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07/11/2012
Pesquisa sobre a Violência contra a juventude negra no Brasil

 

A maioria dos homicídios que ocorrem no Brasil atinge pessoas jovens: do total de vítimas em 2010, cerca de 50% tinham entre 15 e 29 anos. Desses, 75% são negros. As respostas governamentais e não-governamentais ao processo de agravamento deste fenômeno em muito se beneficiaram de estudos e diagnósticos elaborados a partir dos dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. No entanto, pouco ainda se sabe sobre as percepções da sociedade acerca de tão importante tema.


Por isso, o DataSenado realizou a inédita pesquisa de opinião pública Violência contra a juventude negra no Brasil. Ela é parte do Protocolo de Intenções firmado entre o Senado Federal e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir/PR), no âmbito da campanha Igualdade Racial é Pra Valer.

 

Resumo Executivo

 

Dentre os resultados da pesquisa, cabe destacar que a maioria considera que as mulheres sofrem mais com a violência (67,1%) e que os negros são as principais vítimas (66,9%). Pouco mais de um terço (35,8%) acredita que a violência atinge mais os jovens na faixa de 19 a 29 anos. Perguntados sobre as causas, 63,0% atribuíram a violência contra a juventude a aspectos sociais, enquanto 34,8% disseram ser fatores comumente associados ao comportamento juvenil de risco. Quando inquiridos especificamente sobre a principal causa de morte entre os jovens, a maioria indicou o uso de drogas (56,2%), os acidentes de trânsito (22,4%) e os assassinatos (19,8%).

A maior parte dos entrevistados (62,3%) disse que jovens brancos e negros são mortos na mesma quantidade e 31,4% concordaram que jovens negros são mortos em maior quantidade que os brancos. Para 26,3% dos respondentes, a cor dos jovens tem influência na quantidade de mortes.

A noção de que no Brasil a violência mata mais pobres do que ricos é compartilhada por 90,4% dos respondentes. Também é alta a concordância (80,9%) com a afirmativa de que os jovens brasileiros são vítimas da violência independentemente da cor ou raça.

Entretanto, diante da frase “homicídio é a principal causa de morte dos jovens negros” 56,6% dos entrevistados se manifestaram favoravelmente. Percentual semelhante (55,8%) foi registrado para os que concordaram com a afirmação de que “a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte violenta de um jovem branco”. Para 55,1% dos respondentes, é correto afirmar que “a principal causa de homicídios de jovens negros é o racismo”.

Em relação à experiência pessoal dos entrevistados, o percentual dos que já se sentiram discriminados ou ofendidos por causa da sua cor ou raça em diferentes situações variou entre 10,9% («por profissionais de saúde») e 16,9% («por programas de televisão ou outro meio de comunicação»).

Na opinião de 36,4% dos entrevistados, a principal ação para combater o racismo deve ser a melhoria do ensino nas escolas. A mudança das leis foi assinalada por 22,7%, enquanto 20,8% consideraram suficiente a garantia do cumprimento das leis existentes. Acrescente-se que 15,7% apontaram as campanhas de conscientização e 2,4% consideraram as ações afirmativas como a principal medida que o governo deve tomar para combater o racismo.

 

Algumas pistas para a análise

 

É importante notar que as variações na frequência das respostas aparentam ser bastante influenciadas pela cor ou raça declarada da pessoa entrevistada. A percepção dos efeitos diferenciados da violência e da discriminação sobre distintos grupos raciais é mais evidente entre os que se identificaram como negros (pretos e pardos).

Do mesmo modo, observaram-se variações na opinião dos entrevistados segundo a região onde residem. Exemplo disso são as respostas sobre a cor ou raça das principais vítimas da violência. Os negros foram apontados nesta condição por 75,5% dos entrevistados da região Nordeste, 70,8% do Norte, 65,0% do Sudeste, 59,0% do Sul e 57,4% do Centro-Oeste.

A pesquisa permite identificar discrepâncias entre as opiniões captadas e as estatísticas oficiais. A maioria das pessoas concordou com a frase “jovens brancos e negros são mortos na mesma quantidade”, mas, em 2009, por exemplo, os homicídios foram a causa de morte de 6.685 jovens brancos e de 18.595 jovens negros na faixa de 15 a 29 anos.

Apenas 2,4% dos entrevistados atribuíram a violência contra os jovens à discriminação racial. Contudo, quando o enfoque é dado ao jovem negro, 55,1% concordaram que “a principal causa de homicídio de jovens negros é o racismo”. Outros aspectos levantados na pesquisa também ilustram um aparente processo de mudança de percepção sobre as relações raciais no Brasil. Primeiro, a admissão da experiência pessoal com a discriminação racial em diferentes situações, que variou entre 10,9% a 16,9%. Segundo, a constatação de que um pouco mais da metade dos entrevistados já considera que ser branco ou negro afeta a vida de uma pessoa. Por fim, o entendimento, também por mais da metade dos entrevistados, de que a sociedade se choca menos com a morte violenta de um jovem negro do que com a de um jovem branco.

