ENTREVISTA - Cosete Ramos
Data de Publicação: 16 de dezembro de 2006
Ser ou não ser cerebral

Não é por acaso que as empresas investem muito nos profissionais que têm consciência e sabem a importância do corpo, do coração e do cérebro, para desenvolverem suas funções. O investimento nos recursos humanos, descobriram os executivos de grandes corporações, é o que deve ter prioridade. Seja em grandes ou pequenas empresas.
Mas, para o crescimento das organizações, em um mundo competitivo como o de hoje, é essencial que o trabalhador explore todo o poder do cérebro, para criar, imaginar e construir o novo.
A consultora, palestrante e Doutora em Educação, pela Florida State University, Cosete Ramos, vem se dedicando há anos ao tema, e lançou, nos últimos dias, seu segundo livro, “Viver e Vencer: Eduque seu Cérebro”.
Nesta entrevista, ela revela as conclusões que recolhe em pesquisas da neurociência, os mistérios do cérebro, demonstrando que o segredo de tudo está diretamente relacionado à autogestão das emoções.
Marcone Formiga - Por que as pessoas lutam tanto para ter sucesso?
Cosete Ramos - Todos temos, dentro de nós, um germe que nos impulsiona para frente. Tem-se que caminhar para mudar, sempre para frente. Há, sem dúvida nenhuma, no nosso cérebro, essa vontade, desde o homem primitivo. O homem primitivo desenvolveu o cérebro humano como nunca na história. O cérebro foi crescendo junto com os desafios do homem primitivo. Como o homem tinha a necessidade de caminhar quilômetros para conseguir alimento, novos lugares para morar, e, então, entre muitos outros processos, desenvolveu seu cérebro.
Marcone Formiga - Mas, na vida moderna, com toda a comodidade que a tecnologia proporciona, o homem tem mais tendência para levar uma vida sedentária...
Cosete Ramos - Se nós pensarmos que esse cérebro que nós temos hoje ainda é o mesmo de alguns séculos atrás, ele não é tão eficiente nos dias de hoje. O cérebro funciona para a sobrevivência. Foi desenhado para esse motivo. Para isso, o cérebro usa dois mecanismos, que são importantíssimos para o ser humano - a emoção e a atenção. Esses mecanismos se desenvolveram de acordo com a necessidade do homem primitivo. Nosso cérebro poderá - e deverá - sofrer, ao longo da história, novas adaptações, até porque nós não temos mais o tigre nos ameaçando. Nossas ameaças, hoje, são de outra natureza.
Marcone Formiga - O cérebro eletrônico não é um grande concorrente para o cérebro humano hoje?
Cosete Ramos - Eu não diria um concorrente. Prefiro considerar que é um grande parceiro. As últimas descobertas da inteligência artificial são fantásticas. Nós podemos usar isso até para desenvolver o nosso cérebro. Um exemplo são as estratégias de computador que estão sendo usadas para vencer os grandes campeões de xadrez. Acredito na combinação do mundo tecnológico com o homem para uma vida melhor. O ser humano, primeiramente, vive. Por que, então, essa necessidade de sucesso? Acho que é uma deturpação colocar o vencer primeiro. Acho perigosa essa subordinação, essa necessidade de vencer...
Marcone Formiga - O que é vencer? Vencer em que?
Cosete Ramos - Essa visão maniqueísta de que a vitória se dá apenas no campo profissional está errada! Você tem tempo para ver o desabrochar de uma flor ou se encantar com o bater de asas de um pássaro? Primeiramente, tem que se ter um projeto de vida. O ser humano tem que ter um projeto de vida, porque é só o que impulsiona à frente. Mas vencer na vida não é só vencer na profissão. Vencer na vida é vencer como ser humano e, só depois, como profissional. Isso está relacionado com suas inteligências. A vitória vem com o comprometimento leal e compromissado com suas melhores inteligências.
Marcone Formiga - Como assim?
