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Crivella defende reaproveitamento de águas de uso
doméstico
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SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ. Pronuncia o seguinte discurso.
Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, senhoras e senhores
presentes, parlamentares, amigos, convidados, senhores telespectadores
da TV Senado, senhores ouvintes da Rádio Senado, saúdo o
Sr. Luciano Zica, Secretário de Recursos Hídricos e Ambiente
Urbano do Ministério do Meio Ambiente; saúdo o Sr. José
Tubino, representante do Brasil na Agência para Agricultura e Alimentação
da ONU; e também saúdo o Presidente da nossa Agência
Nacional de Águas. É uma satisfação enorme
tê-los aqui. Quero saudar também, Sr. Presidente, o Sr. Per
Westerberg, Presidente do Parlamento da Suécia.
Sr. Presidente, em primeiro lugar, quero homenagear o nosso Senador Osmar
Dias pela brilhante iniciativa de propor que o Senado da República
realizasse esta sessão especial destinada a comemorar o Dia Mundial
da Água e o lançamento da Campanha SOS H2O. Trata-se, sem
dúvida alguma, de oportunidade ímpar para mobilizar a sociedade
em torno de um tema pungente que afeta a vida cotidiana de milhões
de habitantes do Planeta Terra, especialmente daqueles mais pobres, incluindo-se
nessa conta milhões de cidadãs e de cidadãos brasileiros.
Sr. Presidente, quando Deus criou este maravilhoso Planeta, que é
a Terra, Ele o fez coberto de água. Dotado de infinita sabedoria
e bondade, sabia que sua obra-prima – o homem – precisava
dela para sobreviver e se perpetuar. E é por causa da água
que sobrevivemos e nos mantemos até os dias de hoje. Sem comida,
podemos sobreviver semanas, mas, sem água, teremos sorte se sobrevivermos
alguns dias. Ela só não é mais importante que o ar
que respiramos. Nosso próprio organismo é composto de água!
Nosso Planeta tem 70% de sua superfície coberto por esse precioso
líquido!
Se soubéssemos partilhar, não faltaria água para
ninguém. A despeito de apenas 2,4% de toda água existente
na Terra ser doce, se fôssemos capazes de planejar nossas atividades
e de distribuir igualitariamente os recursos naturais necessários
à sobrevivência, não haveria guerra pela água
e ninguém morreria de sede. A realidade, porém, é
muito distinta. A água é mal distribuída entre as
regiões do globo, além de ser mal aproveitada. Enquanto
uns desperdiçam, outros padecem de falta d’água e
de doenças oriundas da contaminação dos mananciais.
Sobre o tema, apresentei – em meados do ano passado – projeto
de lei que acrescenta, como Diretriz Geral de Política Urbana,
a adoção de normas de utilização de sistemas
de coleta, armazenamento e utilização de águas pluviais
e de reutilização de águas servidas nas construções,
públicas e privadas, em toda a área de influência
do Município. Além disso, o nosso projeto – o PLS
nº 411, de 2007 – prevê que os edifícios de uso
coletivo somente poderão ser construídos com recursos do
Sistema Financeiro da Habitação se contiverem previsão
de sistemas de coleta, armazenamento e utilização de águas
pluviais e de reutilização de águas servidas. E,
por fim, prevê que as edificações existentes deverão
instalar sistemas de coleta, armazenamento e utilização
de águas pluviais e de reutilização de águas
servidas no prazo de um ano, a partir da publicação da lei.
Para exemplificar a importância do projeto, pode-se citar a construção
do novo Centro Administrativo do Distrito Federal, o novo Buritinga, um
projeto de construção de 14 prédios para abrigar
15 mil servidores, em Taguatinga. Na construção do conglomerado
de edifícios públicos, encontra-se a previsão de
aproveitamento da água da chuva, como prevê o nosso projeto,
Sr. Presidente.
No momento, esse projeto encontra-se em tramitação na Comissão
de Desenvolvimento Regional, sob a relatoria do ilustre Senador Cícero
Lucena, Parlamentar alinhado com a defesa das questões ambientais.
