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Marcelo
Crivella
Sob o especial interesse do senador Aloizio Mercadante (PT), pelo Estado
de São Paulo, a Comissão de Economia do Senado Federal (CAE)
criou uma subcomissão temporária para debater a repartição
dos royalties dos hidrocarbonetos, em razão da descoberta dos novos
campos petrolíferos no nosso litoral. O assunto voltou à
tona em fala do governador do Piauí, Wellington Dias, durante encontro
de líderes empresariais em Comandatuba (BA), evento do qual participei
com diversos ministros, governadores e outros parlamentares.
Como senador pelo Estado do Rio de Janeiro, gostaria de poder poupar nosso
nobre e generoso povo, em sua maioria pobre, humilde e ordeiro, das inconseqüências
dessa batalha política sem ideal, sem nobreza e sem grandeza, que
nos remete a uma dessas republiquetas, onde as regras do Direito são
a todo momento violadas: a legislação muda de acordo com
as circunstâncias, e as circunstâncias obedecem ao capricho
dos interesses econômicos.
Os royalties são parte integrante do arranjo federativo.
Tratá-los de forma isolada é um erro político imensurável.
O pacto federativo precisa ser discutido de forma ampla: os mecanismos,
os instrumentos, as instituições e o modelo de federação
de que necessitamos; o grau de autonomia, as formas de subsidiariedade,
a repartição de recursos versus encargos; fixação
de competências exclusivas, privativas e concorrentes. Enfim, como
reconstruir o pacto federativo no nosso país sem se ater apenas
ao federalismo fiscal.
Nossa Federação foi criada no advento da República,
como expressão do anseio de autonomia das províncias brasileiras,
permitindo que se diferenciassem as condições da vida política
regional e as peculiaridades do caráter brasileiro de acordo com
a variedade de seus processos históricos e realidades geográficas.
O poder, como qualquer outro valor social, é tanto mais forte quanto
mais for compartilhado. Nisso não há diferenças:
confederados e farrapos, praieiros e luzias, todos os nossos rebeldes
levantaram alto a bandeira da Federação que a Constituinte
de 1891 finalmente estabeleceu. Hoje, grande parte dos municípios
não tem recursos próprios sequer para manter seus funcionários.
Sobrevivem de "pires na mão", pedindo dinheiro aos governos
estaduais e federal.
Por essas e outras razões é que vemos agora mais uma tentativa
de se tirar recursos que pertencem ao nosso estado, numa flagrante situação
de conflito federativo.
Já não basta tudo que perdemos com a mudança da capital
federal, ficando o Rio de Janeiro com todos os tipos de problemas sociais
resultantes, historicamente, de um enorme desarranjo político?
O decreto no2.705\/981 diz claramente que os royalties "constituem
compensação financeira devida pelos concessionários
de exploração e produção de petróleo
e gás natural", por se tratar de bens esgotáveis.
Alterar essas regras é um desrespeito ao marco regulatório
do setor e uma ofensa aos entes produtores, já duramente punidos
com a tributação do ICMS, dos hidrocarbonetos, no destino.
O instituto da compensação ou dos royalties é um
direito assegurado na Constituição federal. É cláusula
pétrea do espírito da Federação brasileira.
Publicado
no Jornal o Globo, de 09/05/2008
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