A águia, as moscas e os tucanos

GILBERTO DE MELLO KUJAWSKI
Wanderley Guilherme dos Santos, autor de 13 livros sobre o fenômeno político brasileiro, paira acima da média dos nossos cientistas políticos. Talvez, mais do que simples cientista, ele seja um sociólogo e um historiador político, formulando análises agudas, por vezes surpreendentes pelo acerto. Recentemente, concedeu à Folha de S. Paulo uma entrevista das mais interessantes, respondendo a questões muito bem colocadas por Fernando de Barros e Silva. A edição da entrevista apresenta até mesmo sutilezas fotográficas. Na foto maior, Wanderley Guilherme aparece recostado numa cadeira de vime, em pose de "grand seigneur" da intelectualidade tupiniquim. Na foto menor, o detalhe da mão segurando um charuto sugere que podemos estar à frente de um homem de poder oculto na pele do intelectual. Wanderley Guilherme é um águia. Aquila non capit muscas, a águia não caça moscas, conforme o provérbio latino. O que não impede que engula moscas algumas vezes. Indagado sobre a atuação do MST, o entrevistado responde que se trata de um movimento extremamente importante porque "reintroduz uma taxa de incerteza na política, que é necessária para que ela seja tolerante". Tolerante? Este governo já está até com fama de toleirão no seu relacionamento com os sem-terra. Política? A política é o jogo dentro das regras do Estado de Direito. O MST desistiu de fazer política. Ele quebra todas as regras do jogo e agride não o governo, mas o próprio Estado democrático. O MST representa a antipolítica. Outro ponto discutível é a denúncia levantada pelo intelectual carioca relativa ao fracasso histórico da geração de pensadores à qual pertence Fernando Henrique: "Esta geração está obsoleta, ela não se modernizou, não se atualizou, independentemente do fato de FHC estar no governo." E mais: "Estão desatualizados nas ciências sociais e inteiramente superados." A acusação é pesada. A quem pretende atingir? Bolívar Lamounier, talvez? Ou Hélio Jaguaribe? Ou Boris Fausto? Celso Lafer? J. A. Giannotti? A crítica não se aplica a nenhum desses personagens, todos eles perfeitamente em forma e atualizados. Vamo-nos deter nos pontos mais relevantes em que o entrevistado parece acertar em cheio. Segundo ele, "há um Muro de Berlim inconsútil no Brasil", separando o capitalismo do conjunto da população. "O meu temor é o seguinte: nos países civilizados, num determinado momento da acumulação capitalista, foi preciso alargar o mercado para continuar a haver essa acumulação. Isso significa salários mais altos, distribuição de renda, prestação de serviços, etc. Pois bem, por alguns cálculos que é possível fazer, e eu mesmo já fiz, meio na brincadeira, hoje a população bem posta da sociedade brasileira é uma minoria desprezível em relação à população do País, mas, do ponto de vista absoluto, ela é do tamanho do mercado interno inglês. O que isso significa? Significa que, teoricamente, esse país pode ter um imenso dinamismo econômico com base estritamente na sua minoria relativa, que é o que esse governo está fazendo. Essa minoria é um baita mercado. Meu temor é que o País ingresse por esse caminho, do qual é muito difícil sair depois. O povo brasileiro é absolutamente dispensável para o capitalismo brasileiro." Dispensável, não indispensável. Força é reconhecer que o perigo está no horizonte. A iminência de um terrível apartheid social, trágico para uma sociedade e um Estado que lutam por reduzir as desigualdades. Se prevalece a lei da inércia do mercado, isso pode acontecer. A menos que se consiga alargar a base da participação democrática. Ocorre que Wanderley Guilherme não tem fé na vocação democrática do atual governo, como se verá a seguir. O repórter levanta a bola. Referindo-se a certo livro de Wanderley, no qual o autor criticava o pendor tucano pelas reformas institucionais, como se "fosse possível resolver os problemas do País a partir de uma engenharia político-institucional com baixa temperatura democrática, sem muita participação social", indaga: "Os tucanos continuam esfriando a política?" O entrevistado chuta a bola: "É a versão contemporânea do udenismo. A UDN acreditava nessa reificação institucional. Sempre ignorou a dinâmica real da sociedade. Isso está hoje no tucanismo, mas também no PFL e em parte do PT." Volta e meia, compara-se, pejorativamente, o PSDB com a velha UDN. A UDN caracterizava-se pelo seu antigetulismo e seu antiestatismo viscerais. Combatia a corrupção com veemência e defendia com ênfase o que hoje se chama a "ética na política". Reunia alguns dos melhores homens do País. Líderes carismáticos como Carlos Lacerda, Aliomar Baleeiro, Otávio Mangabeira; cabeças notáveis como Milton Campos, Afonso Arinos, Prado Kelly; personalidades combativas como Bilac Pinto, Juraci Magalhães, Herbert Levy; juristas como Pedro Aleixo e tantos outros notáveis varões da República. Ora, se acumulavam tantas virtudes morais e intelectuais, como podem ser tão criticados? O ponto é delicado, mas em resumo é o seguinte: os udenistas eram, em geral, liberais puros e sinceros, mas pouco democratas. Lutavam, bravamente, pelas liberdades e pelos direitos individuais, opunham-se com denodo contra a intervenção abusiva do poder público na vida privada, eram honrados e brilhantes, mas um tanto falhos de sensibilidade social. Até que ponto se passa o mesmo com o PSDB? A conduta algo distante e auto-suficiente de muitos de seus membros (o famoso "salto alto") pode sugerir algum paralelo com os udenistas, mas esse paralelo não é rigoroso, por dois motivos. O primeiro é o esforço concentrado do governo FHC pela educação das camadas mais pobres da população. Democracia significa criação de oportunidades iguais para todos, e só a educação cria oportunidades iguais. O outro ponto é o caráter do liberalismo atual, que mudou muito da UDN para cá. O partido de Carlos Lacerda defendia o liberalismo clássico, ferreamente individualista. Hoje em dia se sabe que o indivíduo merece ser defendido rigorosamente em seus direitos, mas sem prepotência. Porque o indivíduo é social da cabeça aos pés, na sua língua, nos seus usos, nos seus conceitos e pretensões. Hoje, até o PFL sabe que o liberalismo tem de ser social, alargar sua base, tendência que transparece naquela tentativa canhestra do "imposto para a pobreza", inventado por ACM. No mais, Wanderley Guilherme dos Santos roça o bom senso. Ciro Gomes? Não passa de um "factóide", Anthony Garotinho tem mais chances. "Ele tem estrutura, tem trajetória, é um nome forte." Marta Suplicy? Ela é outra coisa. "Acredito que ela incendeie este país. O povão gosta de rico, não tem muito jeito, não (risos)." Sem querer, essa observação fornece o mote para a campanha contrária à candidata do PT.