Preocupada com a situação mundial, a ONU estabeleceu o dia
22 de março como o Dia Mundial da Água, sendo seguida pelo
Congresso Nacional brasileiro, que instituiu o mesmo dia como Dia Nacional
da Água. Se existe uma preocupação mundial com o
tema, existe também uma enorme preocupação em nosso
País. A água brasileira é mal distribuída:
a Região Norte detém quase 70% de todas as reservas brasileiras,
ao passo que o Nordeste dispõe apenas de 3%.
Minha inesquecível experiência de vida na Fazenda Nova Canaã,
no sertão da Bahia, credencia-me a afirmar que o nordestino sofre
muito mais do que pensamos com a falta d’água: morrem de
sede os animais, secam as plantas esturricadas sob o sol, mas o drama
maior pertence às pessoas, obrigadas a andar quilômetros
para apanhar uma lata de água ou economizar gota a gota à
espera do socorro dos caminhões-pipa. A escassez hídrica
no Nordeste mata, e mata principalmente as crianças, vítimas
do consumo de água contaminada, que causa diarréia e vômitos,
entre outras mazelas.
O jornal Correio Braziliense de hoje apresenta relatório lançado
no Rio de Janeiro, pela ONG “Defensoria da Água”, que
alerta que as contaminações de recursos hídricos
no Brasil já atingem 15 milhões de pessoas, identificando
21 mil áreas seriamente afetadas no País. Segundo o relatório,
a contaminação de cursos d’água cresceu 280%
entre 2004 e 2007, em comparação com os quatro anos anteriores.
No meu querido Estado do Rio de Janeiro, segundo o relatório, há
três pontos críticos principais: o primeiro, em Duque de
Caxias, na Cidade dos Meninos, onde estão armazenados mais de 400
toneladas de BHC, com risco de que o rejeito químico penetre no
lençol freático; outro, em Volta Redonda, onde mais de 40
milhões de toneladas de escória da CSN estão depositados
às margens do rio Paraíba do Sul; e, por fim, outro em Maricá,
onde há denúncias de que existem resíduos nucleares
da Westinghouse, na antiga Companhia Videira.
Sr. Presidente, essa escória de alto-forno, segundo a norma brasileira,
pode ser matéria-prima de 85% de um saco de cimento Portland de
alto-forno. Mas, por falta de crescimento, o País consome pouco
cimento e essa escola dos alto-fornos da Companhia Siderúrgica
Nacional acabam se acumulando. E lá existem 40 milhões de
toneladas. Como o metro cúbico deve pesar duas toneladas, temos
aí, portanto, 20 milhões de metros cúbicos do lado
do rio Paraíba do Sul, um risco tremendo.
Mesmo onde há maior disponibilidade natural desses recursos, como
é o caso do Sudeste, quase nunca os mananciais são bem preservados.
Quantos e quantos rios do Sudeste não estão poluídos?
Cursos d’água que no início do século passado
davam de beber às pessoas e aos animais são hoje verdadeiros
esgotos a céu aberto. De solução, esses rios viraram
problemas para uma série de cidades que cresceram desordenadamente
às suas margens. Nunca nos devemos esquecer: não fica impune
quem destrói a natureza; um dia ela cobra o preço, e o preço
é muito alto para o ser humano.
Talvez um dos maiores exemplos de destruição de um curso
d’água seja o rio Tietê, em São Paulo. Mas no
Rio de Janeiro as coisas não são diferentes. Os lagos do
meu Estado padecem com a ocupação desordenada de suas margens,
cujo interesse econômico, prioridade imediata para alguns, deixou
de lado a necessária preservação ambiental, bem como
os investimentos em saneamento básico.
Sr. Presidente, estive recentemente, no Rio de Janeiro, com a Ministra
Marina Silva e com esse ilustre companheiro do Ministério do Meio
Ambiente, discutindo com as comunidades, com os líderes comunitários,
com os ambientalistas e com o Secretário Estadual de Meio Ambiente,
o caso da poluição das lagoas da Barra da Tijuca, que estão
assoreadas, sujas, matando peixes, causando mau-cheiro, enfim, deteriorando-se,
uma das áreas mais lindas da cidade que é a mais linda do
Brasil, o Rio de Janeiro.
