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Sobre o Dia Mundial da Saúde e a epidemia da dengue
que assola o Estado do Rio de Janeiro.
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SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ. Como Líder. Sem revisão
do orador.) – Gostaria de saudar o Senador Eduardo Azeredo por esta
iniciativa tão necessária e justa. Quero saudar também
o Sr. Eduardo Santana, Presidente da Federação Nacional
dos Médicos do Brasil – Fenam; o Sr. Eduardo Oliveira, Presidente
da Federação Brasileira de Hospitais; o querido Deputado
Rafael Guerra, Presidente da Frente Parlamentar da Saúde; e o Sr.
Ministro José Gomes Temporão, juntamente com todo o corpo
dos seus auxiliares imediatos e diretos, os quais acompanho com simpatia,
admiração e entusiasmo pelo excelentes serviços prestados
à Nação. Penhoro minha desvaliosa, mas sincera colaboração,
meu apoio.
Ao iniciar meu pronunciamento, eu gostaria de me solidarizar com o Senador
Eduardo Azeredo pela iniciativa de realizar esta homenagem pelos 60 anos
da Organização Mundial da Saúde e pelo Dia Mundial
da Saúde, com seu transcurso no último dia 7.
Poderia aqui discorrer sobre a relevância da atuação
da OMS, sobre seus benefícios em todo o mundo ao longo desses 60
anos da história. Poderia também me aprofundar nas discussões
sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde
de todos nós. Essa é uma preocupação do Dia
Mundial da Saúde, que tem esse como seu tema. Contudo, senhoras
e senhores, como Líder do Partido Republicano Brasileiro e representante
do Estado do Rio de Janeiro, gostaria de tecer alguns comentários
sobre aquilo que fartamente tem sido noticiado na imprensa, na mídia,
que é a epidemia de dengue no meu Estado.
Mais de 31 mil casos foram registrados, 68 pessoas até ontem morreram
no Estado, 45 delas na Capital. A situação é de tal
forma dramática que 50 pessoas contraem a doença a cada
hora.
Infelizmente, a dengue não é algo novo no Brasil. É
uma tragédia nacional tão antiga quanto os navios negreiros,
que trouxeram o Aedes aegypti. Apesar da proliferação do
mosquito, a maioria dos países das Américas havia conseguido
erradicá-lo na década de 60. Mas alguns não conseguiram
êxito nessa tarefa e reinfestaram os outros. Foi o que ocorreu com
o Brasil, que havia erradicado o vetor, mas voltou a conviver com ele
a partir de 1976. Desde então, temos enfrentando esse problema
da dengue.
A primeira epidemia, depois de 60 anos sem o registro da doença
no território nacional, foi em 1982, em Boa Vista, Roraima, com
estimativa de 12 mil casos. Em 1986, o Rio de Janeiro teve uma grande
epidemia da doença na Baixada Fluminense, no Município de
Nova Iguaçu.
A dengue, apesar de ser uma doença grave e antiga, registra taxas
de mortalidade assustadoras. Ocorre que muitos pacientes estão
hoje falecendo exatamente por não podermos atender a todos da maneira
preventiva que deveria nortear nossas ações. Às vezes,
temos diagnósticos tardios. Há muita gente à espera
de uma simples hidratação, ou de uma transfusão de
sangue nos casos mais graves. É bom lembrar que são necessários
sete doadores para se obter o sangue suficiente para tratar um paciente
com dengue hemorrágica.
O que verificamos hoje no Rio de Janeiro é um problema histórico.
Certamente, não é de agora. As atuais administrações,
tanto a estadual quanto a municipal, têm sua parcela de responsabilidade
para com o agravamento da situação.
Sabemos que o combate ao mosquito transmissor da doença é
muito complexo e pouco efetivo, não só no Brasil como em
todo mundo. O inseto tem uma grande capacidade de adaptação
a condições adversas. Justamente por isso, precisamos envidar
todos os esforços para combatê-lo.
