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Marcelo
Crivella
O
mundo caminha para uma crise de energia. É preciso que o Brasil
tome as medidas necessárias para se prevenir. Embora alguns aleguem
que o mundo consumiu até agora apenas um terço de suas reservas
de petróleo, e que ele não é combustível fóssil
mas uma oriundo de uma fonte renovável ligada ao magma da terra,
teorias recentes ainda discutidas, eu quero lembrar um interessante estudo
da Unesco que mostra como, em questão de energia, o tempo passa
com uma velocidade vertiginosa.
O estudo considerou três arquétipos: o primeiro, um agricultor
moderno, que teria existido na Europa por volta do século XIV.
O segundo seria o homem da primeira revolução industrial,
um inglês de 1850. O terceiro, denominado homem tecnológico,
seria um americano de 1950. Adotando-se o índice 100 como consumo
per capita de energia do homem industrial de 1850, o agricultor moderno
do século XIV teria índice 20, e o homem tecnológico
de 1950, índice 360.
Em termos de consumo de energia, portanto, o tempo se acelera de maneira
espantosa. Foram necessários 400 anos para que o consumo subisse
do índice 20 para 100. Mas em apenas 100 anos, cresceu de 100 para
360.
Tratando-se de crise de energia, não se deve brincar. O que parece
ser longínquo pode não ser, até porque, no regime
político democrático contemporâneo, se considera desenvolvimento
o acesso da grande massa aos benefícios tecnológicos atuais.
Imagine o impacto, no consumo energético, quando bilhões
de excluídos, como é de se esperar, tiverem acesso, por
exemplo, a geladeira, televisão, computador e automóveis.
O Brasil superou o apagão. Agora volta a crescer. E, por isso,
cresce também o risco de novamente faltar energia. Pergunto: Qual
o sentido de o Brasil exportar petróleo? Como é que o País
abre mão de salvaguardas como essa? Veja o caso da Indonésia,
que exportou suas reservas de petróleo a três dólares
o barril, e hoje importa a quase oitenta dólares. O México,
também grande exportador de petróleo, hoje tem reserva estimada
em apenas onze anos.
É de se perguntar também por que o Brasil continua a exportar
commodities com incentivo da Lei Kandir. Com o superávit comercial
atual, forçando o preço do dólar para baixo, para
que sobrecarregar nossas precárias estradas e portos com imensas
cargas de minério de ferro, soja, suco de laranja, etc, com pouquíssimo
valor agregado, e ainda assim com subsídio tributario? Qual o significado
estratégico para o País?
Convido o leitor a pensar também nessa questão usando como
paradigma os Estados Unidos, a potência hegemônica do presente,
que leva muito a sério a questão energética, porque
tem clareza de que sem um adequado suprimento de energia, tanto em termos
de preço como de quantidade, não será capaz de mover
sua economia nem sua máquina de guerra. Lá, o consumo aparente
é cerca de dois mil mega toneladas de petróleo equivalente
por ano. Isso significa que cada americano, por ano, consume cerca de
sete toneladas de petróleo equivalente. É o dobro do consumo
de um cidadão europeu dos paises ricos, e quase oito vezes maior
que o consumo de cada brasileiro. Esse consumo gigantesco é constituído
em 60% de hidrocarbonetos, petróleo e gás. E desse suprimento,
60 % é importado, o que significa um alto nível de vulnerabilidade.
Por conta disso, em 2005, o Presidente George Bush fez passar sua política
energética no Congresso com objetivo de dar maior autonomia a sua
matriz energética. O plano possui seis objetivos fundamentais:
melhorar a conservação e eficiência energética
das diferentes formas de consumo e produção de energia,
com grande ênfase no programa Energy Star, que é parecido
com o nosso Procel; aumentar a produção de petróleo
nacional com exploração no Ártico; tornar economicamente
viável o uso do hidrogênio como combustível líquido;
investir no desenvolvimento de equipamentos de tecnologia limpa, para
voltar a queimar carvão em grandes volumes, com, se possível,
emissão zero de dióxido de carbono; aumentar a participação
de etanol e do biodiesel na matriz energética americana, a partir
da produção de milho e, por último, assinar tratados
de cooperação com seus parceiros, grande consumidores de
energia, especialmente China e Índia, para adoção
de programas para o uso eficiente e a conservação de energia.
O Brasil, por sua vez, no limiar de um novo e vexatório apagão,
aceita o veto ambiental para 15 hidroelétricas, não executa
a eclusa do Tucuruí, que faz a ligação hidráulica
norte-sul, não deslancha para valer seu programa nuclear, investe
pouco no desenvolvimento tecnológico de sua biomassa, não
tem ainda um marco regulatório do gás, não possui
uma Política Nacional para Metais Estratégicos - e, portanto,
é grande exportador de alumínio, ainda que isso signifique
exportar energia a preço subsidiado. Por fim, assiste passivo a
greve de fome para impedir a transposição do Rio São
Francisco, que transforma o nordeste, de região problema, em região
solução.
Os Estados Unidos, cujo povo é democrata mas que tem uma parcela
de sua elite fortemente imperialista, hesita em assinar qualquer acordo
internacional de proteção ao meio ambiente que limite seu
potencial de crescimento econômico, o que é altamente condenável,
mas, em se tratando de interesses estratégicos internos, são
extremamente cuidadosos de sua cidadania. No caso, mostraram ser capazes
de formular uma política energética. Qual é a nossa?
(*)
MARCELO BEZERRA CRIVELLA, engenheiro civil, mestre pela Universidade de
Pretória (África do Sul), é senador da República
pelo PRB-RJ, líder de seu partido no Senado Federal e vice-líder
do bloco de apoio ao governo.
Fonte
: Tribuna do Brasil
Data : 23 de julho de 2007
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