As lagoas de Jacarepaguá têm solução. Basta
que desencadeemos uma ação concertada das três esferas
de Governo de forma a recuperar o ecossistema, reflorestando faixas marginais,
controlando a ocupação do solo e dotando a região
de um sistema de saneamento básico eficiente.
A questão da água no Brasil também tem solução,
e é por isso que estamos aqui no dia de hoje. Além de uma
política nacional de recursos hídricos eficaz, que privilegie
o caráter público da água, é preciso conscientizar
toda a sociedade brasileira de que se trata de um bem finito e, por isso
mesmo, muito precioso. E, como todo bem precioso, temos o dever de cuidar
da nossa água.
Gostaria de externar minha satisfação com os idealizadores
da Campanha SOS H2O, que está sendo lançada no dia de hoje.
Como toda iniciativa que vise a conscientizar a comunidade do uso racional
da água, a Campanha merece o apoio do Parlamento e da sociedade
brasileira.
Para aqueles que padecem da falta crônica de água, é
preciso haver ação governamental. O Governo do Presidente
Lula tem encarado a questão de frente, investindo especialmente
em uma obra grandiosa, a transposição das águas do
Rio São Francisco. Entretanto, é preciso continuar com as
pequenas iniciativas, mas que possuem grande penetração,
como, por exemplo, a construção de cisternas para captação
de água da chuva. São essas ações capilares
que beneficiam ainda mais o nordestino, pois o que ele mais precisa é
de água para beber, plantar e criar seus animais.
Que as comemorações do Dia Mundial de Água sirvam
de alerta para toda a sociedade brasileira. Todos precisam saber que a
água é um bem finito e escasso. E, por ser vital para nossa
sobrevivência, não pode ser desperdiçado, ainda mais
quando existem milhões de pessoas que sofrem com sua falta.
Sr. Presidente, gostaria de ressaltar que, no princípio da existência
do homem, só havia água para beber. Mais tarde, com os egípcios,
surgiu a cerveja e, com ela, a escrita. Depois da cerveja, veio o vinho,
com os gregos; e, com o vinho, a poesia. Depois, na era dos descobrimentos,
sobretudo nos Estados Unidos, o vinho dos cereais, o álcool, as
bebidas destiladas, o uísque. No período da globalização
surgiram as bebidas industriais, a coca-cola. Antes disso, o chá,
do imperialismo inglês. Depois a coca-cola.
Sr. Presidente, é possível que a água volte, por
sua escassez, a ter o papel preponderante, na humanidade, que tinha no
início da criação. E é fundamental que nos
preocupemos com as futuras gerações nessa questão
do uso da água.
Há três anos, Sr. Presidente, venho tentando aprovar um projeto
para revitalização das águas servidas, águas
de banho, de pia, não precisa ser água de vaso sanitário.
Essas águas poderiam ser reutilizadas com pequeno tratamento, para
limpeza de áreas comuns nas habitações, nos edifícios,
até mesmo nas casas.
É assim que ocorre na Fazenda Nova Canaã, um projeto no
qual tive oportunidade de trabalhar, no sertão da Bahia, onde há
vinte poços, dez deles produzindo água. Com irrigação
a gotejamento, produzimos todo tipo de fruta, sobretudo fruta-de-conde.
Nossa última produção foi de mais de um milhão
de frutas, doze mil pés plantados, irrigados gota a gota. E, entre
um pé e outro, melancia, feijão e milho. Isso mostra que,
quando usamos a água de maneira contabilizada ou de maneira judiciosa,
ela produz muito, muito mesmo.
De tal maneira que faço votos de que nossos projetos e nosso esforço
para conscientizar a sociedade brasileira tenham realmente a repercussão
que merecem ter. Que a Agência Nacional de Águas, que o Ministério
do Meio Ambiente, que os órgãos setoriais, estaduais e municipais
nos ajudem e possamos todos garantir às futuras gerações
o bem supremo da vida, que, depois do ar, é a água.
Obrigado, Sr. Presidente.
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