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Homenagem aos 60 anos de criação do Estado
de Israel.
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O
SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ. Pela Liderança. Sem
revisão do orador.) – Cumprimento o Exmº Sr. Presidente
do Senado, Senador Garibaldi Alves Filho; a Exmª Srª Embaixadora
de Israel, Tzipora Rimon; o meu querido amigo Senador Adelmir Santana;
o querido amigo Jack Leon Terpins, Presidente da Confederação
Israelita do Brasil; o Exmº. Sr. Deputado Federal Dr. Talmir, de
Presidente Prudente, São Paulo; cumprimento todos os senhores convidados,
Senadores, Parlamentares, o Deputado Marcelo Itagiba – talvez tenha
tido a necessidade de se retirar –, os telespectadores da TV Senado,
os senhores ouvintes da Rádio Senado. Gostaria também de
cumprimentar o apóstolo e missionário Pastor Doriel, que
está aqui conosco, um grande servidor da causa de Israel, um homem
da Bíblia, das mais altas tradições daquele povo,
assim como o Senador Augusto Botelho, companheiro querido, e o Senador
Cristovam Buarque.
Sr. Presidente, as nacionalidades dependem muito de sua configuração
física, dos acidentes imprevisíveis e misteriosos de sua
formação, dos nomes telúricos que lhe vincam a índole
e a vocação, mas não há notícias na
história de que qualquer delas haja se tornado nação
culta, poderosa, influente e determinada sem a presença de seus
condutores, visionários, proféticos, sem os seus guias hábeis,
viris, sem os seus líderes sábios e generosos que, nas virtudes
e defeitos de seus povos, são capazes de argamassá-los valentes,
bravos, com olhar fito no futuro, para rasgar nos horizontes a perspectiva
iluminada do seu destino.
Deles está referta a história de Israel, desde aquelas páginas
encantadoras de beleza e de heroísmo escritas pela patrono, pelo
pai Abraão, que sai de Ur, na Caldéia, e, nas suas peregrinações,
deixando o Crescente Fértil em direção ao Oriente
Médio, sai com sua esposa Sarah e seu sobrinho Ló em busca
de um sonho, o sonho de ser pai de uma grande nação.
Nas vicissitudes, no calor e no frio do deserto, o frio da noite, Abraão,
só quando sua esposa tinha noventa anos de idade, ele vê
seu sonho realizado e passa a ser, realmente, o pai da nação,
quando, num episódio marcante, na tenda em que habitava no deserto,
ele é convidado, pelo Deus a quem servia, a olhar para o céu;
céu sem nuvens, céu de deserto. Ele, então, é
desafiado a contar as estrelas do firmamento ou os grãos de areia
que estão sob seus pés. E a promessa vem: “Assim será
tua descendência”.
Ele era pai de um filho só, que, aos 12 anos de idade, numa caminhada
de 100 quilômetros, de Bercheva a Jerusalém – caminhada
áspera, dura, difícil, terminando numa montanha enorme,
para apresentar Isaac, no Monte Moriá –ele, ali, naquele
instante, mostra toda a sua bravura, toda a sua fé, toda a sua
crença, quando, destemidamente, oferece em holocausto o filho que
era encanto dos seus olhos, o sonho de sua alma, por quem peregrinou por
aqueles desertos em busca da concretização da promessa,
acreditando que o Deus dos seus antepassados iria ressuscitá-lo
das cinzas e dar a ele novamente a vida. Ali, Abraão passa a ser
pai não apenas dos judeus; passa a ser pai dos cristãos
e até dos muçulmanos, pelo gesto de fé que caracteriza
esse povo, que consegue vencer tudo e todos os percalços, motivado
por essa fé extraordinária que lhe foi plantada no coração
pelo seu herói maior.
Mas, Sr. Presidente, eu faria aqui uma grande injustiça se não
falasse de Moisés, o legislador, o homem que...
O SR. PRESIDENTE (Garibaldi Alves Filho. PMDB – RN) – Senador
Marcelo Crivella, V. Exª há de me perdoar, mas terei que me
ausentar neste momento, porque está, no nosso gabinete, o Ministro
Gilmar Mendes, Presidente do Supremo Tribunal Federal. Eu vim aqui para
participar pelo menos de alguns minutos desta sessão e ainda espero
voltar. Se Deus quiser, espero voltar, porque tenho algumas palavras de
saudação a dirigir também ao povo israelense por
ocasião desta data.
Então, peço desculpas, mas, se Deus quiser, estarei de volta.