A pesquisa evidenciou a importância atribuída à educação e à legislação no enfrentamento ao racismo. Talvez este seja um reflexo dos esforços desenvolvidos nos últimos anos para a implementação da Lei Nº. 10.639/2003, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional tornando obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira na rede escolar.

 

Metodologia de pesquisa

 

O DataSenado realizou pesquisa telefônica nacional sobre violência contra a juventude em 123 municípios do país, incluindo todas as capitais, no período de 1º a 11 de outubro de 2012. A pesquisa, realizada com um total de 1.234 entrevistas, conta com um nível de confiança de 95% e uma margem de erro de 3%. A população considerada foi a de pessoas com 16 anos ou mais residentes no Brasil e com acesso a telefone fixo.

Na análise dos dados, o contingente negro corresponde às pessoas que se autodeclararam pretas e pardas, seguindo procedimento consagrado na literatura sobre relações raciais no Brasil.

 

Para a maioria, negros são as principais vítimas de violência e mulheres são as mais vulneráveis

 

A maioria dos entrevistados (66,9%) afirmou serem os negros as principais vítimas de violência, enquanto 14,8% disseram serem os brancos, 3,1% os indígenas e 1,1% os asiáticos.

 


Esta opinião parece ser influenciada pela composição racial da população da região de residência dos entrevistados. O Nordeste, onde os negros predominam, teve o percentual mais alto dos que afirmaram que os negros são as principais vítimas da violência (75,5%). Analisando-se as respostas segundo a cor ou raça do respondente, 73,1% dos negros disseram que os próprios negros eram as principais vítimas, ao passo que 60,2% dos brancos deram essa resposta.

Do mesmo modo que a percepção dos negros como principais vítimas da violência é mais acentuada neste mesmo grupo racial, também as mulheres veem de forma mais aguda sua própria vulnerabilidade.

Perguntados sobre quem sofre mais com a violência, 67,1% dos entrevistados responderam que são pessoas do sexo feminino, sendo que se verifica uma diferença na opinião entre respondentes homens (63,5%) e mulheres (70,6%).

 

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O exame das respostas segundo a renda revela que 71,2% dos que se declararam ‘sem renda’ consideram o sexo feminino como mais vulnerável, contra 58,2% dos que têm renda superior a 10 salários mínimos.


No quesito idade, entrevistados reconhecem jovens como principais vítimas da violência

 

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Pouco mais de um terço dos entrevistados (35,8%) opinou que as principais vítimas da violência no Brasil são os jovens de 19 até 29 anos. Os adolescentes, na faixa dos 13 aos 18 anos, foram assim considerados por 26,8% dos respondentes, e as crianças de até 12 anos por 22,9%. Os idosos, com 60 anos ou mais, são as principais vítimas na opinião de 9,2% dos entrevistados, sendo que apenas 3,1% apontaram os adultos de 30 a 59 anos.

 

População atribui a violência contra os jovens a causas sociais

 

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Inquiridos sobre quais fatores acreditam ser responsáveis  pela violência contra a juventude, os entrevistados concentraram-se em dois grupos de respostas. O primeiro tem a ver com fatores que seriam ligados ao comportamento juvenil – drogas (30,3%) e brigas entre jovens (4,5%). O segundo grupo, mais vinculado a aspectos sociais, soma 63,0% das respostas, assim distribuídas: impunidade para quem comete crime (28,6%), educação ruim nas escolas (18,6%), policiais mal preparados (8,1%), desemprego (5,3%) e discriminação racial (2,4%).

 

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É relevante notar que, embora reconhecendo que os motivos da violência têm um caráter social mais amplo, quando perguntados especificamente sobre a principal causa de morte de jovens, a maioria atribuiu a situações associadas ao uso de drogas (56,2%). Em percentuais menores foram citados os acidentes de trânsito (22,4%) e os assassinatos (19,8%).

 

Parcela majoritária acha que jovens brancos e negros são mortos na mesma quantidade

A pesquisa apresentou três diferentes frases e quis saber qual delas, quando se pensa nas mortes causadas por violência, melhor expressava a opinião do entrevistado. A maioria (62,3%) indicou a frase “jovens brancos e negros são mortos na mesma quantidade”. Tal resposta foi escolhida por 63,0% dos brancos e por 61,0% dos negros. Em termos regionais, esta afirmação foi mais frequente nas regiões Sul e Sudeste (cerca de 65,0%) do que no Norte e Nordeste, respectivamente 55,7% e 60,3%.


Novamente aparece como de interesse o fato de que, em contraste com a opinião registrada nesta pesquisa, a taxa de vitimização tem sido sempre mais alta para os jovens negros. Entre 2000 e 2009, o número de homicídios neste grupo cresceu mais de 35%. Na direção contrária, os homicídios de jovens brancos diminuíram mais de 20%.

 

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Por sua vez, a afirmação “jovens negros são mortos em maior quantidade do que jovens brancos” foi escolhida por 31,4% de respondentes. Desagregando-se as respostas segundo a raça ou cor dos entrevistados, tem-se que os negros concordaram com a afirmação (34,1%) em proporção maior do que os brancos (29,3%). Também neste caso há diferenças regionais, sendo mais alta a concordância entre os residentes do Norte e do Nordeste: 36,8% e 36,2%, respectivamente. Apenas 5,3% defenderam a frase “jovens brancos são mortos em maior quantidade do que jovens negros”.

