos. Agora, se queremos um Brasil em direção aos países desenvolvidos, o que envolve ciência, tecnologia, inovação e planejamento, é fundamental que as Forças Armadas sejam muito bem equipadas. Porque, no momento em que o Brasil se tornar um país desenvolvido, torna-se também uma grande potência”.

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