Por enquanto, o Parlamento continua muito bem representado por V. Exª,
na tribuna da Casa.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Obrigado, Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Garibaldi Alves Filho. PMDB – RN) – Passo
a Presidência ao Senador Adelmir Santana.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Esperamos que V.
Exª possa retornar.
Dizia eu, Sr. Presidente, que Moisés, o grande legislador, deixa
marcados, na história da humanidade, os princípios fundamentais
de cidadania. O que, hoje, Sr. Presidente, mais tememos no Brasil, senão
a concentração de poder e renda? Qual é o desafio
que, desde a proclamação da nossa República, enfrentamos?
Nem falo nos 350 anos de escravidão, nas páginas da história
das quais Nabuco, Patrocínio e Princesa Isabel nos redimiram, da
vergonha extrema brasileira. Falo a partir da República. O maior
combate que se faz político e cívico neste País é
contra a concentração de poder e renda.
Bastaria ouvir Moisés, que pregava o dízimo: “Dez
por cento devem ser dados aos pobres”. Moisés dizia, Sr.
Presidente, que, ao chegar a um campo, as espigas que caíssem,
que não ficassem na bolsa, deveriam ser deixadas para os pássaros
e para os necessitados. De 7 em 7 anos, todas as dívidas deveriam
ser perdoadas, e, no ano do jubileu – de 7 vezes 7, 49 anos –,
já não deveria haver mais servidão.
Está aí, Sr. Presidente, a mensagem de Moisés, pelos
anos, pelos milênios, a tentar construir uma sociedade sem concentração
de poder e renda, que é hoje a raiz de todas as amarguras que vilipendiam
o cotidiano dos brasileiros. Nunca se viu no mundo 15 mil famílias
deterem 80% dos títulos da dívida pública brasileira,
enquanto há, do outro lado, mais de 80 milhões de brasileiros
vivendo, muitos deles, com US$1,00 por dia, Sr. Presidente.
Está aí a lição de Moisés, mas não
foi só Moisés. O grande estadista, o fundador de Jerusalém,
o salmista; o mais lido e mais cantado artista da história do mundo,
o Rei David e seu filho Salomão, com seus provérbios. E
o que dizer dos profetas Daniel, Ezequiel, Isaías, Jeremias? E,
aqui, Sr. Presidente, cito um: Habacuc, que, nas suas reflexões,
na angústia da sua alma, vendo Jerusalém, a terra que amava,
cercada, na ocasião, pelos caudeus, por Nabucodonosor – um
exército fortíssimo, contra o qual não teria nenhuma
chance –, ele faz uma pergunta, Sr. Presidente, que representa bem
a alma de todas as pessoas, de todos os povos, independentemente da data
em que viveram e independentemente do nome que carregam. O livro de Habacuc
começa com uma frase: Por quê? Por quê? Quem de nós,
diante de uma criança que nasce defeituosa, já não
perguntou a mesma coisa: por que, meu Deus? Diante de uma bala perdida,
que mata um inocente numa comunidade carente, lá, no meu Rio de
Janeiro: por que, meu Deus? Por que um raio cai do céu e taca fogo
na casa de uma pessoa pobre?
Por que essas coisas acontecem? E Habacuc fez a mesma pergunta: por que,
meu Deus, Jerusalém será destruída? E ele cunha,
Sr. Presidente, uma sentença, uma frase bela e estupenda que iria
atravessar os séculos e que, 600 anos depois, inspiraria o apóstolo
Paulo a escrever a Carta aos Hebreus e, nos anos de 1.500 anos, na época
da descoberta do Brasil; iria inspirar dois homens – um, na Suíça,
João Calvino, e outro, na Alemanha, Martinho Lutero – a fazerem
a reforma da Igreja.
Habacuc cunhou uma frase bela, estupenda, mas não se podia dizer
isso dos momentos de angústia, das armadilhas da vida, das vicissitudes
do destino, quando ele diz: “O justo viverá pela sua fé”.
Mas não se podia dizer, Sr. Presidente, em momentos como esse:
ou a fé nos dá a vida, ou não há dinheiro;
não há cultura, não há nada no mundo. Passamos
a ser um sal sem sabor, uma dessas nuvens sem água, levadas pelo
vento.
Sr. Presidente, o Brasil tem laços históricos com Israel.
O Brasil acompanha com atenção a história de Israel
e a conhece muito bem. O povo brasileiro é um dos que mais visitam
a Terra Santa nas peregrinações.
