|
| |
Imprensa deve ter cuidado com divulgação de
notícias que não são apuradas.
|
O SR.
MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ. Pronuncia o seguinte discurso.
Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Srªs e Srs.
Senadores, senhores telespectadores da TV Senado, senhores ouvintes da
Rádio Senado e demais presentes a este plenário, acaba de
ser lida pelo Sr. Presidente a composição da CPI de investigação
dos cartões corporativos. Eu gostaria de falar da importância
que esta CPI tem para esclarecer fatos que são, muitas vezes, divulgados
na pressa e que não correspondem à verdade.
Todos sabem da admiração, do respeito, do carinho que eu
tenho pelo Jornal do Brasil, um dos maiores jornais da minha terra. Eu
o leio desde menino. O Jornal do Brasil publicou, na sua edição
do dia 2 de março, domingo, uma manchete dizendo o seguinte: “Cartão
pagou até bailarinas. Servidor da Casa Civil contratou 20 moças”.
Apurada a notícia, Sr. Presidente, viu-se que se tratava de outras
bailarinas: vasinhos de flores que se colocam em cima da mesa de secretárias
para tornar o ambiente um pouco mais humano, menos árido. As bailarinas
não eram moças, não eram dançarinas, não
eram vedetes do teatro rebolado, o que fazia supor a manchete de capa.
Eram vasos, pequenos vasos, que custavam R$5,00 cada. O total foi de R$100,00.
Isso foi esclarecido ao jornal.
Poucas edições à frente, o Jornal do Brasil, pelo
qual tenho o maior respeito, publica a manchete: “Bailarinas do
cartão corporativo viram 20 vasos com flores”. “Bailarinas
do cartão corporativo viram 20 vasos com flores”. Não,
elas não viraram vinte vasos com flores; a manchete é que
as virou. Desde o princípio, eram bailarinas, flores, inocentes,
pueris, que estavam em cima da mesa das secretárias.
Fico preocupado, Sr. Presidente, Sr. Senador Magno Malta, se nós
não vamos criar uma CPI com denúncias que, após investigadas,
vão se transformar em desculpas.
É tão bonito quando o ser humano reconhece que errou. Eu
não gosto de criticar, até porque errei demais. Há
muitos colunistas que, quando erram, registram na coluna: “Esta
coluna se enganou”; “esta coluna retifica..”; “esta
coluna, apurando melhor os fatos...” Mas essa manchete “Bailarinas
do cartão corporativo viram vinte vasos com flores” não
é o que se esperava.
Aqui na frente, na página 3, temos uma nota fiscal e as explicações
que, desde o princípio, se fossem apuradas, não iriam render
uma manchete de capa. Não tira o brilho, absolutamente, do Jornal
do Brasil, que é um grande veículo, que tem grandes profissionais.
Aliás, presto aqui uma homenagem a Nelson Tanure, um grande brasileiro,
um empreendedor, a quem o Brasil deve muito. Presto também uma
homenagem a Mauro Santayana, um dos maiores articulistas do nosso País.
Eu sempre leio o Jornal do Brasil, mas muitas pessoas que leram essa manchete
“cartão pagou até bailarinas” talvez hoje não
saibam que se trata de um vasinho de flor inocente.
Agora, Senador Magno Malta, hoje sai aqui uma notícia na Folha
de S. Paulo, dizendo o seguinte: “Presidente da Força Sindical
diz que vai processar jornais. Paulinho avisou que vai abrir 20 ações
em 20 Estados diferentes e que poderão se transformar em mil ou
duas mil em represália a notícias que ele considera infames,
caluniosas, injurias e contumélias.” É preciso que
a imprensa apure melhor isso.
Qualquer brasileiro que ame esta Pátria e que sabe que o poder
é arrogante tem o maior apreço pela imprensa brasileira.
Não se trata de coibir, de amarrar, de amordaçar a imprensa,
porque ela tem um valor extraordinário, mas é um direito
que têm os brasileiros de, sentindo-se ofendidos, ajuizarem ações.
Nesse caso, é uma força sindical. Há pouco tempo,
fez a mesma coisa uma igreja com representação no Brasil
inteiro. Pode-se ajuizar mil ou duas mil ações. O que se
vai fazer?
