Ano VII - Número 81 - agosto - 2007

Comportamento
Colaboração: Jussara Dutra Izac

Culpas, sucesso, escolhas e dilemas: mulheres profissionais em debate

Imagem de um telefone

“Saímos de casa e causamos um rombo no que diz respeito aos paradigmas. Temos responsabilidade de consertar isso.” A consultora Vicky Bloch foi uma das especialistas que esteve semana passada no seminário promovido pela Dow, em que culpa e sucesso feminino estiveram em pauta.

O que uma mulher precisa fazer para ser bem-sucedida na vida profissional? Esse foi o tom das conversas durante o Fórum Mulher: Carreira, Conquistas e Desafios, promovido pela Dow Brasil no dia 13 de junho, no Hotel Renaissance, em São Paulo. A resposta é mais complexa do que fazem supor os blockbusters de auto-ajuda e requer uma reflexão que a Dow está interessada em liderar.

Essa estratégia de gestão da Dow, surgiu da constatação de que as mulheres cada vez mais marcam presença nas empresas – ocupam hoje 40% da força do trabalho do planeta, revelam dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A Dow anuncia que até 2012 quer 30% de líderes mulheres em seus quadros de funcionários no mundo todo – ela tem 43 mil empregados em 175 países.

O fórum teve público de 400 pessoas e contou com a presença de Pedro Soares, presidente da Dow na América Latina, e Vicente Teixeira, diretor de Recursos Humanos e Comunicação Corporativa para a América Latina. Os dois ressaltaram que valorizar a diversidade, sejam elas de idade, raça, sexo, faz parte das diretrizes mundiais da empresa há anos. Mas esse encontro surgiu para dar exclusividade à mulher e à necessidade de estabelecer políticas de oportunidades iguais para ela.

Líderes femininas da Dow também reforçaram o compromisso da companhia com as mulheres. Julie Fasone Holder, vice-presidente corporativa global de Marketing e Vendas, Recursos Humanos, Diversidade e Assuntos Corporativos, falou na abertura sobre o avanço da mulher no trabalho em todo o mundo e seus 32 anos de trabalho na Dow.

Rombo

Para uma platéia com grande maioria de mulheres jovens, a psicóloga Vicky Bloch, sócia da consultoria Vicky Bloch Associados, começou sua fala, alertando: “Meninas, prestem atenção. A Dow está fazendo o que nós mulheres já fizemos. Nós saímos de casa e causamos um rombo imenso no que diz respeito aos paradigmas. Temos responsabilidade de consertar isso.” Aí é que está o grande conflito. A conta do que a mulher ganhou e o que perdeu com suas conquistas parece nunca favorecê-la, nem no plano material, nem no existencial. Ela ganha menos que o homem e assume mais funções tanto no trabalho quanto em casa, como provam tantas pesquisas. “É uma questão cultural para a qual, felizmente, as empresas começam a olhar. Prova disso é a iniciativa da Dow em promover esse debate”, disse Laís Passarelli, que é também psicóloga e sócia-fundadora da Passarelli Consultores.

Culpa  

Pela reação da platéia (risos e cabeças balançando em sinal afirmativo), Vicky mexeu no centro da ferida ao dizer que as mulheres sofrem de culpa e têm sempre a sensação de estarem no lugar errado. “Não conseguimos administrar bem a nossa saída de casa”, afirmou Vicky. “Estamos terceirizando a educação de nossos filhos. Pesquisas mostram que a família é o item mais importante na vida da mulher. É exatamente da família que ela está abrindo mão para ganhar espaço no mercado de trabalho. O impacto emocional dessa mudança é muito grande.”

Lembrando que as empresas têm de criar instrumentos para lidar com essa nova situação, a psicóloga realçou que as mudanças ainda afetam a relação marido e mulher e baixam a qualidade de vida ao provocar estresse, depressão, raiva e até falta de tempo para cuidados com o corpo. “É uma situação irreversível na qual as mulheres se meteram sem ser treinadas para isso.’’

O que fazer para administrar aparentes paradoxos como ‘ser mãe’ ou ‘profissional’”? Vicky mesmo responde: “Temos que trocar o ‘isto ou aquilo’ por ‘isto e aquilo’.” Como fazer a transição sem tanta dor é um processo que, segundo a especialista, só é possível com a definição clara de projetos de vida. Porque tudo ninguém pode fazer e a toda hora sempre vamos ter de fazer escolhas. “Sabendo exatamente onde quer chegar, fica mais fácil reconhecer e deixar de lado aquilo que não faz parte do seu projeto de vida.” Ao ser perguntada o que leva em conta na hora de fazer uma escolha, Vicky respondeu: “Eu sempre privilegio as relações. É o que me move na vida.”

Escolhas

Fazer escolhas é uma questão que a ex-ministra Claudia Costim administra muito bem porque, segundo ela, nunca teve a pretensão de tirar nota 10 em tudo, sempre fez escolhas movida pela paixão pela administração pública e procurou aprender com os próprios erros. Ela acaba de deixar o cargo de vice-presidente da Fundação Victor Civita para dar aulas numa universidade do Canadá, onde vai ficar um ano. De lá, vai escrever artigos sobre estado e globalização para o jornal O Estado de S. Paulo, e continuará atuando na Fundação Victor Civita como conselheira.
 
Em sua apresentação, Claudia Costim falou de sua trajetória pessoal na carreira, que além de cargos nos governos federal e estadual, inclui experiências internacionais como conselheira de governos na África, onde morou, quando a filha era pequena e teve que ficar no Brasil, aos cuidados da avó. Em todos os momentos, ela teve o apoio incondicional e o companheirismo do marido. Nesta mudança para o Canadá, ele vai junto e os filhos ficam – estão adultos, independentes e, segundo ela, sobreviveram muito bem à agitada carreira da mãe. Nem sempre as histórias são assim mas, com certeza, com o olhar mais sensível das empresas voltado para elas, as mulheres vão ter mais oportunidades e condições de fazer suas escolhas e se dedicar a elas.

 


Fonte: Canal RH - Revista - Ano 2007 - Nº 59 - julho/2007 por Fátima Cardeal


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