Rubem Azevedo Lima

Nova história brasileira
Sem mencionar uma vez sequer o nome de Fernando Henrique Cardoso, o senador Josaphat Marinho, em seus 83 anos de lucidez e coerência política, vividos exemplarmente, despediu-se do Senado com a disposição de continuar na militância da democracia e da justiça social. ‘‘No chão áspero das ruas’’, afirmou ele, ‘‘também há espaço para o combate gerador de esperança.’’ No Brasil, as autoridades procuram, quase sempre, bodes expiatórios para explicar seus fracassos. Fez-se isso recentemente com o governador Itamar Franco, tido como destruidor do Plano Real que ele próprio criou. No México, na Rússia e nos tigres asiáticos não havia nenhum Itamar. As respectivas economias foram, porém, destroçadas. Uma pista: esses países abdicaram da soberania nacional e se dobraram ao neocolonialismo que lhes foi imposto pelo FMI. Mas, em suas despedidas, Josaphat limitou-se a falar dos pecados de nossa política econômica sem falar dos pecadores. E, referindo-se às mudanças polêmicas dos novos tempos, considerou inadmissível que, ‘‘em nome do desenvolvimento, se institua um novo tipo de colonialismo’’. Condenou, depois, o endeusamento do mercado, em detrimento do Estado. Aquele — disse — luta preferentemente pelo lucro. Mas só este último, como instrumento de equilíbrio, pode garantir a paz social, ‘‘relativa, é certo, mas fundada em restrições aos excessos do poder econômico privado’’. Quanto ao Brasil, sublinhou: ‘‘Provado está, pela estagnação da economia, pelo aumento do desemprego, pela permanência das desigualdades regionais, pelo desequilíbrio entre exportações e importações, pela gravidade, enfim, da crise a que chegamos, que as práticas neoliberais não promoverão a prosperidade nacional’’. A seu ver, o fortalecimento dos três poderes passa pelo regime de uma Constituição estável, interpretada e aplicada com espírito construtivo e perspectiva histórica. Enquanto Josaphat falava, frente ao bronze de Rui Barbosa, no plenário do Senado, a Câmara rasgava um dispositivo constitucional para instituir os descontos prometidos ao FMI nos pagamentos de aposentadorias e pensões. Os salários dos marajás aposentados ficaram sujeitos aos mesmos descontos, mas não foram reduzidos. Ao terminar, Josaphat Marinho recebeu aplausos de todos. O senador Bernardo Cabral levantou-se para aparteá-lo. Arthur da Távola disse que o orador encarnava os valores de sua formação: a cultura jurídica, a independência absoluta, a ética e a consciência social. Sobre os elogios unânimes à ação parlamentar de Josaphat, Roberto Requião e Marina Silva lamentaram que, ao longo da legislatura, raros senadores apoiassem, pelo voto, suas posições independentes e corretas. O presidente Antonio Carlos Magalhães, em reconhecimento aos seus méritos, pediu-lhe que dirigisse o restante da sessão do Senado. Josaphat dignificou a representação do eleitorado baiano, engrandeceu o Senado e honrou o Brasil. Tem lugar certo na galeria dos grandes senadores do país. Seu último discurso foi uma lição de nossa triste história atual. Mas ele tem uma certeza: o povo brasileiro saberá mudá-la.