Cosete Ramos - A inteligência é um potencial, que pode ser desenvolvido ou não, conforme as condições do ambiente. Se eu não desafiar minha inteligência, ela nunca terá pleno desenvolvimento. Portanto, o vencer tem a ver tanto com o projeto de vida como com inteligência e talento. Pergunte para as pessoas se elas fazem o que gostam ou o que têm talento. Se a resposta for não, essa pessoa nunca terá sucesso na vida. Ela só terá sucesso se trabalhar com o que a faz feliz. Quando se é fiel ao seu talento, o sucesso chega logo, porque se trabalha com paixão.
Marcone Formiga - Afinal, é o quociente de inteligência ou o quociente emocional que prevalece?
Cosete Ramos - Se eu tivesse que pinçar um elemento fundamental, diria que, hoje, vence quem sabe fazer uma boa gestão das suas emoções. Nós somos analfabetos no sentir, porque nós somos alfabetizados apenas no pensar. O século XX foi dominado pela máxima de Descartes: “Penso, logo existo”. As empresas antigas só queriam alguém para pensar e obedecer. O livro “O erro de Descartes”, de Antonio Damásio, indica que Descartes errou, porque não haviam as pesquisas sobre o cérebro. E assim surge uma nova máxima: “Existo e sinto, logo penso”. Só há pensamento porque há sentimento.
Marcone Formiga - Mas como gerenciar as emoções?
Cosete Ramos - Nós sempre pensávamos que o cérebro fosse uma caixa de razões. Não é! O cérebro é uma caixa de emoções. O ser humano é um ser emocional, que pensa. Tudo começa com uma emoção e uma decisão. Goethe, um dos mais célebres filósofos alemães, afirmava que a decisão mais corajosa que se possa tomar em um dia é acordar de bom humor.
Marcone Formiga - Como o bom humor pode influenciar?
Cosete Ramos - O humor com que você inicia seu dia vai influenciar em todo o resto, porque seu cérebro vai lhe dar o que você pedir. Existem pessoas que acordam dizendo: “Que droga de trabalho! Tenho que trabalhar. Que porcaria!”... Essas pessoas, consequentemente, irão acordar tristes, mal humoradas, pessimistas e, como o nosso cérebro é muito obediente, ele irá fazer de tudo para evitar aquela “droga”. Então, irão ser produzidos neurotransmissores que vão te jogar na cama. Ou seja, vão te fazer bocejar o dia inteiro, seu corpo começará a doer, não sentirá vontade de fazer nada... Tudo isso porque você comandou errado o seu cérebro. Olha o tamanho do poder que o ser humano tem na mão! Sabe como Salvador Dali começava o seu dia? Ele dizia que começava o dia tendo a glória de ser Salvador Dali!...
Marcone Formiga - Isso significa o que?
Cosete Ramos - Que nós somos únicos! Tudo na vida começa com uma emoção e um decisão - alegre, triste... É o ser humano que comanda sua alegria e tristeza. Aí alguém vai falar: “Mas tem certas horas em que não dá para se controlar nada...” Mas isso compõe apenas 10% do seu tempo, no máximo. Claro que na morte de um ente querido não se controla. Mas, em 90% do tempo, é você que diz para o seu cérebro o que você quer ser. É esse comando das emoções que é um dos tijolos mais importantes do sucesso. É importantíssimo gerenciar a raiva. A raiva destrói o ser humano.
Marcone Formiga - Por quê?
Cosete Ramos - Porque na hora em que estamos com raiva, a amigdala, que é o centro do sistema emocional, rapta o cérebro. Nessas horas, quem manda no cérebro é a amigdala, e ela pára tudo. É tão poderosa que pára a digestão, o metabolismo, manda sangue para as mãos, aumenta a circulação, preparando o corpo para a violência.
Marcone Formiga - Por que as pessoas cedem ao ímpeto da raiva?
Cosete Ramos - Quando uma pessoa consegue gerenciar a raiva estará tomando uma opção inteligente, porque a raiva só destrói a si próprio, não ao outro. Se o Mauro está com raiva de Jorge, será Mauro que será destruído. O cérebro, em momentos de raiva, produz toxinas, ou seja, veneno! Então, nesses momentos, você autoriza seu cérebro a produzir veneno. As pessoas têm que contar com algum quociente emocional. Há no ar novas pesquisas sobre quociente de adversidade. O quociente intelectual nós já sabemos o que é. É o uso da razão e de todo o nosso aparato de pensar. Também sabemos do quociente emocional, que é a gestão das emoções.