Eu pergunto ao Plenário: será que os ministros do Supremo
Tribunal Federal vão se levantar agora e vão fazer pronunciamentos
políticos atacando uma central sindical? Será que a Associação
Brasileira de Imprensa, lá na minha terra, também vai se
levantar contra a força sindical e a ação de trabalhadores
sindicalistas que têm o direito de exercer aquilo que a Justiça
lhes dá como garantia individual? Será que aquela associação
internacional que mandou um comunicado também vai se manifestar?
É por isso, Senador Magno Malta, Sr. Presidente, que nós,
desta tribuna, fazemos um apelo, um apelo às tradições
de moderação da nossa cidadania, dos primórdios da
nossa nacionalidade. Nós temos um Governo democrático. Está
aí o Presidente Lula como um exemplo. Sua campanha ao Planalto
foi uma epopéia! Não houve expediente, dos mais torpes aos
mais virulentos, que não fosse empregado contra ele. Foi uma epopéia,
foi a travessia de um terreno minado. Mas ele, nem mesmo no paroxismo
das lutas, nem mesmo nos momentos mais difíceis, deixou cair a
sua alta linha de compostura ou se tornou irascível. Temos cinco
anos de prática ilesa da democracia, com instituições
livres, imprensa livre, Judiciário e Legislativo intocáveis
na sua majestade. Então, é um governo do povo e para o povo.
Portanto, quando vemos notícias como essa nos jornais, nos periódicos,
eu, Senador Magno Malta, que, como V. Exª, nos últimos anos
da minha vida, amargurei vilipêndios, quero dizer desta tribuna
que eles não me diminuíram nem me abateram. Eu cresci no
coração do meu povo e encontrei nas forças da humildade
cristã condições de enfrentar e suplantar as maquinações
das infâmias, das calúnias e das injúrias.
Sr. Presidente, registro o desabafo, o extravasar da minha consciência,
dos profundos sentimentos de um homem conduzido a esta tribuna pela vontade
do povo e que ama tanto as instituições livres e democráticas
deste País. Todos sabem, Sr. Presidente, da minha moderação,
todos sabem da minha postura nesses cinco anos servindo à Pátria
na função que os eleitores do meu Estado me delegaram. E
aqui, Sr. Presidente, fica a constatação de certas notícias,
de certos momentos da vida nacional que precisam da reflexão de
nós todos.
Seria bom que a nossa imprensa, sempre livre, sempre altiva, como tem
sido diante do poder político, do poder social, do poder religioso,
porém nem tanto diante do poder econômico, fosse aperfeiçoada
no futuro. Com certeza, será. Temos valorosos...
Aliás, Sr. Presidente, quero lembrar também que não
é toda a imprensa que comunga, por exemplo, do parecer político
de um Ministro do Supremo que disse que as ações abertas
em todo o território nacional visavam mais prejudicar o andamento
das ações que obter a efetiva sentença.
A revista Veja, a maior revista do País e a terceira maior revista
do mundo em circulação, a revista Veja se manifestou favorável
ao direto dos brasileiros que se sentem prejudicados por noticiários
da imprensa de entrarem na Justiça em defesa da sua própria
honra e da sua própria dignidade. Disse-me o repórter, inclusive,
o seguinte: “Olha, Senador, uma companhia aérea que perde
a bagagem de seu passageiro deve indenizar. É direito do passageiro.
As pessoas precisam ser responsáveis pelos seus atos e pelos serviços
que se propõem a fazer”.
O Sr. Magno Malta (Bloco/PR – ES) – Solicito um aparte, Senador.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Portanto, Senador
Magno Malta, veja que há setores da imprensa...
Nós não estamos aqui empreendendo qualquer cruzada contra
a imprensa. Respeitamos e imprensa e a queremos livre. Desejamos que seja
sempre livre e altiva, mas é preciso ter cuidado com notícias
que não são apuradas, que saem nas manchetes e que, depois,
ficam difíceis de ser retificadas. E, quando são retificadas,
fazem a retificação de maneira dúbia, que não
esclarece. E pior: são incapazes de dizer “erramos”.
O SR. PRESIDENTE (Garibaldi Alves Filho. PMDB – RN) – Senador
Marcelo Crivella, lamento informar a V. Exª que o seu tempo está
esgotado.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Sr. Presidente,
eu só gostaria de ouvir o Senador Magno Malta, que certamente vai
se sentar para fazer o aparte – não é um pronunciamento,
é um aparte; diz o Regimento que precisa ser sentado.
Precisa ser necessariamente sentado, Senador Magno Malta.
