Lafer não agrada empresários

VIVIAN OSWALD E SILVIA MUGNATTO
BRASÍLIA - As primeiras palavras do novo ministro do recém-criado Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Celso Lafer, não agradaram aos poucos representantes da indústria que compareceram à solenidade de posse. Nenhum representante do PFL foi à solenidade, num claro boicote a Lafer. "O discurso prevê negociação demais, articulação demais e não apresentou propostas concretas. E tem uma hora que é preciso tomar uma decisão", disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos (Abrinq), Synésio Baptista. Lafer se preocupou mais em garantir que a sua gestão estará em constante diálogo com a política econômica do governo conduzida pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan. "A função do Ministério obedecerá a uma lógica de complementaridade e não a um impulso de contradição com a política econômica do governo", destacou Lafer, ao lembrar que o país aprendeu, depois de "sucessivas e duríssimas lições" antes do Plano Real, que o desenvolvimento sustentável está ligado à estabilidade da moeda. "Não existe desenvolvimento no contexto de uma cultura inflacionária", reiterou, num discurso de 20 páginas. "Eu volto para casa com a sensação de que vou ter que aprender a trabalhar com este ministro", disse Synésio Baptista. Segundo o empresário, Lafer fez um discurso voltado para a "indústria do futuro" quando a realidade é bem diferente. "Eu já começo o ano pensando em demissão", disse. "Só a obsessão de exportar não adianta se não tivermos condições para isto", ressaltou o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), senador Fernando Bezerra, lembrando a necessidade da queda das taxas de juros. "Vamos ter um canal de diálogo, mas os conflitos vão ser inevitáveis e o presidente Fernando Henrique Cardoso vai ter que conciliar isto", comentou o senador. O novo ministro destacou que um dos desafios do governo é incluir o Brasil na lista dos maiores exportadores do mundo e não apenas na relação elaborada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), dos grandes importadores mundiais. Para isso, enfatizou uma atuação enérgica contra as barreiras protecionistas e distorções artificiais de mercado que prejudicam o acesso dos produtos brasileiros aos mercados externos. Segundo ele, a questão do combate à concorrência desleal terá destaque especial em sua gestão por se tratar de ponto fundamental na igualdade de condições competitivas. Nesse contexto, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá papel fundamental, porque, segundo o ministro, "se converterá em um eficiente e mais abrangente banco de comércio exterior" e será extremamente importante para aumentar a taxa de investimentos em expansão e a modernização da indústria. Lafer afirmou que as pequenas e médias empresas terão prioridade durante a sua gestão, porque se tratam de atores econômicos fundamentais, geradores de emprego e riqueza, além de consistirem no segmento onde vive a grande massa dos brasileiros. Ao entregar o cargo para Celso Lafer, o ex-ministro José Botafogo Gonçalves explicou que a melhor solução para as contas externas do país é estimular o aumento consistente das exportações e não pela redução artificial das importações. "Devemos ter presente que a pauta das importações brasileiras apresenta significativa abertura, dados nossos compromissos externos, e relativa rigidez, visto seu próprio perfil, onde predominam as compras de bens de capital", disse Botafogo Gonçalves. Segundo ele, a elevação do volume de vendas externas brasileiras "só será possível através de reformas que conduzam à melhoria do ambiente econômico interno e à elevação da competitividade sistêmica". Ele lembrou que o atual sistema tributário nacional é incompatível com o alcance de índices adequados de competitividade dos produtos brasileiros nos mercados interno e externo. Botafogo Gonçalves afirmou que, apesar das dificuldades, o Brasil está vivendo um novo ciclo de investimentos, devendo ter recebido um aporte recorde de US$ 22 bilhões em 98. No entanto, segundo ele, os efeitos benéficos nos planos social e econômico só deverão ser sentidos no país nas próximas décadas.