Covas reforça ataque no caso Ford e ACM revida

Governador considera ajuda só para a Bahia ‘predatória’ e sugere que colega baiano fala o que presidente do Senado quer; senador reage e acusa tucano de tentar mandar em Fernando Henrique
MILTON F. DA ROCHA FILHO e GERSON CAMAROTTI
Ogovernador Mário Covas (PSDB) respondeu ontem com ironia às críticas de seu colega da Bahia, César Borges (PFL), que o acusou de ser “preconceituoso”, por discordar da concessão de incentivos fiscais para instalação da fábrica da Ford na Bahia, e de não estar à altura do governo de São Paulo, muito menos da Presidência, que estaria postulando. “Na verdade, não sei se ele fala o que pensa ou se transmite o pensamento de seu chefe”, provocou, referindo-se ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). “Mas é bom verificar que o governador tem alguma coisa a dizer sobre a minha pessoa, porque dele, não há o que falar”, acrescentou em Cândido Mota (SP), onde inaugurou as usinas hidrelétricas de Canoas 1 e 2. Covas declarou que é “leal” ao presidente Fernando Henrique Cardoso, mas nunca deixará de manifestar-lhe suas discordâncias com atitudes do governo federal. “Não sou vaquinha-de-presépio”, afirmou. “Já disse e volto a dizer ao presidente que sou contra a concessão de benefícios fiscais para a instalação da Ford na Bahia”, contou. Ele acrescentou que seria mais fácil e mais barato o próprio governo construir uma fábrica desse porte do que dar tantos benefícios para a montadora. Na sua opinião, a Ford é a segunda montadora mais rica do mundo e não precisa de incentivos para se instalar onde quiser no País. “Acho errado esse tipo de ajuda somente para um Estado e criando uma concorrência predatória, já que os carros que a Ford produzirá na Bahia deverão ser mais baratos”, argumentou. No discurso, durante a inauguração das usinas, Covas também usou de ironia ao saudar o ministro de Minas e Energia, Rodolfo Tourinho, que estava representado na cerimônia pelo secretário nacional de Energia, Benedito Carraro. Depois de lembrar que Tourinho é baiano e de classificá-lo como “um dos mais competentes ministros do governo”, o governador acrescentou: “Depois ainda dizem que não gosto de baianos.” Quem manda – Em Salvador, ACM decidiu responder às críticas de Covas com um ataque. “Estou em Salvador, aguardando uma justa decisão do presidente da República; enquanto isso, o meu amigo Mário Covas está demitindo ministro, pedindo vetos e fechando as fronteiras de São Paulo com Paraná e Santa Catarina”, disse ao Estado. ACM foi além. “Agora todos sabem que não sou eu quem manda no presidente; quem impõe regras e soluções é o governador Covas e não eu”, atacou. “Nada melhor do que um exílio para saber como as coisas são feitas realmente e como os fatos estão acontecendo.” Eleições – Muito mais do que uma disputa momentânea, a briga entre os principais líderes do PFL e do PSDB põe em cheque uma futura aliança para as eleições de 2002. Quem apostava num longo e duradouro namoro entre ACM e Covas pode começar a repensar a estratégia. A senha de que a relação dos dois começa a azedar é dada pelo próprio ACM, incomodado com os ataques à instalação da Ford na Bahia. Há pouco mais de um mês, quando ACM e Covas tiveram demorado encontro em São Paulo, parecia que a aliança para a sucessão de Fernando Henrique estava selada. É verdade que eles nunca se aproximaram muito. Pelo contrário, as divergência sempre predominaram. Mas agora, com a ameça das candidaturas de Ciro Gomes (PPS) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a continuação da aliança parecia ser a única saída para PSDB e PFL. As discussões caminhavam para um acordo de sobrevivência entre tucanos e pefelistas. A idéia era tentar uma aproximação já para as eleições municipais do ano que vem. Mas o episódio Ford exibiu todas as diferenças entre os líderes e prováveis candidatos em 2002. As seqüelas da crise ainda não podem ser avaliadas, mas já é certo que mais uma vez a desarmonia na base acabará sobrando para o presidente. Agora, mais do que nunca, Fernando Henrique terá de demonstrar sua habilidade para evitar o confronto de seus principais aliados, pois o que está em jogo é a estabilidade de seu governo.