
A chance do Brasil
STEVENS REHEN E ALYSSON MUOTRI
Cientistas brasileiros vêm evidenciando o potencial terapêutico de
células-tronco adultas no tratamento de doenças cardíacas e seu estudo deve
continuar sendo incentivado em nosso país. Apesar disso, é muito pouco
provável que tais células venham a ser utilizadas no tratamento de
enfermidades como diabetes, Alzheimer, Parkinson etc.
Diferentes das células adultas, as células-tronco embrionárias são
comprovadamente capazes de se diferenciar nos mais variados tipos celulares que
compõem nosso corpo e, apesar do nome, não são derivadas de fetos humanos mas
de conjuntos celulares muito pouco desenvolvidos, congelados em clínicas de
fertilização e eventualmente descartados - jogados no lixo - após
determinados períodos de tempo.
O presidente reeleito dos Estados Unidos, George Bush, impede em seu país o
investimento de dinheiro público em estudos e lidera uma cruzada pelo banimento
das pesquisas com células-tronco embrionárias em escala mundial. A comunidade
científica americana percebe a gravidade de tais atos e, no início de outubro,
reuniu-se a filósofos, economistas e representantes de diferentes crenças
religiosas para debater o potencial dessas células e as conseqüências de sua
não utilização para o progresso da medicina moderna.
O evento ocorreu no Instituto de Pesquisa Salk, na cidade de San Diego,
Califórnia, e terá uma síntese apresentada pela televisão americana, em
cadeia nacional, neste mês. Ao contrário do que possa parecer, diversos
representantes religiosos, incluindo judeus e muçulmanos, parecem não se opor
à utilização de células-tronco embrionárias, fundamentando-se no potencial
desta tecnologia para salvar vidas humanas. A exceção ficou mesmo por conta
dos representantes cristãos, grupo religioso em que não houve consenso a
respeito.
Para alguns dos cientistas que participaram da reunião, o potencial
terapêutico das células-tronco embrionárias poderia ser comparado aos efeitos
da revolução industrial na Inglaterra ou do silício e da biotecnologia sobre
os Estados Unidos. Neste sentido, o embargo governamental vigente trará
conseqüências irreparáveis ao desenvolvimento tecnológico e melhoria da
qualidade de vida do povo americano, ameaçando-se assim a soberania científica
daquele país.
Atentos à possibilidade de se tornarem os mais novos líderes mundiais na área
biomédica, Inglaterra, Espanha, China, Japão, Coréia, Austrália, Israel e
Cingapura estão investindo milhões de dólares na fundação de centros de
estudo de células-tronco embrionárias humanas. Alguns desses países criaram
ainda um fórum virtual com o intuito de acelerar discussões éticas,
compartilhar informações técnicas, caracterizar e disponibilizar linhagens de
células-tronco embrionárias aos membros participantes.
O Brasil possui sólida tradição em biologia celular e, sabendo aproveitar o
vácuo deixado pelos Estados Unidos, tem enorme potencial para também tornar-se
um dos líderes mundiais dessa nova revolução. Os principais passos neste
sentido incluem o diálogo já iniciado entre cientistas e governo, o incremento
da discussão pública sobre o assunto e o incentivo, o mais rapidamente
possível, à aprovação de uma lei de biossegurança que permita o trabalho
dos pesquisadores brasileiros.
Os cientistas dedicados ao estudo de células-tronco adultas e embrionárias
precisam ainda se integrar mais efetivamente através, por exemplo, de um fórum
virtual semelhante ao citado acima e patrocinado por agências de fomento
nacionais.
Seria importante, também, uma página oficial na internet para permitir a
rápida troca de informações e disponibilização de linhagens celulares à
toda a comunidade científica interessada.
Como diz Irving Weissman, pesquisador da Universidade de Stanford, a
responsabilidade moral está naquele que reconhece o potencial médico das
células-tronco embrionárias, mas impede ou não incentiva seu estudo. Este
deve ser responsabilizado pelas vidas que eventualmente deixarão de ser salvas.
A comunidade científica brasileira reconhece o potencial destas células e não
pode se eximir de tal responsabilidade.
STEVENS REHEN é professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Scripps Research Institute, da
Califórnia. ALYSSON MUOTRI é pesquisador do Salk Institute, da Califórnia
(EUA).