Sr. Presidente, quando, por ocasião da morte de Cristo e do cerco
dos romanos, em que os judeus são espalhados pela diáspora
– e ainda nem havia Brasil, ainda não se havia fundado este
País –, há, ali, histórias de bravura, de heroísmo;
momentos que marcam a consciência de todos os homens nas páginas
da história.
Quando, no século XIX, Sr. Presidente, começa a haver o
anti-semitismo na Europa, sobretudo na Europa Central e Europa Oriental
– e isso faz criar, por efeito colateral, um novo nacionalismo,
o sionismo –, o povo judeu começa a voltar da sua diáspora
para ocupar a Terra Santa. E, sobretudo, quando se torna, depois da Primeira
Guerra Mundial, um principado inglês – e aí o retorno
se torna mais maciço e provoca também outro tipo de nacionalismo,
o nacionalismo palestino –, o Brasil começa a ter uma participação
efusiva, extraordinária, muito bonita, principalmente e sobretudo
quando o maior demagogo da história, na sua insana conquista ou
tentativa de conquistar o poder em escala mundial, faz-nos conhecer os
passos daquela cruzada do holocausto.
Sr. Presidente, permita-me repetir, como Parlamentar e como homem da liberdade,
que só entendo a política como caminho da liberdade e da
construção da paz. Não há outro objetivo maior
para a política, senão esse.
Aproveitando-se dos revezes econômicos, Hitler envenena o povo alemão
com as quimeras da revanche, da vingança, e, a partir daí,
é o assassinato dos líderes populares, é a censura
da imprensa, é a covarde obediência do grande capital e a
inexplicável e triste adesão das forças armadas.
E, aí, segue-se a caminhada de sangue daquele reich que deveria
durar mil anos e que acabou com o suicídio de um insano num bunker
alemão, não sem antes marcar de vergonha a história
da Humanidade com suas piras do holocausto nos campos de concentração.
Sr. Presidente, naquela ocasião, invadindo a Tchecoslováquia,
hoje República Tcheca, devido à morte do segundo maior oficial
nazista da SS, Hitler ordena que na cidade de Lídice sejam mortos
todos os homens, as mulheres sejam transportadas para a Alemanha, o curso
do rio seja trocado, a cidade aterrada e as crianças levadas para
reformatórios.
Nessa ocasião, o mundo começa a despertar para o horror
daquela guerra sem propósitos e decide, nos países democráticos,
criar cidades, batizar crianças e vilas com o mesmo nome, Lídice,
para contrariar aquela sanha assassina e mostrar que o mundo não
permitiria um gesto de tamanha brutalidade.
No Brasil, a Lídice surge, para orgulho nosso, no Estado do Rio
de Janeiro. É, hoje, um distrito de Rio Claro e surgiu como uma
revolta do povo brasileiro contra aquela cruzada de horror e sangue.
Rui Barbosa já nos havia advertido quanto aos terrores da violência
e as deformações da força quando fez penetrar na
consciência brasileira, e ali se cristalizar, o respeito ao voto
soberano do povo, o acatamento às decisões dos tribunais
íntegros e livres, a obediência cega à Constituição,
mas sobretudo, e principalmente, o horror a todas as formas de tirania
que se extravasam sempre na intolerância, na perseguição,
na opressão e no sangue.
Sr. Presidente, essa expressão do povo brasileiro de criar a Lídice
nacional já mostrava que, aqui, o povo judeu encontraria um aliado
de todas as horas e de todos os momentos.
Eu, Sr. Presidente, não quero me delongar, mas não poderia
deixar de dizer essas palavras que me ditam o coração, por
todos os laços que tenho com Israel, por ter estado lá mais
de 30 vezes, por conhecer os kibutzs, por ter trazido para cá técnicos
extraordinários, agrônomos e hidrólogos, que moraram
comigo no sertão da Bahia e fizeram um projeto – a Fazenda
Nova Canaã, bem na área mais seca daquele sertão
– de imenso sucesso. No ano passado, colhemos mais de um milhão
de frutas-de-conde, com doze mil pés plantados, o que mostra, Sr.
Presidente, que todo aquele equipamento que eu trouxe, que todas a orientações
a que obedeci ainda continuam funcionando. É um exemplo de reforma
agrária que o Governo deveria seguir, já que temos 5.800
assentamentos. No entanto, infelizmente, com exceção de
alguns deles, localizados no Sul do País, o restante, para a nossa
tristeza, são favelas rurais.
