Ano VI - Número 73 - dezembro - 2006

Foto de mulher no espelho

Depois da morte da modelo Ana Carolina Reston, vítima da anorexia, a ocorrência desse distúrbio tornou-se alvo de reflexões e discussões por toda parte. Neste mês de dezembro, o espaço Mania de Escrever conta com a participação do Dr. José Mário Simil Cordeiro, psiquiatra e psicanalista da Secretaria de Assistência Média e Social (SAMS). Ele faz uma analogia entre a história infantil da Branca de Neve e a obsessão feminina por um corpo cada vez mais próximo à "perfeição".


A maldição da Branca de Neve

No mês passado, a morte da jovem modelo Ana Carolina Reston, de 21 anos, consternou o Brasil, acendendo um sinal de alerta e propiciando a opinião da imprensa em geral e de especialistas.

De minha parte, lembrou-me o conto infantil em que uma rainha, embevecida pela própria beleza, rogava a seu fiel espelho se existia no mundo alguém mais belo do que ela: “espelho, espelho meu”, lembram? Um espelho nos é fiel quando constrói nossa imagem corporal, devolvendo os contornos que ali fixamos – chamado narcisismo – ilusão indispensável com a qual alimentamos nosso pequeno ou grande ego.

Para a rainha e para nossa triste jovem diagnosticada pelos especialistas como anorética, os dissabores começaram quando o espelho, num inexplicável golpe de traição, revela que “alguém mais belo” entrou no circuito, no caso da rainha, a existência de Branca de Neve e para a jovem anorética, a constituição de uma beleza absoluta, “branca como a neve”, sem falhas nem frestas, um ideal ao mesmo tempo pleno e terrível a ser agora alcançado.

No conto infantil, a rainha, mesmo necessitando reafirmar-se disso todos os dias, vivia bem com sua beleza, até que foi informada de que algo mais perfeito necessitava ser buscado. Seu inferno pessoal instalou-se enquanto não adormeceu, disfarçada da mais horrenda das bruxas, a figura angelical que ousou quebrar a harmonia de seu cotidiano, usurpando-lhe o cetro da mais bela. Com as nossas jovens modelos e, porque não, com a mulher contemporânea, a maldição se dá quando, destituída pelo espelho da completude e perfeição esperados, é obrigada a refazer-se diariamente, na busca obstinada da Beleza.

Foto de adolescente no espelho

Muitas vezes, na vida, as situações extremas, consideradas doentias ou patológicas, são uma fonte de ensinamento para nossa noção cotidiana de normalidade. A escuta clínica nos mostra o drama vivido pelas jovens acometidas da anorexia nervosa quando, sempre no perigoso limiar de uma magreza extrema, obtêm do infame espelho uma imagem distorcida de si mesmas, falsa imagem que cobra delas um sacrifício a mais no altar da perfeição. Daí as agruras com o corpo, alucinatoriamente sempre imperfeito, as dietas penosas, a auto-medicação e a recusa, primeiramente seletiva, depois absoluta de qualquer alimento. O desenlace desses rituais é quase sempre trágico: essas jovens literalmente pagam com seu corpo uma dívida que não sabem de onde adquiriram. Parece, entretanto, que o extremo da patologia também sinaliza algo dos tempos atuais. Não é à-toa que a anorexia se dá no campo do feminino, onde a mulher é fustigada por esse espelho ávido e infiel que é o outro social, representado em nossos dias pelo culto quase obsceno do corpo perfeito.

Neste sentido, o significado de um gesto como esse, em que uma bela jovem morre de fome, ultrapassa os limites de uma explicação meramente médica, constituindo-se numa metáfora dos tempos atuais, em que o ideal de beleza, tal qual o conto de fadas, torna-se uma maldição. Chego a pensar que a mulher hoje, pelo nível de exigência que lhe é imposto pelo ideal insano de beleza, corre o risco de tornar-se um objeto descartável e virtual, tirando-se dela as virtudes do singelo e da simplicidade, aparatos suficientes para compor seu valor em outros tempos.


Fonte
:
Dr. José Mário Simil Codeiro
Médico-psiquiatra e psicanalista
Secretaria de Assistência Médica e Social (SAMS) do Senado Federal.

ATENÇÃO: A responsabilidade deste artigo é exclusiva de seu respectivo autor (fonte).



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