As paredes têm ouvidos

Na era da paranóia, em que tudo se escuta, é cada vez mais promissor o ofício de detetive particular
Ricardo Mendes
Bons tempos aqueles quando só as paredes tinham ouvidos e os bisbilhoteiros podiam ser flagrados atrás de uma porta ou com a orelha colada a uma janela. Na era do grampo, os invasores de privacidade são sofisticados. Os ouvidos multiplicam-se. Podem estar ligados a um telefone ou disfarçados em objetos do tamanho de uma moeda, escondidos na decoração do escritório. Olhos eletrônicos também assumem disfarces. Maletas e óculos camuflam câmeras de vídeo. E o noticiário dá argumentos para cidadãos com idéias paranóides aumentarem sua desconfiança. Afinal, se até o presidente da República é vítima de escuta telefônica, ninguém está imune. O investigador de hoje poderá ser o grampeado de amanhã. Que o diga o detetive Lima, nome usado por um investigador particular de 29 anos com escritório no Guará. ‘‘Comprovadamente, não existe segurança 100% segura’’, defende. No último domingo, ele descobriu que seu telefone estava grampeado há 28 dias por um concorrente. O autor da escuta clandestina oferecia aulas de investigação a pessoas que procuraram a empresa de Lima, Central Única dos Detetives do Brasil, para fazer um curso de detetive. A espionagem foi descoberta com um rastreador eletrônico. ‘‘Foi um profissional da minha área quem fez isso’’, revela o investigador, que diz conhecer o autor do grampo. ‘‘Foi uma fraqueza dele, prefiro não denunciar.’’ Até policiais podem ser reféns da espionagem. Um ex-diretor da Polícia Civil conta que, quando esteve naquele cargo, descobriu grampos nos telefones do seu gabinete. Embora não possa provar, ele atribui a escuta a seguradoras interessadas na recuperação de carros roubados. ‘‘Não tínhamos meios para detectar e deter o grampeamento’’, admite. Enquanto ele esteve na direção da Polícia Civil, parlamentares, secretários de governo e até um governador o procuraram apreensivos com a possibilidade de estarem sendo ilegalmente espionados. A todos, dizia não haver como garantir imunidade total diante dos bisbilhoteiros eletrônicos e que o melhor a fazer era evitar assuntos sigilosos e importantes ao telefone. PARABÓLICAS E SATÉLITES A tendência dos nossos tempos, acredita o ex-policial, é aumentar em cada indivíduo a sensação de estar sendo vigiado, o receio de ter a privacidade exposta. ‘‘Estamos entrando no século da insegurança’’, teoriza. ‘‘Daqui a pouco, os grampos serão feitos por antenas parabólicas e satélites.’’ Para outro detetive — que também prefere não ser identificado —, a era de insegurança anunciada pelo ex-policial já chegou, com ajuda de equipamentos sofisticados vendidos nos Estados Unidos e em Israel. ‘‘É possível usar uma antena parabólica em Brasília para escutar um celular que esteja em Goiânia’’, adverte ele, com 10 anos de trabalho como investigador particular. Entrar para o mundo de James Bond, o espião mais famoso do cinema, está ao alcance do mouse do computador. Na Internet, páginas como as das empresas Spytech (www.spytech.net) e Spytrak (www.spytrak.com) oferecem equipamentos de espionagem a bisbilhoteiros de todo o mundo, com direito a entrega em domicílio e débito em cartão de crédito. Um batom com câmera de vídeo embutida custa US$ 199. Outra câmera, do tamanho de uma moeda de R$ 0,50, sai por US$ 189. A mais cara, oculta na haste central de uns óculos escuros, é vendida a US$ 2.395. A maior parte dos artigos à venda nesses sites da Internet refere-se a equipamentos para escuta e contra-espionagem telefônica. Por US$ 89,99, pode-se adquirir um bloqueador de grampo. Para detectar o grampo, há um aparelho vendido a US$ 199. Um dispositivo que altera o tom de voz ao telefone custa US$ 125. Outro, mais sofisticado, embaralha todos os sons emitidos, mas só funciona se estiver instalado nas duas linhas que participam da conversa. Cada peça sai por R$ 379,95. Engana-se quem pensa ser suficiente encerrar a conversa e desligar o