O Sr. Magno Malta (Bloco/PR – ES) – Esse negócio de
fazer aparte em pé ou sentado é igual a estar dormindo no
avião, e o cara o acorda mandando colocar a cadeira no lugar. Volta-se
meio dedo. O avião não vai cair por isso.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – É apenas
para cumprir o Regimento, Senador.
O Sr. Magno Malta (Bloco/PR – ES) – Vou sentar, então.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Concedo-lhe um aparte
e ouço V. Exª com muita alegria.
O Sr. Magno Malta (Bloco/PR – ES) – Você está
dormindo no avião, e o cara: “Acorda. Põe a cadeira
no lugar”.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Ouço V. Exª.
É apenas para o Presidente entender que se trata de um aparte.
O Sr. Magno Malta (Bloco/PR – ES) – Senão, o avião
vai cair.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – O Presidente poderia
pensar que V. Exª estaria pedindo a palavra para falar pela ordem.
Com a palavra V. Exª.
O Sr. Magno Malta (Bloco/PR – ES) – Senador Marcelo Crivella,
achei que todo o mundo iria aparteá-lo. A lógica no Brasil
é infame. Quem ataca não pode ser questionado. Qualquer
um pode atentar contra a honra de qualquer cidadão. Se uma pessoa
tem um jornal que sai de 15 em 15 dias, de 30 em 30 dias, autodenomina-se
jornalista, tem um blog, tem uma página ou qualquer outra coisa
e ataca a sua honra, você não pode fazer nada, porque essa
pessoa corre logo e diz assim: “É mordaça. É
a Lei da Imprensa”. O Supremo agora julgou e deu uma liminar referente
à intervenção do Deputado Miro Teixeira em que argumenta
que País nenhum tem Lei de Imprensa, baseando-se, pois, na Constituição
cidadã de 88. Ou seja, cada um responderá pelo que falar,
e cada um será enquadrado. Isso é o normal. Se você
tem prova, escreva. Se você acha que é canalha, pústula,
fraudador, fraudulento, nojento, escreva. Agora, ninguém pode fazer
ilação sobre a honra de ninguém, ninguém pode
jogar na lama a história de ninguém, de um pai de família,
de uma mãe de família, e ficar por isso mesmo, porque o
cara corre e diz: “Olha, estão tentando me amordaçar,
mas estou acobertado pelos meus direitos”. E os seus direitos são
atacar a honra de qualquer um? Então, acho que, colocando no devido
lugar os jornalistas responsáveis, os periódicos responsáveis,
publicarão aquilo de que têm documento, fato e verdade. No
dia em que eles forem levados às barras do tribunal, dirão:
“Está aqui a verdade”. Mas os irresponsáveis
e vilipendiadores da honra alheira certamente pararão, porque,
na hora em que o primeiro for julgado criminalmente, os outros aprenderão
a lição. Então, quanto a essa atitude do Supremo
Tribunal Federal, à liminar dada à inteligência e
à independência do Deputado Miro Teixeira, por quem tenho
a maior admiração, entendo que o mérito será
julgado com o mesmo entendimento dado à liminar, a fim de que coloquemos
as coisas no lugar. Afinal de contas, é preciso respeitar a história,
é preciso respeitar os filhos das pessoas, é preciso respeitar
a mãe de alguém, é preciso respeitar o pai de alguém,
que chora ao ler uma notícia mentirosa, escabrosa, que ofende e
destrói. E você nada poder fazer. Nossa Ministra Marina Silva
diz que, infelizmente, no Brasil, se tem de provar – a lei diz que
todo cidadão é honesto até que se prove o contrário
– que é honesto até na Justiça. Penso que,
as coisas indo para o devido lugar, os vilipendiadores da honra alheia
pensarão dez vezes antes de escrever algo que não têm
como provar, porque saberão exatamente que responderão pela
sua indignidade. Achei que V. Exª, em razão do tema trazido
à tribuna, fosse ser aparteado por todos, mas eu não poderia
deixar de aparteá-lo, porque essa prática que ocorre em
nosso País é infame e invertida.
O SR. MARCELO CRIVELLA (Bloco/PRB – RJ) – Muito obrigado,
Senador Magno Malta.
Peço ao Presidente que esse aparte fique incorporado ao meu pronunciamento.
Termino, dizendo que as bailarinas eram lindas, belíssimas, mas
vasinhos de flores.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
Imprimir

|