Coisas da Política

A proposta é parlamentar
São dois deputados de trajetórias diferentes. Mas, diante de uma crise econômica que já começa a ter efeitos políticos, o petista de São Paulo José Genoíno e o pefelista baiano José Carlos Aleluia convergem numa mesma proposta: para ambos, o Parlamento deve assumir o comando da cena e a iniciativa de abrir diálogo entre todas as forças - não apenas as partidárias - a fim de buscar saídas e evitar que, atingidas as condições de governabilidade, o Congresso entre no desgaste de roldão. "É preciso parar de querer massacrar a oposição", defende Aleluia, numa posição nova - mas não solitária - para um deputado representante de uma das alas mais fiéis ao governo. É aliado de Antônio Carlos Magalhães e foi o relator da proposta de emenda constitucional que quebrou o monopólio das telecomunicações. Ele está convicto de que deve partir da Câmara, e não necessariamente do Executivo, um gesto de paz em direção à oposição. Aleluia considera, por exemplo, que este trabalho já deveria ter sido iniciado na votação do projeto da contribuição previdenciária para o funcionalismo. "Tínhamos maioria. Não havia a menor necessidade de impor uma derrota acachapante à oposição, que poderia perfeitamente ter aprovado uns dois ou três destaques", argumenta. "Se o discurso do Aleluia se traduzir concretamente em modificações de posturas, acho mesmo que devemos conversar", reage Genoíno, que já teve mais respeito político pelo governo de Fernando Henrique Cardoso e, por isso, enfrentou problemas dentro do PT. Ele foi perdendo a paciência a partir do processo de aprovação da emenda da reeleição, e hoje acha que os rumos e os métodos são totalmente equivocados. Por esse motivo, é contra qualquer proposta de pacto com Fernando Henrique. Mas não acha que o incêndio seja o melhor remédio. "Não quero pacto, mas também não quero botar fogo em nada." É a razão pela qual vê futuro na proposta de Aleluia, embora ressalte que ela reflete o enfraquecimento do governo, a quem responsabiliza pela falta de diálogo. "Foram eles que optaram pela tática do massacre", lembra. Ele não é favorável a que se esqueça o passado, mas concorda em ajudar a construir pontes para o futuro, "apesar de Fernando Henrique sempre ter feito questão de explodir todas as pontes atrás de si". Genoíno concorda que está mais do que na hora de o Congresso como instituição deixar de atuar única e exclusivamente como linha auxiliar do Executivo, sob pena "de se comprometer com o desastre". Lembra que no governo Fernando Collor foi assim que agiu o Parlamento e acabou saindo ileso de todo o processo. Evidente que o deputado não iguala presidentes e governos. Mas raciocina sobre uma situação de crise em que o Poder Legislativo deve se preparar para oferecer alternativas "dentro dos marcos da democracia". E o que vem a ser isso? "Se fosse no parlamentarismo, bastava o voto de desconfiança. No presidencialismo, neste momento, acho que deveríamos propor que o governo zerasse essa agenda que está em vigor, reconhecesse os erros e se dispusesse a implantar um novo modelo." Nesse cenário de alternativas é que Genoíno considera crucial que o Parlamento se comporte com a altivez de um poder. "Aquela cena em que os presidentes da Câmara e do Senado aparecem ao lado do presidente da República corroborando seus atos em nome da instituição mostra um Congresso que se comporta como parte do Executivo e não um poder equivalente." Nesse momento, o deputado não vê o governo muito disposto a distensões. Cita de exemplo a denúncia internacional dos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul como inadimplentes. "Hoje até o setor produtivo já percebeu que não é hora de acirrar, e começa a negociar antes de simplesmente demitir." Por isso, acredita que o caminho para a saída da crise pode surgir mesmo daquela que é a tarefa de fundo do Congresso: parlamentar, no sentido de dialogar.