Sou testemunha da técnica, da genialidade, de vencer as agruras
do tempo e do terreno com criatividade, com ciência, com genialidade,
mesmo, eu diria.
Sr. Presidente, deixe-me voltar ao texto que escrevi, para não
me tornar fastidioso e acabar incomodando os meus ouvintes – esse
não é o meu objetivo.
Lídice, Sr. Presidente, tornou-se um símbolo da crueldade
nazista, mas também um símbolo da resistência, da
solidariedade e da busca pela paz entre os homens de boa vontade, que
em diversos países, como eu disse, criaram cidades e batizaram
vilas com esse nome, para fazer prevalecer a esperança, para que,
após o dilúvio apocalíptico de sangue, fogo e ferro
daquele cataclismo de conflitos ideológicos, surgisse nos horizontes
o amanhecer de uma manhã sem nuvens, iluminada e clara.
No Brasil, esse gesto de indignação e afirmação
cívica, de revolta e também de solidariedade se materializou
na linda Lídice brasileira, distrito de Rio Claro, no meu Estado
do Rio de Janeiro. Era o povo brasileiro, inconformado, levantando-se
contra a prepotência do monstro ariano.
Hoje, nossos ideais de paz e liberdade continuam os mesmos. Da mesma forma,
com o mesmo sentido, celebrar os 60 anos de aniversário da criação
do Estado de Israel é celebrar a paz. E a paz deve ser construída
para que o homem seja digno da imagem e semelhança de Deus. Necessitamos
da paz, mas nunca da paz comprada com a submissão, da paz imposta
pela força. A paz sem a liberdade é a paz do gueto de Varsóvia,
quando, segundo a mensagem dos soldados de Hitler, já não
havia mais um judeu na Polônia ocupada. Eis, aí, a mais abjeta
das felonias, o mais odioso dos crimes, cometido em nome da ordem e da
raça.
Sr. Presidente, estou entre aqueles que não conferem ao vocábulo
“raça” nenhum valor, seja cultural ou científico.
Essa palavra surge na Espanha, que, por razões geográficas,
é a “esquina” do mundo. Por ali passaram hebreus, passaram
árabes (os mouros), passaram escravos, passaram tantos povos que
os espanhóis, apenas no sentido didático, criaram essa palavra.
Mais tarde, ela vai para o dicionário alemão pregar uma
eugenia entre aqueles que defendem a origem, Senador Mão Santa,
a hedionda origem zoológica do homem. O homem sempre será
a imagem e semelhança de seu Criador.
Sr. Presidente, paz quer dizer ordem, mas a ordem que vem da razão
e do amor, e não aquela defendida pelos adeptos, como eu disse,
de uma teoria zoológica do homem, que se baseia na política
dos instintos.
O povo de Israel foi escolhido para essa eugenia louca do füehrer,
para o extermínio inicial. Os judeus estavam na primeira fila daquela
insanidade, juntamente com os ciganos. Depois, viria o sacrifício
dos eslavos, dos negros, dos latinos, dos asiáticos. A sobrevivência
do povo judeu aos horrores da guerra é a mais solene, majestosa
e gloriosa declaração de liberdade e dos princípios
da dignidade humana, que devem prevalecer na consciência dos homens
e dos povos.
O maldito liberticídio alertou o mundo para o ímpeto desvairado
de uma fúria insana, na busca da conquista do poder em escala mundial.
O horror daqueles dias e o sangue inocente que verteu daquele holocausto
de Birkenau, Sachenhausen, Terezín, Treblinka e Auschwitz abalaram
para sempre a história da Humanidade.
Volto, neste instante, minha memória para aquela foto, difundida
no mundo inteiro, tomada, Sr. Presidente, naquela ignominiosa, oprobriosa
Praça do Embarque, de onde partiam as famílias judias para
a morte no Leste.Falo da foto da daquela menino de cinco anos, com as
mãos levantadas, sob a mira de um fuzil nas mãos de um soldado
do reich que pretendia durar mil anos. Que fim levou aquele menino? A
imagem daquele menino puro, inocente e indefeso, será sempre um
grão de remorso e amargura na consciência do mundo, a nos
lembrar de outros tantos meninos de qualquer parte do mundo que devem
ser defendidos de insanidades como essa.
Quero também, Sr. Presidente, deixar aqui, como últimas
palavras, uma frase que deve alertar todos os amantes da democracia e
da liberdade: não se pode descuidar do passado. Ele sempre retorna
quando nos falta vigilância.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
(Palmas.)
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