Conversa Pessoal
Ano VIII - Número 93 - agosto - 2008

Saúde
Colaboração: Jussara Dutra Izac

Remédio pode ser um veneno se usado de forma indevida

Foto de remédios

Existe uma expressão muito conhecida que diz “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. E ela parece ter mesmo um fundo de verdade, afinal, quem nunca se pegou indicando aquele “remedinho infalível” para o colega com resfriado, o parente com dor de cabeça ou o vizinho que sofre de azia? Basta alguém relatar o problema e pronto, rapidamente o diagnóstico e o tratamento são apresentados. E as receitas são as mais variáveis: vão desde a tradicional sopinha quente e o chá de ervas da vovó até aquele medicamento que promete deixar a pessoa novinha em folha do dia pra noite.

Embora tão comum entre os brasileiros, essa é uma prática que esconde sérios riscos à saúde. Tomar medicamentos por conta própria ou indicados por pessoas que nunca estudaram Medicina pode não apenas tardar a solução do problema e criar resistência do organismo a certas bactérias, como ainda resultar em outras complicações para a saúde. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma), todos os anos, cerca de 20 mil pessoas morrem no Brasil vítimas de automedicação. Na maioria das vezes, a causa da morte está relacionada à intoxicação e a reações de hipersensibilidade, como alergia aos medicamentos.

Além dos prejuízos à saúde, há o fator econômico que envolve o problema. A compra indiscriminada de medicamentos sem a devida prescrição médica e os custos com o tratamento de eventuais complicações oneram tanto os pacientes que gastam com medicamentos muitas vezes ineficazes para o problema, como os próprios cofres públicos em função de internações, a princípio, desnecessárias. Nos Estados Unidos, onde a automedicação é menos comum que no Brasil, o custo decorrente de reações adversas a medicamentos chega a superar seis milhões de dólares anualmente.

Para saber mais sobre o assunto, o Canal RH ouviu o doutor Alfredo Salim Helito, clínico geral e médico da família do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e autor do livro “Saúde – Entendendo as doenças”, uma enciclopédia médica para a população leiga. Na entrevista, ele fala sobre os perigos da automedicação, o uso indiscriminado de antibióticos, antitérmicos e analgésicos e a necessidade de campanhas que alertem a população para os riscos à saúde.

canalrh - Quais os riscos da automedicação?
Alfredo Salim Helito - A pessoa que decide se medicar sem uma orientação médica não tem conhecimento sobre a indicação verdadeira e correta do medicamento, sobre a dose adequada para aquela determinada situação e sobre os efeitos colaterais que a substância que ela está ingerindo pode provocar. Há, ainda, o fato de que caso ela venha a se deparar com esses efeitos colaterais não saberá quais as atitudes a serem tomadas para conter o problema. Por isso, a necessidade do médico. É ele quem tem condições de orientar o paciente quanto a todas essas questões. Além disso, se automedicar subentende-se se autodiagnosticar, o que também é um problema. A expressão ‘ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado’ deveria ser modificada para ‘ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado, caso o paciente continue vivo’.

canalrh - Que tipos de medicamentos são mais comumente utilizados de forma indiscriminada pelas pessoas?
Helito - Entre os principais estão: analgésicos, antigripais, antiinflamatórios não hormonais, antibióticos, laxantes e complexos vitamínicos.

canalrh - O uso de vitaminas e suplementos alimentares é muito comum entre as pessoas. Essa prática esconde algum perigo?

Helito - Para pessoas que tenham um bom funcionamento do fígado e dos rins não costuma haver problemas. Entretanto, em algumas situações, pode ocorrer intoxicação por excesso desses complexos vitamínicos e protéico-calóricos.

canalrh - Nessa época em que muito se valoriza o culto ao corpo, algumas pessoas chegam a recorrer ao uso de anabolizantes para obter o corpo “ideal”. O que o dr. pensa a esse respeito?

