A Bahia Mística
Na Bahia, a religiosidade não é apenas um espetáculo ou uma encenação de uma crença. O místico está presente a toda hora e em todos os lugares.

Jovens e velhos, de todas as classes, costumam amarrar fitinhas coloridas no pulso, ou mesmo no retrovisor do carro ou numa ferramenta de trabalho. Não são meros enfeites, mas símbolos da fé em nosso Senhor do Bonfim, protetor dos baianos. No candomblé, o Senhor do Bonfim é Oxalá, sua cor é o branco e sexta-feira é o seu dia. Por isso, nas sextas-feiras você vê na Bahia tanta gente vestida de branco, mesmo pessoas sem qualquer vínculo com o candomblé.

A "figa" - amuleto que é uma mão fechada com o polegar entre o dedo médio e o indicador - está em todos os lugares e é símbolo de sorte. Nas casas, algumas plantas parecem enfeitar, mas estão ali para proteger seus moradores. Os baianos costumam benzer-se quando passam diante de uma igreja e é muito comum jogar rosas e perfumes no mar: presentes para Iemanjá. Até nos restaurantes a comida típica servida - o vatapá, o caruru, o efó e tantas outras - é praticamente a mesma oferecida aos deuses nos terreiros. Mulheres de origem africana vendem nas ruas o acarajé e o abará, espécies de pão africano, feitos com feijão. É um meio de vida e um meio de cumprir suas obrigações com seus terreiros, os templos da religião dos orixás.

Em outros tabuleiros são vendidas folhas, pós, incensos e remédios para o corpo e para a alma. Quase todas as festas têm origem nas cerimônias religiosas, sejam elas católicas ou de origem africana, que se fundem no sincretismo: a festa do Senhor do Bonfim é a de Oxalá, a de Santa Bárbara é a de Iansã. Porque os santos católicos correspondem a orixás africanos. São Jorge é Oxossi, Santo Antônio é Ogun e assim por diante. Se os sinos tocam em centenas de igrejas da Cidade de Salvador, os atabaques soam nos quatro cantos da Cidade. É o ritual do candomblé, com sua presença forte na vida de todos os baianos: na música, nos pratos do dia-a-dia e nas oferendas, nas artes plásticas, na literatura, nas palavras e nos nomes de lugares.

Diz a lenda que Salvador tem 365 igrejas, uma para cada dia do ano. Algumas delas são verdadeiros tesouros preciosos da arte sacra ocidental. A Igreja de São Francisco, pintada de ouro, a imponente Catedral, a Igreja do Mosteiro de São Bento, de 1563, em clássico estilo beneditino, são apenas alguns desses monumentos.

Terra da festa e da felicidade

A vida do baiano é regida pelas festas. Na manhã do primeiro dia do ano, a Procissão de Nosso Senhor dos Navegantes enfeita a Baía de Todos os Santos com veleiros, iates, lanchas, canoas, jangadas, num ritual que abre um rosário de festas populares.

No dia 2 de fevereiro, imensos balaios recolhem presentes, que são levados em procissão marítima e jogados para Iemanjá, a rainha do mar. Enquanto cantos afros são tocados, missas são rezadas em louvor da mesma entidade, mais uma vez é o sincretismo unindo a fé e a cultura de um povo.

No dia 4 de dezembro é a Festa de Iansã, rainha e deusa dos raios e das tempestades, a Santa Bárbara dos católicos. Uma imensa panela reúne milhares de quiabos e azeite para cozinhar um só caruru. A Festa de Nossa Senhora da Conceição começa no dia 8 de dezembro. Depois, vem a Festa do Bonfim, a Festa da Ribeira e assim as festas vão ocupando um bairro diferente na Cidade de Salvador, até o carnaval, que é o maior do Brasil.O carnaval da Bahia é uma folia de rua, uma festa do povo. Não é um espetáculo para se assistir de camarote. Todo mundo percorre as ruas acompanhando seus blocos, afoxés (blocos africanos), que são um espetáculo à parte e dão um tom religioso a uma festa tão profana como é o carnaval. Antigamente, o carnaval durava três dias e três noites. Hoje, apaixona e envolve a todos por mais de uma semana.

Na Bahia, nasceu o trio elétrico, com três pessoas tocando primitivas guitarras sobre um carro comum. Hoje são imensos caminhões feericamente iluminados, com possantes equipamentos de som e tocando ritmos alucinantes. Um poeta decretou: "Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu".

No interior da Bahia, a alma festeira do baiano é a mesma, rica, bela e alegre em sua manifestação. No mês de junho, acontecem as chamadas festas juninas: Santo Antônio, São João e São Pedro são festejados com grandes fogueiras, licores de jenipapo e tantas outras frutas, além de mesas fartas com canjica, pamonha, bolos e muitas outras iguarias.

Diz a música: "A alegria é um Estado chamado Bahia".

Que dia é hoje? É dia de festa na Bahia.






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