Surpresas eleitorais
Como acontece com todos os derrotados numa eleição, ontem foi a vez dos institutos de pesquisa tentarem descobrir onde erraram e por que erraram tanto no Distrito Federal e em Goiás. No caso específico do DF, onde a apuração já terminou, foi um festival de desacertos. Nenhum deles previu que o governador-candidato Cristovam Buarque seria o líder na disputa. O que chegou mais perto foi o Datafolha, que indicou na boca de urna um empate entre Cristovam e o candidato do PMDB, o ex-governador Joaquim Roriz: 41% a 41%. Roriz obteve 39,2%. Cristovam 42,6%, números dentro da margem de erro, o que deixou o diretor do instituto, Mauro Paulino, feliz da vida: ‘‘Nós mostramos desde o início que a disputa em Brasília seria apertada. Eu estou comemorando os nossos resultados’’. Ao mesmo tempo em que Paulino era só alegria em relação ao Distrito Federal, os demais institutos montaram um festival de hipóteses e teses para justificar as discrepâncias entre os votos que saíram das urnas em Brasília e as indicações nas pesquisas. O mais contundente foi Ricardo Penna, do instituto Soma, do Distrito Federal. ‘‘Pode parecer arrogância, mas os institutos não erraram. Quem errou foi o povo’’, disse Penna, ao justificar as diferenças entre os números da Soma e os da urna: ‘‘Houve um grande número de eleitores que se atrapalhou com a urna eletrônica. E esse voto era de Roriz, que tem seu eleitorado entre as pessoas de baixa escolaridade. O eleitor do Roriz errou’’, afirmou. O resultado da pesquisa de boca de urna do Soma projetava uma diferença de cinco pontos a favor de Joaquim Roriz. Ontem, o Soma tentava explicar a discrepância com base nos números de votos brancos e nulos do Distrito Federal em todos os cargos: para governador, o número de votos brancos e nulos foi de 72.398. Por causa disso, diz Penna, os resultados não se confirmaram. ‘‘Não temos como prever o erro do eleitor na votação. O que aconteceu foi que o eleitor errava e ia saindo. O eleitor precisa aprender a votar. É educação. O eleitor do PT é mais esclarecido e teve menos dificuldades’’, disse Penna. Penna usa esse mesmo argumento para justificar a falta de sintonia entre a última pesquisa para senador do Distrito Federal e o resultado da eleição. ‘‘Houve um número grande de votos nulos, Luiz Estevão teria atingido o percentual que nós indicamos. As pessoas declararam o voto para ele e para o Roriz, mas não conseguiram votar. Isso prejudicou o PMDB’’. A argumentação de Penna é derrubada pelos dados do Tribunal Regional Eleitoral. Os números indicam que, desta vez, o eleitor anulou menos. No primeiro turno da eleição de 1994, quando Walmir Campelo e Cristovam se elegeram para o segundo turno, o número de votos brancos e nulos foi de 146.225. SURPRESAS Carlos Montenegro, do Ibope, que apresentou na pesquisa de boca de urna resultados parecidos com os do Soma, tem outra explicação: ‘‘Brasília sempre surpreende. Dissemos que haveria segundo turno de Roriz contra Cristovam e deu Cristovam contra Roriz. Em todos os estados e no país, tivemos mais acertos que erros. Vamos aguardar o encerramento das apurações e aí poderemos ter uma avaliação melhor sobre os institutos’’, disse, em entrevista à rádio CBN. O cientista político Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox Populi, o único grande instituto que não fez pesquisa de boca de urna em Brasília, concorda com Montenegro sobre as surpresas do DF. A sua última pesquisa, realizada nos dias 1º e 2 de outubro, indicava Roriz com 42% e Cristovam com 39%, uma diferença no limite da margem de erro, que acabou não se confirmando. ‘‘Não temos o direito de ficarmos boquiabertos com os resultados das eleições no DF. Vimos isso em 1994, quando Cristovam venceu a eleição. O DF sempre surpreende’’, afirmou. Coimbra acredita que o resultado mais surpreendente é o de Goiás, onde a sua pesquisa apontava uma diferença de 20 pontos em favor de Íris Rezende, do PMDB. Na opinião dele, Goiás e Mato Grosso do Sul, são, por enquanto, os únicos casos inexplicáveis, mas ele não tira o brilho do trabalho dos institutos ‘‘Há muitas coisas que agora parecem óbvias que só foram detectadas com o nosso trabalho, como é o caso da derrota de Miguel Arraes em Pernambuco e a vitória de César Borges, na Bahia’’, diz Coimbra. Surpresa, erro do eleitor ou mesmo dificuldades de previsão, há um ponto em que todos concordam: é preciso melhorar as análises das pesquisas. Esclarecer os eleitores de que uma pesquisa registra um momento que nem sempre é o que estará em alta no dia da eleição. Como disse ao Correio o governador quase eleito de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, parafraseando outro político: ‘‘Dizem que eu estou na frente. Mas, é melhor esperar. urna e barriga de mulher só se sabe na hora’’.