Helito - O uso de anabolizantes é uma das formas de dependência de drogas. Essa prática pode levar ao hipogonadismo, que é a atrofia dos órgãos genitais, bem como a outros problemas de saúde, entre eles as doenças cardiovasculares como o infarto, isquemia cerebral, câncer de fígado, etc. A obtenção desses medicamentos é considerada também uma forma de tráfico de drogas. Afastar um ser humano do uso de anabolizantes é algo tão difícil quanto das demais drogas em geral.

canalrh - Antibiótico, antiinflamatório, analgésico. Muitas pessoas não sabem a diferença entre esses medicamentos, porém basta surgir um simples resfriado e já recorrem a eles. O que pode acontecer com o organismo dessas pessoas?

Helito - O uso indiscriminado de antibióticos pode levar a outras infecções e a seleção de bactérias multiresistentes que não respondem facilmente aos antibióticos comuns. Já os analgésicos e antiinflamatórios podem causar problemas na coagulação, úlceras e gastrites com hemorragias, insuficiência renal aguda e crônica, levando o paciente à diálise e transplante renal, além de muitos outros problemas. Há, ainda, que se mencionar que todos os medicamentos podem causar processos alérgicos. Essas citações servem para mostrar como pode ser perigoso tomar um simples comprimido de Ácido Acetilsalicílico sem uma orientação médica.

canalrh - Pessoas que usam lentes geralmente usam colírios com freqüência. Isso é seguro?

Helito - O único colírio inócuo é o de solução fisiológica (água e sal em proporções adequadas). Qualquer outro colírio deve ser prescrito e orientado pelo oftalmologista. O mesmo deve ser o responsável pela orientação sobre as lentes de contato.

canalrh - Mesmo utilizados de forma controlada, o uso de vários medicamentos em conjunto, como é muito comum em idosos, pode trazer algum tipo de prejuízo ao organismo?

Helito - Evidente que sim. Por isso mesmo, sempre deve existir a mão do médico orientando o paciente quanto às possíveis complicações do uso dos medicamentos, à interação medicamentosa - isso porque alguns medicamentos interferem na ação de outros - e aos controles necessários para que os medicamentos tragam benefícios, sem trazer malefícios.

canalrh - Os medicamentos sempre apresentam efeitos colaterais ou há remédios sem essa característica?

Helito - Todos os medicamentos alopáticos têm efeitos colaterais e o médico que o prescreve deve ter total domínio desses efeitos para poder diagnosticá-los rapidamente e saber corrigi-los com a mesma rapidez.

canalrh - O que fazer em caso de intoxicação por medicamentos?

Helito - A quantidade e variedade de problemas que pode resultar da intoxicação por medicamentos é tão grande que o único conselho apropriado é procurar imediatamente um médico ou um Pronto-Socorro. Quando o medicamento é prescrito pelo médico, o mesmo orienta o paciente a respeito dos possíveis sintomas da intoxicação pelo medicamento e o que fazer caso eles ocorram.

canalrh - A hipocondria pode ser considerada uma doença?

Helito - Sim. Ela é um distúrbio da esfera psíquica e por isso deve ser tratada.

canalrh - O fracionamento de medicamentos autorizado por lei pode ser uma forma de combate à automedicação, já que, ao comprar apenas a quantidade necessária para o tratamento, a pessoa não corre o risco de vir a utilizar o restante do medicamento que sobrou, sem uma orientação médica?

Helito - Sem dúvida. Essa é uma das atitudes para diminuir a automedicação. A exigência de receita médica para todos os medicamentos é outra medida. Há, ainda, a melhoria da assistência médica para a população carente que merece ser citada e, finalmente, campanhas de esclarecimento do problema pela mídia.


Fonte: www.canalrh.com.br - Julho de 2008 - por: Cleide Quinália
Imagem: www.oesteinforma.com.br


ATENÇÃO: A responsabilidade deste artigo é exclusiva de seu respectivo autor (fonte).


 



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