telefone para se livrar de um grampo. Essa barreira é rompida por um aparelho chamado The Informer (o informante), vendido a R$ 199,99 pela Spytrak. Quem liga para uma repartição com telefone conectado a um Informer pode ouvir o que os funcionários de lá conversam depois de terem posto o fone no gancho, seguros de que ninguém os ouve. O equipamento é ferramenta útil no mundo dos negócios, onde informações privilegiadas podem, por exemplo, definir o vencedor de uma concorrência pública. ESPIONAGEM O acirramento da competição entre empresas vem mudando o perfil dos clientes dos investigadores particulares. Há uns três anos, contam, nove entre dez contratações eram para investigar adultério. ‘‘Hoje, três em cada dez pessoas que me contratam querem espionagem na sua empresa ou na concorrência para melhorar os negócios’’, estima Ricci, um detetive de 31 anos com escritório em Taguatinga e equipe de cinco ajudantes. Ele chega a alugar equipamentos para empresários interessados em investigar por conta própria. Por R$ 500, Ricci cede por duas horas uma maleta sanfonada de couro com câmera embutida. Este mês, foi contratado por uma empresa que quer saber como uma concorrente tem roubado clientes dela. Outro investigador, que prefere o anonimato total, afirma ter sido contratado na semana passada por um empresário que vende componentes para um certo tipo de motor. Sua missão: identificar os maiores clientes da concorrência para que a empresa espiã possa chegar na frente, oferecendo preços melhores. Para atingir esse objetivo, cobra-se até R$ 2 mil por dia de grampo telefônico, mais diárias que variam entre R$ 200 e R$ 300. Não é à toa que, depois da investigação de adultério, a contra-espionagem tem sido a principal atividade dos investigadores particulares, segundo eles próprios. Ricci recebe R$ 1,5 mil para rastrear uma linha telefônica e identificar se há escutas clandestinas. Faz isso pelo menos uma vez por mês. Por R$ 600, ele instala um aparelho que denuncia se o telefone está grampeado. Um pequeno dispositivo para avisar se há um microfone escondido na sala ou escritório sai por R$ 100. PARANÓIA Ricci admite que o crescimento da contra-espionagem é desproporcional à quantidade de escutas que possa existir. ‘‘Apenas 10% das suspeitas são comprovadas, pois o medo de ser grampeado é mais freqüente que o próprio grampo’’, avalia o detetive, que acredita nunca ter sofrido uma invasão nos seus telefones. Quando uma pessoa desconfia que seu telefone está grampeado sem que haja um indício concreto, ela está tendo uma idéia ou sentimento paranóide. É o que explica o presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar, Ileno Izídio da Costa, 40 anos, que leciona Psicopatologia na Universidade de Brasília (UnB). Ele define como sentimento paranóide a sensação tida por um indivíduo ao acreditar que pode estar sendo perseguido ou vigiado. ‘‘Em um nível saudável, é um mecanismo psíquico que ajuda a pessoa a tentar se defender, como ocorre quando ela está sozinha à noite em um lugar ermo e decide sair correndo para escapar de um perigo que ela presume, mas não vê’’, comenta Costa. O professor observa que esses sentimentos são comuns nos dias de hoje, quando informações sobre ‘‘criminalidade, violência e invasões de privacidade fundamentam as idéias paranóides’’. O problema é quando esses sentimentos de perseguição são recorrentes e a pessoa começa a fantasiar uma série de circunstâncias e idéias que os justifiquem, como se tudo conspirasse contra ela. ‘‘Essas distorções do juízo são características da doença mental chamada paranóia, que só pode ser enfrentada com tratamento adequado’’, informa o professor da UnB. Costa explica que, quanto mais uma pessoa detiver idéias e informações que deseja ocultar e for pressionada a revelá-las, maior a chance de surgir sentimentos paranóides. ‘‘Se for uma pessoa com predisposição à paranóia — que tenha delírios de grandeza, por exemplo —, esses sentimentos podem desencadear a doença’’, conclui.