Marcone Formiga - Mas o que é quociente de adversidade?
Cosete Ramos - As pesquisas demonstram que é a maneira com que a pessoa enfrenta seus problemas. Eu dou o seguinte exemplo: uma pessoa que é demitida de seu emprego, fica em depressão, com crises de choro. Permanece seis meses fora do ar, porque não consegue pensar em outra coisa a não ser em ter sido demitida. Isso representa um baixo quociente de adversidade. A pessoa não consegue ter uma leitura positiva do ambiente. Uma pessoa com um bom quociente de adversidade, na mesma situação anterior, confiaria em seu talento, encararia a situação e procuraria um novo emprego. É essa atitude, que nós chamamos de afirmativa, que leva a um alto quociente de adversidade. Uma pessoa com um alto quociente intelectual, um alto quociente emocional e um bom quociente de adversidade, certamente, vence.
Marcone Formiga - O que a senhora sugere?
Cosete Ramos - O meu livro dá instrumentos que permitem enfrentar a vida e suas adversidades com inteligência e saúde. O que as pesquisas estão dizendo? O professor francês David Servan-Schreiber escreveu um livro sobre a medicina das emoções. Hoje, nós temos sete máximas, que são fundamentais para o sucesso na vida, tanto em casa como no trabalho.
Marcone Formiga - Quais?
Cosete Ramos - Primeiro: água. É preciso de água para que o cérebro funcione. Não é só o corpo que precisa de água. O cérebro, para realizar uma série de processos, precisa de água. Segundo: movimento. É preciso se movimentar, porque as pessoas precisam de oxigênio, que é o maior alimento do cérebro. Por isso que eu sugiro, no meu livro, que as pessoas levantem o bumbum da cadeira e se mexam. De hora em hora, no trabalho, o ideal é a pessoa levantar, tomar água, se espreguiçar, bocejar, porque o corpo necessita desse tipo de coisa para funcionar bem. Tem gente que passa sete horas no trabalho, sem se levantar. É uma pena, porque corpo cansado é igual a cérebro cansado. Há uma perfeita unidade entre corpo e cérebro. As pessoas ainda não atinaram com relação a isso. Terceiro: alimentação. Os estudos são conclusivos com relação à alimentação. Há um pequeno ditado, que considero resumir tudo: “Tome um café da manhã de rei, almoce como príncipe e jante como um plebeu”. Quarto: sono. O sono é um dos momentos mais importantes do dia. Eu lamento que, quando se diz isso para jovens, eles não acreditam. O bom são sete horas de sono. Tudo que aprendemos de dia, o cérebro processa a noite, no sono, como se fosse uma aula. É um momento da maior importância. Estes quatro primeiros pontos são os primordiais para a saúde do corpo Quinto: pensamento positivo. Enfrentar os dias com pensamento positivo... Nada é tão ruim ao ponto de lhe angustiar pela vida inteira se você não deixar. É fundamental encher o cérebro de positividade! Sexto: afeto.
Marcone Formiga - Como conseguir isso?
Cosete Ramos - Uma das coisas mais bonitas que nós estamos resgatando no século XXI é o afeto humano. O tamanho do sucesso e da felicidade vai depender da rede de relações do indivíduo. O século XX foi um século muito racionalista, de uma sociedade muito industrial, muito pouco emocional. Não havia espaço para expressar emoções. Hoje, a empresa moderna abre espaço para as emoções. Há um resgate da característica humana. Sétimo: desafio. É essencial trazer novidades ao cérebro. O córtex cerebral adora uma novidade, um desafio.
Marcone Formiga - Por quê?
Cosete Ramos - Isso é relacionado ao talento. Acabei de voltar de um dos maiores congressos de treinamento humano em empresas, nos Estados Unidos. A maior ênfase foi em torno das palestras sobre talento. As empresas estão em uma guerra de talentos, porque, hoje em dia, o que leva adiante é a inovação.
Marcone Formiga - Onde está a inovação?
