
Sobre a ferocidade humana
“Amarás a teu próximo como a ti mesmo” é um mandamento que o cristianismo nos legou e que carregamos muitas vezes como matriz de constituição de muitos de nossos princípios morais. Freud, em seu memorável texto “O mal-estar na civilização”, nos convida a refletir sobre as dificuldades do cumprimento de tal voto, argumentando ser impossível amar aquele que, por princípio e estruturalmente, não pode corresponder a esse amor, aliás, amor cuja autenticidade é questionada em sua própria origem.
É que, para Freud e para a Psicanálise, o amor é apenas uma vertente do sentimento humano, confinado com o ódio desde a origem de nossa constituição psíquica. Em outras palavras, o ser humano, para ele, traz, na sua carne, as marcas desse molho pulsional cujas manifestações no seu cotidiano podemos detectar na natural ambigüidade de sentimentos que constitui o dia-a-dia de nossa vida amorosa. Ninguém ama ou odeia puramente, o amor platônico é uma invenção da filosofia e dos tímidos.
Aquele que já passou pela experiência da paixão há de concordar com essas premissas, porque nela o esvaziamento do meu eu para investir no meu objeto passional me coloca à sua mercê, colocando em risco minha sobrevivência como sujeito. Daí meu ódio por amá-lo tanto, daí a necessidade profilática da brevidade de qualquer paixão: se ela prevalece é inevitável o paroxismo do “ou ele ou eu”, e aqui, me perdoem os românticos, ganha o narcisismo, a sobrevivência. Essa amálgama pulsional está aí, portanto, desde a origem, marcando o homem com um traço de maldade que só os puritanos e os hipócritas tentam desconhecer.
A partir dessa perspectiva podemos compreender as patologias da paixão que grassam nos tempos atuais, travestidas no fervor guloso das bulimias, na escravidão obscena das drogas, no culto perverso do sexo transgressivo e em mil outros gozos clandestinos que marcam nossa contemporaneidade.
Num outro patamar aquém (ou além), hoje e em todos os tempos, podemos assistir ao desfile dos crimes seriais, ao gozo sádico do torturador, ao sem-sentido dos rituais sacrificiais e, marca do nosso tempo (!), à utopia insensata e irracional dos homens e mulheres-bomba. Nada mais lapidar e ilustrativo, entretanto, dessa maldade do ser humano do que o triste espetáculo protagonizado pelo estudante sul-coreano Cho Seung-Hui nos Estados Unidos. Ali assistimos, perplexos, a que ponto o irracional da ferocidade humana pode explodir num paroxismo de fúria e insanidade. Somos chamados, num episódio como esse, a refletir sobre o quanto dessa fúria insana nos habita, tirando-nos a ilusão romântica de uma natureza humana bondosa. Cho Seung-Hui, com seu visual patético de justiceiro tresloucado, é somente mais um exemplo de como no homem habita um predador implacável adormecido, bastando, para seu despertar, que algumas circunstâncias do meio ocorram.
Fonte:
Dr. José Mário Simil Codeiro
Médico-psiquiatra e psicanalista
Secretaria de Assistência Médica e Social (SAMS) do Senado
Federal.
Foto: Site Poeta Gótico
ATENÇÃO: A responsabilidade deste artigo é exclusiva de seu respectivo
autor (fonte).
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