LAFER REAFIRMA ÊNFASE NA ESTABILIDADE.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Celso Lafer, confirmou ontem, durante a cerimônia de sua posse, o que temia boa parte do setor produtivo, sobretudo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O Ministério da Fazenda continuará orientando a política econômica, com ênfase na estabilidade monetária. 'A função do ministério obedecerá, num diálogo constante, a uma lógica de complementaridade e não a um impulso de contradição com a política econômica do governo, conduzida pelo Ministério da Fazenda e voltada para a estabilidade e a consolidação do Real', disse Lafer, em seu discurso, ouvido atentamente pelo ministro Pedro Malan. Mas, embora concorde que a estabilidade da moeda seja prioritária, Celso Lafer reconheceu a dificuldade de ocupar um ministério que o governo está vendendo como a 'proposta desenvolvimentista' para o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. 'É um desafio assumir um ministério num País que tem a maior taxa de juros do mundo e com índice de desemprego batendo recorde', afirmou ele, antes do almoço no Palácio do Itamaraty, onde o presidente da República recebeu os cumprimentos do corpo diplomático e de chefes de Estado como Carlos Menem (Argentina) e Alberto Fujimori (Peru). Poucos empresários estiveram em Brasília para a posse do ministro Celso Lafer. Os representantes da Fiesp não compareceram à cerimônia, deixando claro que estão liderando uma rebelião velada contra a subordinação do ministério à Fazenda. Na Confederação Nacional da Indústria (CNI), a orientação é de, oficialmente, não criticar Celso Lafer, mas todos admitem que não haverá como o novo ministro fugir dos conflitos com a Fazenda. 'Esses conflitos vão surgir naturalmente', disse o presidente da CNI, senador Fernando Bezerra (PMDB-RN). 'Agora, são necessárias mais ações para resolver problemas como juros altos.' O presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedo (Abrinq), Synésio Batista da Costa, acredita que o discurso de Lafer está muito distante da realidade da indústria brasileira. 'Saio da cerimônia com medo de que minhas estimativas para este ano não sejam realizadas', disse ele, referindo-se às previsões do setor de crescimento de 5% no faturamento e de 15% no volume de vendas. 'A impressão do discurso de Lafer foi a de que haverá negociação demais e articulação o tempo inteiro. O empresariado não quer ouvir falar em intelectualidade ou citações de livros. Quer saber como vai chegar no dia 15 e pagar seus impostos e no dia 30 os salários de seus funcionários', afirmou Costa. 'Saí da cerimônia com a sensação de que vamos começar o ano com demissões.' O representante da Abrinq foi um dos poucos empresários a comparecer à posse em Brasília, juntamente com o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Paulo Skaf. Os dois setores foram justamente os que tiveram suas reivindicações (de sobretaxa e cotas para importados) atendidas pelo atual governo. Lafer reafirmou que a principal arma do Ministério do Desenvolvimento serão os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O ministro conversou ontem com o presidente interino da instituição, José Pio Borges, que fez um relato das operações do banco. Ainda não existe definição sobre quem ficará responsável pelo o orçamento anual de R$ 18 bilhões do BNDES. Borges não deverá ser efetivado no cargo, uma vez que foi um dos envolvidos no caso do grampo telefônico que derrubou, em novembro passado, o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e o então presidente do banco, Lara Resende. Ele disse, ainda, que pretende impulsionar o processo por meio do qual o BNDES se converterá em um eficiente e abrangente banco de comércio exterior. 'Sem comércio exterior dinâmico, e as reservas internacionais que provê, não há sustentabilidade duradoura de política econômica. É um desafio não apenas para o governo, mas para toda a sociedade brasileira', acrescentou. Juntamente com o aumento das vendas externas, Celso Lafer apontou que o novo ministério também priorizará a reestruturação das cadeias produtivas na economia brasileira. 'Todos sabem que não apenas o universo de bens e serviços comercializados através das fronteiras avança rapidamente, como cada vez mais é menos possível produzir com base apenas em insumos nacionais', afirmou. Nesse contexto, as pequenas e médias empresas irão receber atenção especial, por serem, segundo o ministro, as principais empregadoras de mão-de-obra do País. Além do BNDES, o governo enfrenta dificuldades também para definir o novo presidente da Caixa Econômica Federal. O ministro Pedro Malan e o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, estão resistindo à indicação do PFL do Nordeste para ocupar o cargo. O vice-presidente Marco Maciel vem trabalhando para emplacar o nome de Emílio Carazzai, que foi assessor especial de Gustavo Krause, quando este foi ministro da Fazenda no governo Itamar Franco. Mallan e Parente estão preferindo que a indicação para a Caixa seja parecida com a de Andréa Calabi para o Banco do Brasil: um nome técnico que seja apoiado pela área econômica e identificado com o PSDB. Para ocupar a vaga aberta por Celso Lafer na chefia da delegação brasileira junto aos organismos internacionais sediados em Genebra, o nome mais cotado é o do embaixador Celso Amorim, representante do Brasil junto à ONU. (Enio Vieira, Vicente Nunes e Deise Leobet, colaboraram Cintia Sasse e Aldo Renato Soare.