Bolsonaro pode perder o mandato

Deputado diz que o Brasil estaria melhor se 30 mil tivessem sido "fuzilados" no regime militar, inclusive o Presidente
Depois de sugerir o fechamento do Congresso Nacional, em 1993, e chamar o ex-ministro da Administração Bresser Pereira de ladrão de servidores públicos, em 1995, o deputado federal Jair Bolsonaro (PPB-RJ) voltou a jogar pesado neste final de semana. Em entrevista ao programa "TV Aberta", da Rede Bandeirantes, na madrugada de ontem, o parlamentar entrou de sola e disse que "a ditadura militar foi branda demais porque "matou pouca gente", e que o Brasil estaria melhor se fossem fuzilados "30 mil corruptos, a começar pelo presidente da República". A partir de hoje, a Corregedoria da Câmara vai analisar o assunto e poderá decidir pela suspensão temporária da atividade parlamentar de Bolsonaro por 30 dias ou até a cassação do mandato. Pelo episódio envolvendo Bresser Pereira, o deputado do Rio recebeu uma censura escrita -- artigo 245 do Regimento Interno da Câmara. A pena não passa de um alerta, equivale ao cartão amarelo aplicado no futebol. Pelo pedido de fechamento do Congresso, a Mesa da Câmara solicitou nova punição, alegando reincidência. Mas Bolsonaro acabou absolvido por 29 votos a 3 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Agora, porém, o deputado pode ter ido longe demais. De acordo com o corregedor-geral da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PPB-PE), "dependendo do linguajar do deputado", a secretaria pode entrar com uma representação alegando quebra do decoro parlamentar -- o que pode significar a perda do mandato. Desde 1995, o capitão da Reserva do Exército estava, digamos, apagado no cenário político nacional. No final de semana, diante de uma câmera da TV, o deputado não hesitou. Disse que a ditadura "matou menos gente do que o último Carnaval em São Paulo". Nem o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, e o falecido ministro das Comunicações, Sérgio Motta, escaparam das farpas do capitão. "José Gregori tem mais estrume na cabeça do que o Sérgio Motta (morto em 1998) tinha na barriga", disse. A ira de Bolsonaro contra Gregori reside no fato de o secretário defender o pagamento de indenizações aos familiares dos presos mortos no massacre de Carandiru, em São Paulo. Durante a entrevista, gravada sexta-feira da semana passada, Bolsonaro disse que o maior problema brasileiro é a corrupção. Neste quesito, afirmou ontem o deputado, que estava no Rio, "o governo de Fernando Henrique deixa o Collor (ex-presidente da República Fernando Collor de Mello) no bolso". O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, reagiu indignado às declarações de Bolsonaro. "Não vi e não tenho por quê tomar conhecimento das loucuras de alguém que, evidentemente, perdeu o senso e o juízo", afirmou o senador, acrescentando, em tom ameaçador: "Se ele pensa isso, deveriam cassar o mandato dele". A Corregedoria da Câmara começa hoje a avaliar a situação do parlamentar do PPB do Rio. O corregedor da Casa, deputado pernambucano Severino Cavalcanti, do mesmo partido de Bolsonaro, tem sido rigoroso com os colegas que não costumam seguir as regras do jogo. Nos últimos dois anos, Cavalcanti encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça nada menos do que dez pedidos de cassação de mandatos parlamentares, todos aprovados por unanimidade pelos integrantes da Mesa. A CCJ acatou as cassações de Sérgio Naya (sem partido-MG) e Talvane Albuquerque (PTN-AL). É provável que a Mesa da Câmara solicite a suspensão temporária do mandato de Bolsonaro por 30 dias. Como é reincidente, existe, ainda que remota, a hipótese de o pepebista carioca ser incluído no segundo parágrafo do artigo 244 do Regimento Interno da Câmara, que prevê cassação do direito de legislar quando a atuação é "incompatível com o decoro parlamentar." Bolsonaro não teme ser cassado, mas revelou apreensão ao saber das declarações dadas por Antonio Carlos Magalhães. "Se ele (ACM) sugeriu a cassação, então vão cassar o meu mandato", previu, admitindo a possibilidade de, pela primeira vez, levar o cartão vermelho. Juan Domingues Repórter do Jornal de Brasília Com agências
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que afirmações como a do deputado Jair Bolsonaro (PPB-RJ), favorável ao fechamento do Congresso e ao fuzilamento de 30 mil pessoas - a começar pelo presidente da República - para acabar com a corrupção no País "demonstram que ele (Bolsonaro) não se converteu à democracia". O relato foi feito no fim da tarde de ontem pelo porta-voz da Presidência da República, Georges Lamaziére. Segundo ele, o Presidente manifestou a certeza de que o Congresso tomará as medidas cabíveis ao caso.