Por esse motivo, aproveito esta oportunidade para, mais uma vez, buscar
o entendimento entre o Governador Sérgio Cabral e o Prefeito César
Maia, para que haja uma consolidação de esforços
conjuntos no combate a essa doença, o que, infelizmente, não
tem havido na cidade do Rio de Janeiro.
Foi noticiado pela imprensa que recursos enviados pelo Ministério
da Saúde no passado para as equipes de combate às endemias
foram desviados para a compra de ambulância. É notório
também que a cidade do Rio de Janeiro é, entre as cidades
do Brasil, aquela que apresenta a taxa mais baixa de cobertura do Programa
Saúde da Família, que, na nossa Capital, alcança
apenas 5%.
Temos também o grave problema de os nossos 117 postos de saúde
municipais ainda não estarem, mesmo com decisão da Justiça,
mesmo com apelo popular, abertos 24 horas, inclusive nos finais de semana.
A hipótese que vínhamos contemplando era de que não
havia médicos. E, de fato, outros Estados estão enviando
médicos ao Rio de Janeiro. Há a colaboração
da Santa Casa de Saúde, que disponibilizou 150 leitos. Infelizmente,
a nossa rede privada está com seus leitos engarrafados com os pacientes
dos planos de saúde, e não há proposta de melhorar.
A tabela do SUS poderia aliviar neste momento de grande demanda. Mas o
fato é que não temos tido, por parte da Administração
da saúde municipal, uma, eu diria, facilidade em termos de trabalho
conjunto. As verbas são curtas.
Eu quero dizer daqui – e não aceito que qualquer político,
seja ele quem for, ou de qual partido for, tome isso como politicagem
– que o dia mais triste do meu mandato foi quando, por quatro votos,
a maioria não conseguiu renovar a CPMF. Nesse dia fatídico,
esta Casa, a meu ver, desertou dos seus compromissos com a saúde
do nosso povo mais simples.
Os que lutavam contra a renovação da CPMF não eram
os movimentos sociais. Era a Fiesp, que para cá trouxe dois milhões
de assinaturas, representando aqueles que não precisam de saúde
pública, que não fazem filas nos hospitais municipais, estaduais
ou federais, porque, graças a Deus e é bom que assim seja
, possuem recursos para ter plano de saúde. Setenta e dois por
cento dos recursos da CPMF, que chegavam a R$40 bilhões, vinham
da especulação financeira, remunerada com os juros mais
altos do mundo, da mais anômica, sem precedentes, transferência
de capital de pobre para rico da história do capitalismo.
Perdemos. E perdeu a saúde. Dia mais triste do meu mandato. Espero,
um dia, poder esquecer. Infelizmente, ainda não esqueci. E terminamos
a nossa Sessão Legislativa em um melancólico crepúsculo,
em uma vil e apagada tristeza, que marcou a todos naquela madrugada.
Mas, Sr. Presidente, as minhas palavras, neste dia, serão de celebração.
E eu quero dizer que chegou a hora do Rio. Aquele Rio que não se
curva, que não se humilha, que não rasteja, que não
se corrompe e não trai. Aquele Rio que, no padrões da nossa
cultura, em momentos de desafio e motivado por um orgulho histórico,
porque, nos primórdios da nossa civilização, nos
primórdios da nossa cidadania republicana, foi palco das ações
efetivas de Oswaldo Cruz, sanitarista que inspira e ilumina nossos pensamentos
e ações , se ergue.
O Rio se ergue neste momento de crise, o Rio enfrenta seus problemas,
o Rio vai sair dessa. E tenho certeza de que essa lição
vai nos preparar para sermos, no ano que vem, o Estado a capital e a cidade
com o mais positivo embate e com os melhores resultados a essa endemia.
Tenho certeza de que isso há de motivar os cariocas, os fluminenses,
a nossa classe médica que é altiva e audaz, todos eles,
sobretudo suas lideranças, cuja vida é tecida no estudo,
no trabalho sério, na bondade e nessa, eu diria, determinação
inflexível de lutar pela saúde do nosso povo a vencer mais
essa etapa.
