Cuba espera Fernando Henrique

A viagem de Fernando Henrique Cardoso a Cuba será diferente das inúmeras passagens do presidente brasileiro pelo exterior. Não apenas por ser a primeira visita de um presidente brasileiro à ilha, mas por sua agenda, que incluirá uma visita ao Centro Histórico de Havana, no domingo e a inauguração da Escola Latino-Americana de Medicina, na segunda-feira. Fernando Henrique vai a Cuba para participar da Conferência Ibero-Americana em Havana nos dias 15 e 16 de novembro. O centro histórico, retrato da Velha Havana (Havana Vieja), “é o mais bem preservado conjunto arquitetônico de Cuba”, afirmou um diplomata brasileiro. E explicou que Fernando Henrique será acompanhado pelo maior historiador cubano, Eusébio Leal, que segundo o diplomata “tem grande admiração pelo presidente brasileiro”. A admiração por Fernando Henrique se estende também ao presidente Fidel Castro, que o recebe para um jantar no Palácio da Revolução no sábado, mesmo dia em que o presidente brasileiro pisa em território cubano. Ambos terão uma reunião para discutir assuntos bilaterais. O presidente brasileiro chega a Cuba depois de uma passagem pela República Dominicana, onde participará da IV Reunião do Círculo de Montevidéu, um foro de reflexão sobre a democracia e o futuro da América Latina. A Conferência Ibero-Americana foi o pretexto encontrado pelo Itamaraty para organizar uma visita presidencial a Cuba, sem o ônus que representaria um encontro bilateral. Há muitos setores no Brasil contrários a qualquer gesto de aproximação com Fidel Castro, um presidente autoritário e controverso. Os dois países restabeleceram relações diplomáticas no governo de José Sarney (1985-1990), depois de duas décadas de interrupção e iniciaram cooperações nas áreas de saúde e educação. O encontro entre o sociólogo de esquerda e o comandante de um regime marxista em solo cubano, acontece, ironicamente, mais de uma década depois do encontro entre Fidel e um dos representantes da direita brasileira Antonio Carlos Magalhães. O atual presidente do Senado esteve em Cuba quando era ministro das Comunicações do governo Sarney para inaugurar a primeira ligação telefônica entre os dois países. Desde então, Antonio Carlos virou grande amigo do líder cubano, a quem recepcionou em grande estilo em 1993 em Salvador, justamente por ocasião de outra Conferência Ibero-Americana. O Centro Histórico de Havana foi restaurado com a ajuda do governo espanhol e será tema da conversa entre Fernando Henrique, o primeiro-ministro espanhol, Jose María Aznar e o rei da Espanha, Juan Carlos. Encontros com o presidente português, Jorge Sampaio, com o primeiro-ministro, Antonio Guterres e com o presidente do México, Ernesto Zedillo também estão agendados. Brasil, Espanha e México foram os países que conceberam a conferência e por isso seus governantes vão se encontrar bilateralmente, segundo o funcionário do Itamaraty. A primeira reunião ocorreu em 1991 no México, que participava do processo de aproximação com os Estados Unidos por meio do Nafta e queria uma maior integração entre os países ibero-americanos. A segunda ocorreu na Espanha e a terceira em Salvador no Brasil. Fernando Henrique também aproveitará para discutir com os chefes de Estado e de Governo a criação de uma secretaria de cooperação ibero-americana, idéia proposta pela Espanha. A assunto será conversado com Zedillo já que para o cargo de primeiro secretário, o Brasil apóia o nome do atual diretor do Instituto Mexicano de Cooperação Internacional, Jorge Lozoya.
Martha Beck
Repórter do Jornal de Brasília