24/08/2005 - O GLOBO
Guimarães diz que gasto com propaganda no Banco Popular era normal


BRASÍLIA - Em depoimento na CPI dos Correios nesta terça-feira, o ex-presidente do Banco Popular do Brasil Ivan Guimarães considerou natural que o investimento em publicidade em 2004 tenha sido maior que o valor do crédito concedido pelo banco. Segundo ele, os gastos foram normais para 'uma empresa que estava começando'. O Banco Popular destinou R$ 21,3 milhões, no ano passado, para operações de crédito e aplicou R$ 29 milhões em publicidade feita pela DNA, agência publicitária que tem como sócio o empresário Marcos Valério de Souza.

Guimarães confirmou que teve ligações com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e com Marcos Valério, acusado de ser o operador do mensalão. Guimarães rebateu as insinuações de que sua indicação para o cargo tenha sido política e negou as denúncias de abertura de contas sem permissão dos clientes como artifício para aumentar a carteira de correntistas do Banco Popular. Segundo ele, o aumento do número de contas no último ano, de 500 mil para 1,1 milhão, foi decorrente de campanhas publicitárias realizadas pela DNA Propaganda.

O ex-presidente do Banco Popular informou que, antes de deixar o cargo, solicitou uma auditoria na utilização das verbas de marketing da instituição para saber onde os recursos vinham sendo gastos. Ele reafirmou na CPI dos Correios que a definição sobre o uso desses recursos cabia ao Departamento de Marketing do Banco do Brasil.

Ao questionar o depoente, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) disse que Guimarães entrou em contradição com o ex-diretor de Marketing do BB Henrique Pizzolato. Em seu depoimento na CPI, Pizzolato declarou que as verbas de publicidade do Banco Popular eram aplicadas pela própria instituição. Jereissati alertou Guimarães para o fato de que ele pode se tornar protagonista da "maior fraude" do governo do PT.

- A intenção era promover o microcrédito, mas o Banco Popular foi usado para desviar recursos para o PT e os partidos aliados do governo - acusou o senador.

Em resposta aos senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Eduardo Suplicy (PT-SP) sobre o uso das verbas de publicidade pela instituição bancária, ele disse que só uma auditoria no plano de mídia aprovado pelo Banco do Brasil e pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República poderá comprovar se as verbas foram efetivamente empregadas em propaganda. O relator da comissão, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), disse que o plano já está em poder da CPI e será analisado. Para ele, o depoimento de Guimarães serviu para demonstrar que os contratos de publicidade do Banco do Brasil são, no mínimo, "duvidosos".

Guimarães revelou ter prestado 'trabalhos voluntários' no comitê financeiro da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a incumbência de cadastrar os empresários a quem eram solicitadas contribuições para os gastos eleitorais. Nessa época, ele teria trabalhado ao lado de Delúbio Soares e do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato. Guimarães informou aos parlamentares que conheceu Delúbio Soares em 1989 e, desde então, tornou-se seu amigo pessoal.

Ao ser interrogado pela senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) na CPI dos Correios, Ivan Guimarães disse que conheceu o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza em 2003, em decorrência da prestação de serviços ao banco por parte da DNA Propaganda. Guimarães confirmou ter mantido vários encontros comerciais com Valério e admitiu que, além de negócios, eles discutiam política.

- Marcos Valério tinha muito interesse nas eleições estaduais e municipais - afirmou.

O depoente declarou, porém, que durante esses encontros nunca tomou conhecimento de nenhum procedimento suspeito por parte das empresas de Valério ou do PT.Ivan Guimarães informou também na CPI dos Correios que, após deixar a presidência do Banco Popular em abril, devido ao interesse do PT em "realocar seus quadros", passou a ganhar R$ 36 mil como conselheiro indicado pelo Banco do Brasil a três grandes empresas: a Kepler, onde recebe R$ 8 mil; a Belgo-Mineira, que lhe paga R$ 10 mil; e a Bombril, que está sob intervenção judicial e lhe dá R$ 18 mil por mês.

Em resposta ao deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), Guimarães admitiu que o Banco Popular teve prejuízo de R$ 60 milhões em seu primeiro ano de operação. O parlamentar protestou, lembrou que todos os bancos do mundo dão lucro e acusou o depoente de afundar a instituição bancária. Mattos também sugeriu que a CPI requisite cópia de contrato de patrocínio do Banco Popular com times de futebol de areia. Ele suspeita de irregularidades na operação.