O Rio de Janeiro não se abate, não se diminui. Pelo contrário,
com suas autoridades e com seu povo, há de superar essa dor e sair
fortalecido.
Quero aqui reafirmar o profundo orgulho que tenho de fazer parte deste
Governo que levou mais de 20 milhões de brasileiros pobres das
classes D e E para a classe C. Não sei se poderia haver melhor
ação de saúde do que essa, em um País onde
persiste tanta fome e tanta desigualdade social.
As comunidades do Rio de Janeiro, Sr. Presidente, para concluir, nascem
de uma tragédia histórica. Nossos soldados da guerra do
Paraguai muitos deles recrutados nos guetos das senzalas, por decreto
de Dom Pedro II, os voluntários da Pátria eram negros, muitos
deles.
Um dos artigos da Lei Voluntários da Pátria, publicada no
Jornal do Comércio, em uma segunda-feira do mês de março
de 1864, dava aos escravos a oportunidade de terem alforria se fossem
lutar na guerra. Passaram cinco anos na guerra do Paraguai e voltaram,
mas encontraram a lei do branco: alforria sem trabalho e moradia. Foi-lhes
dada a autorização de improvisar suas casas no Morro da
Providência, pertinho do cais do porto atual.
Assim começa essa emboscada, essa armadilha sanitária, que
são áreas extremamente populosas, onde as casas são
improvisadas, onde não existe esgoto, nem abastecimento de água
adequados, onde há lajes sem cobertura de telhados, trazendo àquelas
casas um deplorável estado de habitalidade. E, mais do que isso:
na época do verão, empoçam, em cima daquelas lajes
de concreto, porque não há cobertura de telhado, dezenas,
centenas, milhares de pequenas poças de água da chuva, onde
os mosquitos colocam trinta, cinqüenta ovos. Nessa hora larvar, não
há combate, não há acesso para a laje. Depois que
essas larvas se tornam insetos alados, eles vivem algumas semanas, mas
são capazes de voar dois, três quarteirões e picar
trezentas pessoas, o que faz com que o combate à doença
seja complexo.
Desde aquela ocasião, desde 1870, nossas comunidades carentes ainda
não tiveram tratamento adequado.
Neste Governo, no PAC, especificamente no Rio de Janeiro e naquela comunidade,
está-se fazendo uma obra de resgate social histórico, porque
o Presidente Lula, por sua determinação direta, o Ministro
das Cidades e o Ministério do Exército estão urbanizando
aquela comunidade. O Favela-Bairro, projeto financiado com recursos do
exterior, parava na porta das pessoas. Agora, não. Agora, estão-se
colocando telhados, está-se pintando, está-se emassando,
dando dignidade e mais habitabilidade à casa das pessoas. Tenho
certeza de que, se esse modelo for seguido, seguramente, estaremos caminhando
no sentido de haver muito mais condição sanitária
para a nossa população pobre, que é, no fundo, a
mais sofrida.
Queria fazer esse registro histórico, Sr. Presidente, para que
tivéssemos uma perspectiva justa, honesta do desenvolvimento da
nossa civilização e dos imensos desafios que cumprem à
nossa geração.
Termino, congratulando-me com essa distinta e ilustre platéia,
com os nossos ouvintes e telespectadores e, sobretudo, com as autoridades
da Mesa, dizendo ao Ministro Temporão que a Bancada do Rio de Janeiro
e o povo do Rio de Janeiro, ainda que V. Exª tenha atravessado, neste
momento de angústia, dramas pessoais que demonstraram ao Brasil
sua devoção ao serviço público e suas resistências
morais, manifestamos toda a nossa solidariedade.
Parabéns a V. Exª, nosso respeito e apreço.
Muito obrigado, Sr. Presidente. (Palmas.)
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