Márcio Moreira Alves

Praia mineira
Nem era tanta a animação no calçadão de Copacabana domingo, se considerarmos ser o primeiro fim de semana em mais de mês com um tempo decente, bom o suficiente para não espantar os nordestinos, que congelam abaixo de 30 graus, e atrair os paulistas, que acham que tudo que não é garoa é deserto do Saara. Animado estava o papo na barraca do Diógenes. Modéstia à parte, fui aclamado ao chegar. ‘‘Mineiro só é solidário no câncer’’, garantia Nelson Rodrigues, no que era contraditado furiosamente por toda a geração de 45: Otto Lara Rezende, em primeiro lugar, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, até Murilo Rubião, que se arvorou em ex-mágico muito antes desse Mister M e com muito mais talento. Todos citavam inúmeros casos de indiscutível solidariedade mineira para contradizer o carioca-pernambucano que nos difamava. Os casos eram, geralmente, políticos, como compete à nossa cultura de porta de farmácia. Não sei se repararam, mas não há no mundo tantas portas de farmácia como nas esquinas das cidades mineiras, e abrem-se mesmo no meio dos quarteirões. Todas são vibrantes centros de debates, onde se citam de cor os autores mais profundos, nacionais e estrangeiros. Foi graças às portas de farmácia de Minas que se preservaram algumas das mais sábias reflexões da filosofia política brasileira. A Lei Flores da Cunha, por exemplo, não se guardou entre as histórias gaúchas da Guerra do 93 ou do Tratado das Pedras Altas, mas nas ladeiras de Minas. Reza a lei que ‘‘político sem mandato é como puta sem cama’’. Perde a capacidade de trabalhar, nem sequer é convidado para sentar-se à mesa e tomar um cafezinho. O Pimenta da Veiga, por exemplo, ficou quatro anos sem mandato e até o servente do mictório barrava sua entrada no Alvorada. Aprendeu, reconquistou seu lugar de deputado e virou ministro. Tão poderoso que se dá ao luxo de fazer caretas para ACM. Os últimos ministros da Justiça são outros exemplos. Caso não tivessem mandatos de senador, nem mesmo pela cabeça do presidente Fernando Henrique passaria a idéia de entregar a Íris Rezende e Renan Calheiros o comando da Polícia Federal. Quando precisou removê-los, teve um trabalho imenso, tomou cuidados especiais, andou com pés de lã, buscando compensações. Já quando quis remover ministros sem mandato, como Celso Láfer, Bresser Pereira e, agora, Clóvis Carvalho, nem o aviso prévio que se dá às empregadas domésticas tiveram. Bastou um piparote e uma declaração do porta-voz à imprensa. ‘Há ministros de atrapalham’’, conseguiu balbuciar o diplomata, siderado pela profundidade do conceito que o encarregaram de transmitir ao mundo. Ministro que ajuda é o Dornelles, argumentou o seu Alquicionídes, brindando o conterrâneo com um gole de cachaça de Salinas. O único político que o tal Nélio Botelho, líder dos caminhoneiros conhecia, quem era? Era ele, que nem dirigir sabe. E quem levou frentistas ao Palácio do Planalto? Ele,também. E onde é que o Chico Dornelles aprendeu a fazer política? Se pensam que foi na França, estão enganados. Lá, ele só aprendeu a enganar o Imposto de Renda. Enganar eleitor, aprendeu foi na porta das farmácias de São João del Rei, concluiu. Voltando ao inusitado sucesso que fiz na barraca do Diógenes, deve-se à notícia que eu mesmo dei do trombo que interrompeu a circulação do sangue numa área cerebral que comanda a visão, deixando-me semi-cego há 15 dias. Solidários e gentis, aquele bando de desocupados mordazes apressou-se a me desejar melhoras e muitos anos de vida, um certo exagero, sem dúvida. A todos sou comovidamente agradecido, inclusive aos muitos que me mandaram mensagens por e-mail e que deixei de responder. Na verdade, comecei a recuperar a visão no sábado em que dom Helder Câmara entrou em glória. Foi a primeira vez que enxerguei o bastante para usar o teclado do computador. Pude, assim, transmitir parte das emoções que senti com a partida do irmão dos pobres, um dos últimos amigos fraternais de minha mãe ainda vivos. Por vezes penso que os médicos sabem apenas um pouco mais sobre medicina que os economistas da PUC sabem sobre economia, o que me deixa meio desconfiado com hospitais e diagnósticos. Já vi muita gente morrer de médico. País morrer de economista, o Brasil é o primeiro. Em todo caso, como sou um paciente disciplinado e um cidadão crédulo, obedeço ao que me mandam fazer, como preço da viagem que planejo fazer para a Amazônia, num navio hospital da Marinha. Hoje, dia da pátria, é uma boa ocasião para percebermos como conhecemos pouco esse nosso país, desafiador e imenso. Soube que o atual presidente da Comissão Mista do Orçamento é o senador Gilberto Mestrinho, do PMDB do Amazonas. O relator do Plano Plurianual, PPA, é o senador Jáder Barbalho, do PMDB do Pará. A informação me fez apressar a viagem. A todos conclamo : visitem a Amazônia antes que acabe!