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Lastima morte de amigo em fogo cruzado. |
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SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ. Pronuncia o seguinte discurso.
Sem revisão do orador.) – Muito obrigado, Sr. Presidente.
Sr. Senador Cristovam Buarque, senhores telespectadores da TV Senado,
senhores ouvintes da Rádio Senado, demais presentes a este plenário,
eu, no Dia da Terra, gostaria de estar aqui fazendo um pronunciamento
sobre as riquezas do nosso meio ambiente, sobre os avanços que
construímos nesta Casa e sobre os tantos percalços que ainda
temos que enfrentar para termos um País menos desigual, menos poluído,
e para garantir às futuras gerações todos os benefícios
de que nós pudemos desfrutar na nossa geração.
Mas, Sr. Presidente, eu hoje vou prestar uma homenagem a um brasileiro,
a um carioca, meu amigo, meu irmão de fé, que, no fogo cruzado
das invasões que a polícia faz nas comunidades carentes,
foi vítima de uma bala perdida e morreu na noite do último
sábado.
V. Exª citou aqui, Senador Gilberto, com muita sabedoria, que o meio
ambiente é também o homem. Portanto, ao lamentar e ao ler
aqui o elogio fúnebre que passarei a fazer em seguida, estou também
fazendo um clamor, um grito, um grito da terra, porque, segundo a Bíblia,
eu creio, todos nós, no que concerne à matéria, que
viemos do pó, do pó da terra, e à terra voltaremos.
De tal maneira que esse ser humano, que foi arrancado da terra e recebeu
o sopro de Deus, que lhe deu alma e espírito, também tem
que ser respeitado.
Passo, então, Sr. Presidente, a ler o elogio fúnebre que
escrevi em homenagem a Roberto Santana de Araújo, como um brado
de alerta ao Congresso Nacional, às autoridades, sobretudo às
autoridades do meu Estado do Rio de Janeiro.
No último sábado à noite, policiais subiram ao Morro
da Mangueira trocando tiros com o tráfico local. Uma bala de fuzil
matou Roberto Santana de Araújo, um jovem de 27 anos, que estava
dentro de casa naquele momento, se despedindo da noiva, para ir a uma
vigília na igreja. Eram quase dez horas da noite.
Mais uma bala perdida, mais um vida ceifada.
Esse jovem humilde, trabalhador, pacato e ordeiro, bom filho, bom irmão,
bom amigo, coração sem ódios e conduta exemplar,
enfrentava com grandeza a mediocridade do seu tempo. Com uma vontade inflexível,
decidia com firmeza e construía com bravura cada etapa da sua existência,
forjada nos princípios da dignidade, do amor ao trabalho, da devoção
à família, do cristianismo autêntico e da força
imbatível, pura e radiante da sua fé em Deus.
Seu sangue inocente, derramado em vão, clama aos céus, mas
clama também aos homens de boa vontade. Até quando teremos
que suportar essa escalada da violência, esse fogo cruzado em áreas
densamente povoadas que põe em risco milhares de trabalhadores
e suas famílias e faz do princípio constitucional da inviolabilidade
do lar um ridículo e cínico deboche, um escárnio
satânico, o mais aviltado e corrompido de todos os direitos?
Que tenhamos ódio e nojo do tráfico de cocaína, de
maconha e de crack, pelo rio de sangue que desce dos morros, por tantos
jovens lançados na sepultura com os corpos mutilados e ensanguentados,
enquanto outros são despejados como lixo em presídios medievais
onde são barbarizados e vegetam numa existência desgraçada;
por tantas vidas perdidas; pelo comércio maldito que divide pobres
em facções e põe irmãos contra irmãos
numa guerra monstruosa, inútil e miserável. Sim, por tudo
isso, se compreende nossa revolta.
Mas não é com mais violência ou monstrificando a força
policial no ímpeto da marcha da insensatez que vamos vencer essa
guerra. Não se pode dizer de onde veio o disparo. A perícia
vai provar. Mas o fato de causar tiroteios onde residem pessoas, trabalhadores
é absolutamente inaceitável.
Melhor seriam as operações de inteligência, como aquela
que prendeu o assassino de Tim Lopes sem disparar um tiro. Melhor seria
a repressão à lavagem desse dinheiro sujo, pressuposto vital
para a lucratividade e continuidade do negócio. Melhor seria o
controle das fronteiras por onde hoje passa tamanha quantidade de armas
e drogas que se constitui na mais acintosa e insolente afronta à
honradez da nossa soberania. É lá nas fronteiras brasileiras
que se combate o tráfico no atacado e se prendem os tubarões
que organizam, financiam e distribuem em grandes quantidades armas, munições
e drogas. Nas comunidades está apenas o varejo, apenas o peixe
pequeno.
E que não se diga que a Polícia Federal não possui
efetivo para dar conta dessa missão, porque por essa razão
aprovei lei já sancionada pelo Presidente da República,
portanto em pleno vigor, que confere poder de polícia às
Forças Armadas nas fronteiras terrestre, aérea e marítima
para o combate às drogas e armas.
No clima de guerra em que vivemos no Rio é preciso alertar que
os espíritos violentos costumam cair na mesma intransigência
dos fanáticos que se norteiam cegos e determinados pelos esquemas
ditados pela própria arrogância e se tornam energúmenos
completamente blindados aos apelos da razão.
Criminalidade se combate sempre com inteligência; às vezes,
com a força bruta; mas nunca com chacais que uivam famintos de
ódio e sedentos de sangue, como aqueles que, a soldo de terceiros,
recebem autorização para uma saída do presídio
para cometer crimes bárbaros acobertados pelo álibi, com
a presunção da impunidade.
Paulo Roberto, me disseram seus pais, andava muito feliz. Tinha adquirido
uma autonomia de táxi para não ter mais que pagar diárias
na sua cooperativa, onde exercia o cargo de Diretor de Ética, respeitado
e estimado por todos. Deixou com sua mãe uma frase lapidar, de
rara sabedoria, que sintetiza sua visão de mundo e nos deixa uma
lição inesquecível: “Quem fala mal do sacrifício
fala mal de Jesus”.
Era assim que ele encontrava forças para lutar e, com renúncia
e idealismo, forjar o futuro. Pessoas como ele não morrem. Não
se apagam no esquecimento. O rastro de sangue que deixou do Morro da Mangueira
até o Hospital do Exército, onde veio a falecer, será
para sempre um clamor de justiça daqueles que, no anonimato de
uma vida humilde, superando adversidades, injustiças e preconceito,
sonharam, sofreram, lutaram e tombaram para construir sem violência
um mundo melhor.
Que Deus o tenha e o guarde por nós, que não soubemos guardá-lo.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
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