
Depois da morte da modelo Ana
Carolina Reston, vítima da anorexia, a ocorrência desse distúrbio tornou-se alvo de reflexões
e discussões por toda parte. Neste mês de dezembro, o espaço Mania de Escrever conta com a participação do Dr. José Mário Simil Cordeiro, psiquiatra
e psicanalista da Secretaria de Assistência Média e Social (SAMS). Ele faz
uma analogia entre a história infantil da Branca de Neve e a obsessão
feminina por um corpo cada vez mais próximo à "perfeição".
A maldição da Branca de Neve
No mês passado, a morte da jovem modelo Ana Carolina
Reston, de 21 anos, consternou o Brasil, acendendo um sinal de alerta
e propiciando a opinião da imprensa em geral e de especialistas.
De minha parte, lembrou-me o conto infantil em que uma rainha, embevecida
pela própria beleza, rogava a seu fiel espelho se existia no mundo
alguém mais belo do que ela: “espelho, espelho meu”,
lembram? Um espelho nos é fiel quando constrói nossa imagem
corporal, devolvendo os contornos que ali fixamos – chamado narcisismo
– ilusão indispensável com a qual alimentamos nosso
pequeno ou grande ego.
Para a rainha e para nossa triste jovem diagnosticada pelos especialistas
como anorética, os dissabores começaram quando o espelho,
num inexplicável golpe de traição, revela que “alguém
mais belo” entrou no circuito, no caso da rainha, a existência
de Branca de Neve e para a jovem anorética, a constituição
de uma beleza absoluta, “branca como a neve”, sem falhas nem
frestas, um ideal ao mesmo tempo pleno e terrível a ser agora alcançado.
No conto infantil, a rainha, mesmo necessitando reafirmar-se disso todos
os dias, vivia bem com sua beleza, até que foi informada de que
algo mais perfeito necessitava ser buscado. Seu inferno pessoal instalou-se
enquanto não adormeceu, disfarçada da mais horrenda das
bruxas, a figura angelical que ousou quebrar a harmonia de seu cotidiano,
usurpando-lhe o cetro da mais bela. Com as nossas jovens modelos e, porque
não, com a mulher contemporânea, a maldição
se dá quando, destituída pelo espelho da completude e perfeição
esperados, é obrigada a refazer-se diariamente, na busca obstinada
da Beleza.

Muitas vezes, na vida, as situações extremas,
consideradas doentias ou patológicas, são uma fonte de ensinamento
para nossa noção cotidiana de normalidade. A escuta clínica
nos mostra o drama vivido pelas jovens acometidas da anorexia nervosa
quando, sempre no perigoso limiar de uma magreza extrema, obtêm
do infame espelho uma imagem distorcida de si mesmas, falsa imagem que
cobra delas um sacrifício a mais no altar da perfeição.
Daí as agruras com o corpo, alucinatoriamente sempre imperfeito,
as dietas penosas, a auto-medicação e a recusa, primeiramente
seletiva, depois absoluta de qualquer alimento. O desenlace desses rituais
é quase sempre trágico: essas jovens literalmente pagam
com seu corpo uma dívida que não sabem de onde adquiriram.
Parece, entretanto, que o extremo da patologia também sinaliza
algo dos tempos atuais. Não é à-toa que a anorexia
se dá no campo do feminino, onde a mulher é fustigada por
esse espelho ávido e infiel que é o outro social, representado
em nossos dias pelo culto quase obsceno do corpo perfeito.
Neste sentido, o significado de um gesto como esse, em que uma bela jovem
morre de fome, ultrapassa os limites de uma explicação meramente
médica, constituindo-se numa metáfora dos tempos atuais,
em que o ideal de beleza, tal qual o conto de fadas, torna-se uma maldição.
Chego a pensar que a mulher hoje, pelo nível de exigência
que lhe é imposto pelo ideal insano de beleza, corre o risco de
tornar-se um objeto descartável e virtual, tirando-se dela as virtudes
do singelo e da simplicidade, aparatos suficientes para compor seu valor
em outros tempos.
Fonte:
Dr. José Mário Simil Codeiro
Médico-psiquiatra e psicanalista
Secretaria de Assistência Médica e Social (SAMS) do Senado
Federal.
ATENÇÃO: A responsabilidade deste artigo é exclusiva de seu respectivo autor (fonte).
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