 

Para alguns, no entanto, cor ou raça têm influência no número de jovens mortos

 

Para as pessoas que acreditam haver diferença no número de mortes entre jovens brancos e negros, a pesquisa fez duas perguntas adicionais. Em primeiro lugar, foi questionado se a diferença no número de mortes entre os dois grupos raciais sofria influência da cor da pele (afirmação que obteve 71,4% de concordância – representando 26,3% do total da amostra). Em segundo lugar, questionou-se quão grande era essa influência (identificou-se que, das pessoas que atribuíram a diferença do número de mortes à cor da pele, 72,8% consideraram que o segundo fator influencia «muito» o primeiro).

 

A morte de jovens negros se dá principalmente por homicídio, de acordo com respondentes


Um conjunto de afirmações sobre violência e morte de jovens foi apresentado para que os entrevistados dissessem se concordavam ou não.

A noção de que “no Brasil, a violência mata mais pobres do que ricos” foi compartilhada por 90,4% dos participantes. Por outro lado, 80,9% das pessoas concordaram que “jovens brasileiros são vítimas de violência independentemente da sua cor ou raça”.

Quando a afirmação destaca a cor das vítimas e situações específicas de violência letal, o entrevistado se manifesta no sentido de que a cor influencia na situação de um indivíduo. Assim, diante da frase “homicídio é a principal causa de morte dos jovens negros”, 56,6% dos entrevistados manifestaram concordância, enquanto 55,8% concordaram que “a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte violenta de um jovem branco”.

Para 55,1% dos respondentes é correto afirmar que “a principal causa de homicídio de jovens negros é o racismo”. Além disso, 56,7% discordaram da afirmação de que “jovens brancos e negros, de famílias com renda parecida, têm as mesmas oportunidades”.

 

Metade considera que ser negro ou branco afeta a vida de uma pessoa

 

Do total de entrevistados, 51,8% afirmaram que, no Brasil, ser negro ou ser branco afeta a vida de uma pessoa. Também aqui a frequência desta resposta foi diferenciada para brancos (47,9%) e negros (54,8%).

 

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Para os que compartilham dessa opinião, 67,1% consideraram que ser branco ou negro «afeta muito» a vida de uma pessoa. Neste caso, também é importante destacar a variação da resposta segundo a cor ou raça declarada pelo respondente: indígenas (90,0%)1, negros (71,5%), brancos (62,3%) e amarelos (57,1%).

 

A pesquisa também procurou saber a experiência dos entrevistados com a discriminação por cor ou raça.

 

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Ainda que um pouco mais da metade dos entrevistados tenha considerado que ser branco ou negro afeta a vida de uma pessoa, o percentual dos que já se sentiram ofendidos ou discriminados em diferentes situações variou entre 10,9% e 16,9%.

A análise de cada grupo étnico-racial revela que, em todas as situações, os brancos responderam terem se sentido discriminados em percentuais mais baixos do que para o conjunto dos entrevistados. Entre os brancos, a frequência relativa mais alta (11,8%) foi registrada na discriminação ou ofensa «por programas de televisão ou outro meio de comunicação», seguida de «por pessoas conhecidas ou familiares» (10,2%), e «por chefe, colegas de trabalho ou cliente» (9,3%).

Os negros, por sua vez, tiveram percentuais superiores aos verificados para o conjunto de entrevistados, sendo mais elevados os registros de discriminação ou ofensa «por colegas, professores ou funcionários da escola» (22,2%); «por chefe, colegas de trabalho ou cliente» (22,2%); e «por programas de televisão ou outro meio de comunicação» (21,5%).

Analisadas as respostas por região, nota-se diferença nas situações reportadas com maior frequência pelos entrevistados. As ofensas ou discriminações no ambiente escolar predominaram entre os respondentes do Nordeste (16,6%); as praticadas por profissionais de saúde apareceram mais entre os entrevistados da região Norte (13,2%). O Sudeste teve os registros mais altos nas discriminações ligadas aos meios de comunicação (18,2%); dos residentes no Sul, 15,7% apontaram os policiais como principais agentes da discriminação sofrida. Já o Centro-Oeste teve registros mais destacados (17,8%) nas discriminações ou ofensas por conhecidos ou familiares.

 

Racismo se combate com educação

 

Na opinião de 36,4% dos entrevistados, a principal ação para combater o racismo deve ser a melhoria do ensino nas escolas. A mudança das leis foi assinalada por 22,7%, enquanto 20,8% consideraram, como principal ação, a garantia do cumprimento das leis. Acrescente-se que 15,7% apontaram as campanhas de conscientização e 2,4% consideraram as ações afirmativas como a principal medida que o governo deve tomar para combater o racismo.

 

1 Convém observar que não se pode generalizar, para a população de estudo, as respostas manifestadas por indígenas, pois a quantidade de respondentes indígenas não é estatisticamente significativa. Voltar

 

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