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Marcelo
Crivella
Ontem,
no 22º dia da greve de fome do bispo de Barra (BA), Dom Luiz Cappio,
contra a transposição do Rio São Francisco, no qual
perdeu mais de oito quilos e os rins já davam sinais de comprometimento,
ele a encerrou.
Neste momento não é relevante discutir virtudes e defeitos,
perdas ou ganhos, eficiência ou ineficiência do Projeto de
Transposição das águas do Rio São Francisco.
Isso, agora, é um caso de somenos importância. Quero falar
sobre a vida de Dom Luiz Cappio, sobre o princípio bíblico
do conceito da origem da vida, de sua preservação e de seu
destino final.
Nós, cristãos, não cremos que a vida seja uma evolução
acidental da matéria. Cremos que é o sopro de Deus, parte
de sua própria existência e energia que palpita em nós,
e, de maneira incondicional, expressão suprema do amor, cuja essência
não temos o direito, sequer, de pensar em dispor.
A vida é dom de Deus. É para ser preservada, para estabelecer
uma comunhão pela fé inteligente da criatura com o Criador.
Não há na Bíblia maior ofensa, maior agravo, maior
injúria que se possa cometer contra a natureza, a humanidade e
o próprio Deus, que a tentativa de atentar contra a vida, seja
a de outrem, seja a própria. Ela não pode fazer, jamais,
parte do rol dos argumentos de convencimento, por mais nobre que seja
a causa, por mais relevante que seja a missão, ou por mais apaixonado
e arrebatado que esteja o coração.
Diante das tribulações, das perseguições injuriosas,
das calúnias mais profundas, dos expedientes traiçoeiros,
dos mais torpes aos mais virulentos, para um bispo, a oração
e a fé são as armas que dispõe.
Não há um salmo, uma parábola, uma profecia, um argumento,
um versículo sequer, nos textos Sagrados da Bíblia, ou na
vida dos Apóstolos, que nos permita sequer pensar em dispor da
própria vida.
Não matarás, princípio fundamental dos dez mandamentos,
tem como pressuposto óbvio não matar a si mesmo.
Quando o Brasil e os brasileiros espalhados pelo vasto território,
tomados pelo mesmo sentimento, irmanados na mesma dor, apresentavam a
Deus uma prece pela vida do Bispo que se oferecia em imolação,
cumpre-nos também insistir, admoestar e até protestar, contra
um gesto que dividiu a Igreja, que preocupou e constrangeu a Nação,
e, sobretudo, ofendeu os princípios cristãos, se constituindo
num péssimo exemplo de imenso alcance e imprevisível conseqüência.
Lembro, também, do sagrado princípio da autoridade. O Apóstolo
Paulo ensinava que não há autoridade que não seja
constituída por Deus. O próprio Cristo, no dia em que o
bem supremo se defrontou com o mal no julgamento mais infame da história
que condenou o mais justo de todos, também a ela, resignadamente,
se submeteu. Discordar, sim. Debater, sim. Argumentar, apelar, fazer-se
ouvido, sim. Afrontá-la, jamais. Desafiá-la, nunca.
Essa é, também, a lição de Santo Ambrósio,
quando dizia: “os palácios pertencem aos governantes e a
Igreja, ao sacerdote”.
A todos Deus constituiu, autoridades e sacerdotes, e caberá a cada
um prestar contas dos seus atos. Porém, o pior de todos os atos
é atentar contra a própria vida, dom supremo de Deus.
Publicado
no Jornal Povo do Rio, em 20 de dezembro de 2007.
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