| O Morro da Providência |
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Marcelo Crivella O jornal “O Globo” de sábado último publicou a seguinte nota: “Lula comete gafe em discurso durante a visita ao Cantagalo”. A suposta gafe se refere à informação que dei ao Presidente Lula de que a primeira favela do Rio de Janeiro nasceu no Morro da Providência com o retorno dos Voluntários da Pátria da Guerra do Paraguai, que se iniciou em novembro de 1864. Entre eles, havia cerca de 8 mil escravos, conforme consta nos arquivos do Exército, que se dispuseram a lutar em troca da alforria, e que lá se instalaram quando do retorno em 1870. O
jornal cita o historiador Milton Teixeira, que defende a tese de que aqueles
escravos libertos após a guerra ocuparam cortiços e cômodos
espalhados pela cidade, mas não aquele morro, onde existiriam apenas
chácaras. Será possível ter tanta certeza em relação
a um fato acontecido há 137 anos? Ou isso, na verdade é
irrelevante, diante do fato em si – isto é, o destino dos
“voluntários” em sua volta da Guerra? Portanto, se há uma hipótese de que tenham ido ocupar cortiços e cômodos, o que exigiria deles mais recursos, certamente há também essa de que tenham ocupado as partes planas ao sopé do Morro da Providência, tendo em vista a proximidade com o epicentro da capital, que desde a sua fundação se desenvolveu entre o Morro do Castelo, o Morro de São Bento, o Morro do Estado e o Largo da Carioca. Não podemos esquecer que ali próximo se situava o “Cais do Valongo”, onde efetivamente desembarcaram. Duas décadas depois, entre 1893 e 1897, ocorre a “Guerra de Canudos”. Seus ex-combatentes voltam com a promessa de moradia própria, que se frustraria por entraves burocráticos e políticos. De acampamento provisório, passaram a ter como morada permanente a parte alta do Morro da Providência. É isso que pensa o estudioso desse período da História do Brasil, o coronel Marco Antônio Cunha, cuja tese de mestrado, orientada pelo historiador Luíz Edmundo Tavares, se transformou no livro “A Chama da Nacionalidade - Ecos da Guerra do Paraguai”, editado pela Biblioteca do Exército. Dito isso, lamento que nos ocupemos de uma suposta gafe e tenhamos esquecido de falar do projeto em si, uma oprtunidade de resgate social, conduzido pelo Exército Brasileiro, no valor de mais de 12 milhões de reais, que consiste em revitalizar aquelas casas, colocar telhados para evitar a proliferação da dengue - um caso de saúde pública nacional cada vez mais grave. O projeto impedirá também o crescimento vertical das comunidades, trocando e relocando as esquadrias, fazendo emboço, conferindo-lhes habitabilidade e reforço estrutural. Aproveito também para esclarecer outra dúvida. Na elaboração do projeto, recomendei que se usasse uma tecnologia desenvolvida pela Universidade de São Paulo, que confere à argamassa de revestimento, com espessura de um centímetro, uma durabilidade de mil anos, o que reduz o custo de manutenção. Pois bem, no noticiário a respeito, supôs-se que aquela argamassa serviria para transformar as pequenas casas em casamatas de proteção para traficantes. Esse não é absolutamente o objetivo do projeto, nem a isso se presta o material empregado. Com um centímetro de espessura, além da longa durabilidade, poderá, sim, oferecer maior proteção contra balas de calibres menores, como pistolas e revólveres. Isso diminui o grave problema que temos hoje no Rio de Janeiro: as balas perdidas. Mas é claro que um centímetro de argamassa não será suficiente para deter disparos de armas pesadas, como fuzis e metralhadoras. Mas
aproveito a oportunidade proporcionada pela controvérsia, para
honrar a memória de nossos heróis da Guerra do Paraguai,
os Voluntários da Pátria, entre eles os milhares de escravos
que, além da vitória, conquistaram a própria liberdade.
E o sangue rubro-negro derramado coloriu o verde das águas dos
rios pela glória do Brasil. A eles nossa profunda gratidão.
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