O amor em tempos corporativos
Relações afetivas bem cuidadas também preservam a produtividade nas empresas

Criar um pronto-socorro sentimental pode revelar-se uma boa ideia para as corporações na cruzada para garantir produtividade. Para o professor de Relacionamento Amoroso da Universidade de São Paulo (USP), Ailton Amélio da Silva, as empresas ainda não perceberam o quanto a questão afetiva interfere na qualidade de vida dos colaboradores.
O especialista, que lançou na semana passada o livro “Relacionamento Amoroso - Como Encontrar sua Metade Ideal e Cuidar Dela”, admite que não há fórmulas para viver um grande amor nem medidas preventivas de eficácia garantida, tanto no âmbito pessoal como corporativo, para impedir desilusões amorosas, mas sugere que é possível promover ações de educação nesse sentido.
Palestras e cursos, diz, podem ser de grande utilidade, mas também vale manter na empresa uma equipe especializada para atendimento clínico em casos especiais, como separação e traição, por exemplo. Doutor em Psicologia pela USP e pesquisador há mais de 20 anos, com foco em relacionamentos amorosos e comunicação verbal e não-verbal, ele afirma que “a desilusão amorosa afeta a qualidade de vida brutalmente”.
Assim como campanhas de ginástica laboral, educação alimentar e administração do tempo, a educação sentimental pode fazer diferença na qualidade de vida e produtividade dos profissionais, sugere.
Namoro no trabalho
Diante de um modelo que exige dos profissionais uma dedicação crescente ao trabalho, nada mais natural que um número cada vez maior de relacionamentos afetivos comece no ambiente corporativo. Vale lembrar que as regras ou códigos de conduta que proíbem esse tipo de relacionamento vêm cedendo espaço a políticas corporativas internas mais flexíveis.
Encontros na balada, acidentais ou pela internet somam cerca de 25% dos casos de início de namoro, diz o professor Ailton. Segundo ele, na última pesquisa que realizou sobre o assunto, 37% dos entrevistados conheceram e começaram relacionamentos no ambiente de trabalho e outros 32% foram apresentados a seus futuros parceiros em situações diversas. “Antes, tínhamos profissões e ambientes corporativos restritivos. Hoje até mesmo a participação feminina mais expressiva no mercado de trabalho aumenta as chances para isso acontecer”, diz.
Ele adverte, entretanto, sobre os cuidados necessários para o relacionamento não interferir na vida profissional e dispara: “discrição é fundamental!”. Afirma ainda que é desejável que o par não atue na mesma equipe ou departamento, uma vez que podem comprometer o desempenho e até mesmo afetar os colegas.
Sem fórmulas prontas, mas com cuidado
Para o designer Marcelo, que prefere não revelar o verdadeiro nome, o encontro com a publicitária e colega de trabalho Tânia (nome também fictício), na lanchonete de uma grande companhia editorial, em tudo lembrava outras milhões de casualidades. Um bom papo, algumas afinidades percebidas de imediato. Dia após dia, durante algumas semanas, os encontros repetiram-se.
Mas foi num almoço, sem a presença de outros colegas, que os dois tocaram no assunto abertamente e resolveram se entender. “Ficou combinado que a gente não tornaria o relacionamento público, até porque trabalhávamos na mesma publicação”, conta Marcelo. Foi um pouco difícil, mas não impossível, observa.
Meses depois, quando o namoro ficou mais sério e o casal resolveu dividir as escovas de dentes, chegaram à conclusão que o ideal seria não atuar profissionalmente juntos. “O projeto do casamento foi adiado até que um dos dois conseguisse uma oportunidade profissional que nos distanciasse no trabalho”, lembra o designer.
Hoje, em núcleos diferentes da mesma empresa, o casal - agora “oficial” - afirma que valeu a pena esperar para que todos soubessem do envolvimento. “De certa forma, preservamos a relação e o emprego.”
Fonte: Canal RH - Junho de 2009 - por Valéria Ignácio
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