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Pefil dos candidatos a pais adotivos

Reunião de futuros pais e mães adotivos, promovida pelo grupo Aconchego (DF): perfil socioeconômico uniforme (Foto: Grupo Aconchego)

O pretendente à adoção precisa mostrar disposição para superar a corrida de obstáculos envolvida no processo; perseverança para, depois, esperar a vez em uma longa fila; e capacidade financeira e estrutura familiar para acolher uma criança que não tem família. A análise dos dados dos mais de 29 mil candidatos do Cadastro Nacional de Adoção reflete essa realidade, apresentando um perfil socioeconômico bastante definido: são pessoas casadas, entre 30 e 50 anos, com renda de classe média, moradores das regiões mais ricas do país e, cada vez mais, indiferentes à cor ou sexo da criança, desde que ela não tenha mais do que 4 anos. Os dados do CNA avaliados foram os de 13 de março deste ano, fornecidos pela Corregedoria ­Nacional de Justiça.

O primeiro e mais marcante traço comum à grande maioria dos pretendentes é o estado civil. Dos 29.164 pretendentes cadastrados, quase 90% eram casais, dos quais a imensa maioria de pessoas formalmente casadas, mas com uma considerável parcela de pessoas em união estável. Apenas 8,46% dos que pretendem adotar uma criança são solteiros e menos ainda, divorciados ou separados judicialmente (2,44%). Há quase oito vezes mais solteiras do que solteiros interessados na adoção. Homens sozinhos são apenas 1,23% do universo total.

A próxima característica mais comum é a faixa etária. A julgar pelo CNA, a adoção é um desejo de pessoas que, majoritariamente, já deixaram a juventude para ingressar na chamada meia idade. Entre 31 e 50 anos estão 76,82% dos pretendentes, praticamente a mesma proporção entre aqueles que não têm filhos biológicos (22.017) e os que já os têm (7.146).

Além do estado civil e da idade, dois outros fatores são comuns à grande maioria dos candidatos à adoção no Brasil: a região onde moram e a situação econômica. Oito em cada dez pretendentes moram nas Regiões Sudeste ou Sul (esta última com um índice até superior à primeira, se considerarmos a população total da região) e 70% deles declararam renda familiar entre dois e dez salários mínimos — o que, pelos critérios adotados pelo governo federal, os posiciona na classe média.

“O pai adotivo não é melhor do que ninguém. Somos diferentes porque temos um dom maior de amar ao outro tanto quanto aos nossos. E esse dom de amar o outro não é fácil”, avalia Sandra Amaral, presidente do grupo de apoio à adoção De Volta pra Casa, de Divinópolis (MG).

Crianças de menos de 4 anos são as preferidas pelos candidatos à adoção, 
mas elas são menos de 5% do total incluído no cadastro nacional
(Foto: Marcello Casal Jr/ABr)


Preferências comuns

A mesma homogeneidade do perfil socioeconômico dos integrantes do cadastro de adotantes pode ser observada em relação às aspirações quanto à criança que esperam acolher na família. Em primeiro lugar está o desejo de adotar uma criança ainda pequena: apenas 4,77% dos pretendentes aceitariam receber um filho com 6 anos ou mais, realidade que se choca com o perfil das crianças aptas à adoção no país.

Mais ainda, são os bebês os mais procurados (34,72% das pessoas preferem crianças de no máximo 2 anos). Menos de um 1% está disposto à tarefa de acolher um adolescente como filho. Conclui-se, portanto, que o grande empecilho para as adoções, mais do que os entraves burocráticos ou as exigências legais, é mesmo a exigência de pouca idade por parte dos ­pretendentes.

A exigência feita por muitos pretendentes de só adotar bebês contribui
para a demora da adoção (Foto: Lia de Paula/Agência Senado)

“A duração média de um processo de adoção é em torno de um ano. Mas, na prática, tenho conhecimento de processos de 8, 12 anos. Muitos pais adotivos, mesmo sabendo que a guarda provisória foi concedida, que não há condição da criança voltar à família biológica, ficam na angústia pelo tempo que dura o processo. Esse processo tão prolongado afasta muitas pessoas que têm condições e vontade de serem pais adotivos”, revelou o advogado Edilson Teodoro, na audiência pública da CDH do Senado.

Para o advogado Edilson Teodoro, a guarda
provisória deve ser dada com muita cautela
para evitar abusos (Foto: José Cruz/Agência Senado)

Quase 60% dos pretendentes são indiferentes ao sexo da criança, mas entre os que têm ­preferência por sexo a opção por meninas é três vezes mais frequente do que a por meninos, que, paradoxalmente, são maioria entre os aptos à adoção. Também em contraste com o que acontece nas instituições de acolhimento, 81,48% das pessoas só desejam adotar uma criança, enquanto três em cada dez crianças abrigadas têm pelo menos um irmão no mesmo Cadastro Nacional de Adoção.

Uma boa notícia extraída dos números do CNA é a de que há cada vez mais pessoas interessadas em adotar crianças ou adolescentes de qualquer raça. Se em dezembro de 2010 o percentual era de 31,4%, em março passado o contingente já havia chegado a 38,72%. Sim, ainda existe uma parcela significativa que só admite adotar crianças brancas (32,36%), mas ela é menor, por exemplo, do que o número daqueles dispostos a acolher uma criança ou um adolescente negro. O preconceito racial não é, pelas estatísticas, um fator determinante nas chances que uma criança tem de ser adotada.

“O fato é que existe um número pequeno de pais postulantes à adoção que são negros ou pardos. O percentual é ­pequeno. E, ao contrário, é grande o número de crianças pardas ou negras para adoção. Nos grupos de apoio, as pessoas estão refletindo. A necessidade de querer ter um filho tem mudado isso. Ou seja: não se trata de um mito, mas também não é uma verdade absoluta”, disse Fabiana Gadelha, membro do grupo de apoio à adoção Aconchego, de Brasília.


Cuidados

Para Sandra Amaral, do grupo De Volta pra Casa, o cadastro de pretendentes foi uma das mais importantes vitórias da nova legislação. Sem um casal ou uma pessoa disposta a adotar, as crianças não vão ter famílias, lembra ela. Mas Sandra admite também que a exigência de candidatos devidamente habilitados em um curso para adoção pode estar sendo um empecilho adicional na redução da fila. “Os grupos lutaram para que houvesse a habilitação, [mas isso] pode estar atrapalhando porque muitas cidades do interior não sabem como oferecer o curso, o que está atrasando mais a adoção. Mas as adoções precisam ser preparadas por alguém que tenha capacidade técnica, emocional, que tenha amor em seu ­coração”.

O advogado Edilson Teodoro faz a mesma ressalva, ao defender a importância dos cursos e do cadastro de pretendentes. “Há pessoas que querem adotar, mas não estão preparadas para a adoção. Muitos nunca foram pai nem mãe. Daí a necessidade dos cuidados prévios. Para estar preparado para assumir essa responsabilidade, tem que buscar ajuda de um psicólogo para entender a nova situação na qual ele se colocou. A responsabilidade nasce da educação. É importante buscar esse novo papel social de pai e mãe, com toda a estrutura que o Estado oferece. Com a nova lei, temos esse amparo, preparo, cursos. Na lei anterior, não havia essa estrutura.”

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