Panorama Politíco

Já que começaram... Retirado o manto da oratória, os discursos feitos na convenção do PFL, que incluem o do ministro tucano Pimenta da Veiga, ganham uma transparência cristalina. Depois de torcidos e filtrados, apura-se o seguinte: o PFL já escolheu seu rumo, não sabe até quando apoiará o Governo e o fará a seu modo, sem submissão. A sucessão mais prematura da nova fase democrática está nas ruas. E isso, FH deve levar em conta agora. O mais claro dos diálogos, entretanto, teve como protagonistas o governador do Amazonas, Amazonino Mendes, e o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga. - Não é o PFL que precisa do Governo, é o Governo que precisa do PFL - disse o governador com uma franqueza cabocla. Pimenta responderia, depois de exaltar os grandes serviços prestados pelo PFL às reformas, à governabilidade e ao Governo de FH: - Quero contestar esta tese. Quem continua precisando do PFL não é o Governo. É o Brasil, e o PFL não lhe faltará. Em miúdos: nós pefelistas ficamos com vocês, enquanto isso for conveniente. Ao que o outro responde: vocês se enganam. Se nos deixam no meio da estrada, comprometendo o Governo que ajudaram a eleger, pagarão também. Teve de tudo, inclusive a aula de política do líder Inocêncio Oliveira, agora cada vez mais acadêmico, ao pregar a candidatura própria em 2002. Comparou o PFL ao Partido Popular espanhol de José Maria Aznar, que passou oito anos no ostracismo até constatar, com segurança, que chegara a sua vez de disputar e ganhar sozinho. De fato, apesar da onda rosa na Europa, Aznar está muito bem e deve eleger a maioria de deputados espanhóis para o Parlamento Europeu em junho próximo. Entre tantos recados que deu, o candidato ovacionado, senador Antônio Carlos Magalhães, mandou um aviso até para o público interno: ele pode até vir a ser candidato a presidente, mas não se chama Aureliano Chaves. Não o será apenas ‘‘porque isso é bom para o partido’’, como se costuma dizer. ‘‘A vaidade não me cegará’’, avisou. Se achar que não deve concorrer, e alguém quiser fazer isso para marcar posição, que lance Jorge Bornhausen ou Marco Maciel. Afora os recados, a convenção sóbria do PFL abriu os ensaios da sucessão. O PMDB está no mesmo rumo. Seu programa eleitoral, que foi ao ar na quinta-feira, explorou o recurso interativo com os eleitores e concluiu que o partido ainda pulsa bem na sociedade. Jáder Barbalho é agora, sem dúvida, uma estrela ascendente. Mas, por vias das dúvidas, trata também o partido de ficar mais amigo do governador Itamar Franco. O PSDB de FH contempla. Além de Pimenta da Veiga, esteve na convenção pefelista o ministro José Serra, o único tucano por ora incluído em pesquisas eleitorais. Ambivalentes como são, devem os tucanos estar como nunca com os sentimentos ambivalentes. É claro que falar de sucessão nesta hora é péssimo para o Governo de FH, do qual são indissociáveis. Mas para eles, é muito bom saber o que alguns ainda chamam de direita avisar que tomará rumo próprio. A esquerda também gosta disso. Já sabe o que significa disputar tendo o centro aliado à direita.