Cosete Ramos - No cérebro humano! Não é em vão a batalha das empresas em ter e manter os talentos. Aquelas escolas velhas, tradicionais, onde os alunos sentam uns atrás dos outros, representam um mal para o cérebro, porque ele não tem estímulo. A escola velha não desafia. O mesmo vale para as famílias que não oferecem novidades, não estabelecem brincadeiras dentro de casa... O cérebro adora ser desafiado para criar o novo, o diferente, algo que não tenha sido feito. A família moderna se senta ao chão e escreve em um papel todos os sucessos - seja a poesia da filha elogiada na escola, o campeonato de natação que o filho ganhou, o bolo delicioso que a mãe fez, o reconhecimento profissional do pai. Isso enche a família de positividade! Aí, nesses momentos de alegria, cabe lançar alguns desafios, como uma viagem, um curso para fazer com a família.
Marcone Formiga - Afinal, qual é o conceito do sucesso?
Cosete Ramos - O sucesso tem um conceito muito amplo, e não está tão relacionado com o dinheiro como as pessoas pensam. O sucesso profissional, ganhar dinheiro, é importante, sim, mas não é suficiente. Um ser humano íntegro, pleno, completo é aquele que terá sucesso, em todas as suas dimensões, indo da religião à cultura. Albert Einstein costumava dizer que todos têm um gênio dentro de si. Agora, se o cérebro não for usado corretamente, perde seu potencial. Quem não usa, perde. Quanto mais se usa o cérebro, mais talento, conquista mais sucesso na vida e no trabalho.
Marcone Formiga - Quais são as ferramentas para as pessoas pensarem genialmente?
Cosete Ramos - Ao todo são 13 ferramentas. No livro, eu peguei quatro. Uma delas, que está sendo muito usada no mundo profissional de hoje é a “evocação de imagens”, é a capacidade de evocar imagens do seu cérebro. Por exemplo: sonhar, usando o cérebro, sobre o que você pretende fazer da sua vida daqui a cinco ou 10 anos. Pode-se, também, usar essa vocação de imagem para uma reunião importantíssima que você vá participar amanhã. Então, você se prepara para essa reunião, e a vê acontecendo, no cérebro. O Albert Einstein descobriu a Teoria da Relatividade se vendo a correr ao lado de um raio de luar. Nisso, o cérebro dele evocou essa imagem e foi uma das formas que ele viu para elaborar a teoria. Marta Graham, uma das maiores bailarinas do mundo, treinava, na mente, os passos que iria executar. Sentada, ela treinava os passos! Jogadores de tênis treinam suas cortadas na mente, sendo tão poderosas quanto as reais. O poder da mente é fantástico! O Ayrton Senna se via ganhando corridas antes de ultrapassar a linha de chegada. A evocação de imagem é importantíssima para profissionais. É uma técnica chamada imagery. Poderíamos muito bem aproveitar essa ferramenta, já que temos o cérebro genial. As pesquisas demonstram que todas as pessoas têm lampejos de genialidade. Por exemplo: a tão falada intuição, que é um dos itens da criatividade, acontece basicamente à noite. O momento mágico da criatividade é a noite.
Marcone Formiga - Existe alguma razão para isso?
Cosete Ramos - Porque é a hora em que a pessoa se vê afastada de todas as críticas. O ser humano não costuma deixar o cérebro pensar. Quando a idéia começa a se desenvolver no cérebro, a pessoa interrompe pensando: “Não vai dar certo!”. Ou seja, a idéia é morta no nascedouro, sem sequer ter sido formentada. À noite não há críticas. Não há nada que ponha anteparos. O cérebro fica livre para criar. Aí, se dá o momento mágico da criatividade.
Marcone Formiga - Qual a melhor forma de estímulo?
Cosete Ramos - As palmas, que são a cara do ser humano emocional do século XXI. Estamos resgatando o humano do ser humano. Trabalhei em algumas grandes consultorias, e sempre levei aquelas mãozinhas de brinquedo que aplaudem. Todos os profissionais tinham que ter esse brinquedo em suas mesas. Este símbolo das mãos que aplaudem representa o desgaste do ser humano emocional, capaz de deixar de lado o seu egoísmo para aplaudir o outro, além de encher a si mesmo de positividade, falando: “Eu fiz algo muito bonito, do qual eu me orgulho”.
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