PFL prepara reciclagem de bandeiras políticas
Legenda mudará posição sobre economia globalizada e pregará mudança em privatizações
DIANA FERNANDES
BRASÍLIA - O PFL, símbolo do liberalismo no Brasil desde o fim da década passada, está revendo os conceitos sobre duas bandeiras que vem defendendo nos últimos anos: a globalização e o modelo interno de privatização. Os resultados perversos da globalização para os países em desenvolvimento, confirmados recentemente por relatórios do Banco Mundial (Bird) e de organismos da Organização das Nações unidas (ONU) assustam, agora, os liberais brasileiros, que sempre rejeitaram o discurso das oposições sobre os efeitos da economia globalizada nos países pobres. Os pefelistas passam a defender, também, outro modelo para as privatizações no Brasil, que possa garantir preferência para as empresas nacionais.
A nova posição do PFL sobre privatizações será externada, de forma mais contundente, pelos líderes e dirigentes do partido em discursos no Congresso. Os primeiros já foram escalados: o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), e o líder na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), irão à tribuna no início de outubro. "Vamos defender o modelo de privatização pulverizada, para evitar a completa desnacionalização do País", diz Inocêncio, que não deixa de surpreender seus interlocutores quando assume um discurso semelhante ao dos chamados "nacionalistas". A idéia, baseada no modelo inglês, é de pulverização das ações de empresas estatais em bolsas de valores, para que mais empresas (incluindo as pequenas) possam dividir com eventuais investidores estrangeiros o capital da empresa privatizada.
A correção de rumo das privatizações defendida pelo PFL inclui críticas a procedimentos de bancos oficiais, como o BNDES. O que dizem os pefelistas é que o governo não poderá mais permitir que o BNDES venha a favorecer novas empresas multinacionais que deveriam aportar no Brasil com capital estrangeiro, e não dependendo de financiamentos internos. "Precisamos de empresas que venham investir com seu chapéu e não com o do BNDES", afirma o líder pefelista.
Sobre a economia globalizada, há outro conceito em moda entre os pefelistas, que também surpreende: "O mercado pode muito, mas não pode tudo; o sentimento hoje é de que o livre mercado não pode ser valor para regular todas as atividades; deve somente dar os intrumentos para que um país chegue a seus valores máximos, que são saúde, educação e habitação." É esse debate que o partido quer promover internamente, num seminário sobre globalização que está sendo organizado. "Esse discurso não está em confronto com a linha mestra do PFL, por que não somos simplesmente liberais, mas sociais-liberais", antecipa-se Inocêncio.
Convidado - Para o seminário do PFL sobre globalização, o primeiro convidado deverá ser o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, que é o atual secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento). Foi o relatório anual da Unctad, divulgado recentemente, que mais assustou os defensores das políticas liberais no Brasil.
O relatório mostra que, pela primeira vez em 10 anos (no auge da economia globalizada), os países em desenvolvimento tiveram um crescimento menor do que os países ricos. O estudo aconselha os países em desenvolvimento a retomar muitas das práticas condenadas pelo liberalismo no mundo todo - como a exigência de reciprocidade nas relações comerciais. O estudo da Unctad vai na mesma direção do relatório do Bird, que sustenta, categoricamente, que o liberalismo aumentou as diferenças sociais no mundo.
O ex-deputado Saulo Queiroz, hoje à frente de projetos especiais e de marketing do PFL, salienta que o debate sobre a globalização tem sido uma constante na direção do partido, mas precisa chegar às bases. "O problema é que nós, o Brasil, entramos de cabeça na globalização, sem nenhum tipo de proteção para os produtos nacionais, como fizeram os países ricos, e é muito complicado ser competitivo com regras desiguais."
A respeito das privatizações, ele lembra que já há algum tempo o PFL se vem incomodando com distorções verificadas nos processos mais recentes. "Mas o clima não era favorável a esse debate, pois poderia prejudicar os leilões em andamento, mas agora está na hora de explicitarmos a necessidade de mudanças nesse processo." O novo discurso sobre globalização e privatizações vai na direção da preocupação social recente do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (BA), e de seu projeto de combate à pobreza.