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Japão e as alternativas às terras-raras: medidas estratégicas foram adotadas para manter as indústrias com inovações e matérias-primas suficientes

Linha de montagem da Nissan: uma das estratégias do Japão é
investir fortemente na reciclagem de materiais (Foto: Nissan)

Principal consumidor e maior detentor de tecnologias de transformação de terras-raras, o Japão tem visto empresas migrarem para a China na busca por preços menores e garantia de suprimento. Além de especialistas, empregos e renda, o país vem perdendo para os vizinhos um ativo ainda maior: a exclusividade de suas tecnologias. Percebendo o enorme prejuízo, os japoneses adotaram medidas estratégicas para manter as indústrias, com inovações e matéria-prima suficientes.

A primeira medida prevê o uso de materiais substitutos das terras-raras, principalmente para eletrodomésticos e aparelhos de ar-condicionado. Em 2013, o Japão pretende investir no desenvolvimento de novos motores elétricos que não utilizem terras-raras e no aumento de rendimento das máquinas, responsáveis pelo consumo de 50% da energia elétrica do país. As pesquisas, mesmo em estágio inicial, já indicam um ­aumento de rendimento de 25%.

Tetsuichi Takagi, líder do grupo de pesquisa de recursos minerais do Instituto de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada (Aist) do Japão, veio ao Brasil para falar aos senadores da Subcomissão Temporária das Terras-Raras, dentro de uma segunda vertente do esforço japonês no setor: a busca por parcerias com fornecedores e outros importadores, para reduzir a dependência em relação à China.

Tetsuichi Takagi: para reduzir dependência em relação
à China, Japão já investiumais de US$ 1 bilhão
no segmento (Foto: José Cruz/Agência Senado)

A terceira estratégia consiste em conservar ao máximo os recursos de terras-raras, basicamente pela redução do uso desses elementos. Em alguns casos, o Japão já conseguiu uma economia de 50%. Já para atender a penúltima medida, a diversificação dos fornecedores, a primeira iniciativa foi voltar a comprar dos EUA, da usina de Mountain Pass. Atualmente, o país negocia também com Vietnã e Índia para garantir as quase 35 mil toneladas anuais que consome.

O Japão investiu, desde 2010, US$ 208 milhões no desenvolvimento de materiais substitutos, US$ 420 milhões para incentivar as indústrias a usarem esses novos insumos e US$ 460 milhões para diversificar os fornecedores de terras-raras, num total de quase U$ 1,1 bilhão, afirma Takagi.

Takagi citou os catalisadores de três vias para o escapamento de automóveis, as lentes e vidros de alta tecnologia e os ímãs permanentes como exemplos de produtos de tecnologia japonesa em terras-raras que a China tem copiado. O ímã permanente de neodímio, um dos mais poderosos, usado principalmente em motores (veja infográfico nas págs. 8 e 9), também foi desenvolvido no Japão. De acordo com Antenor Silva, diretor da MbAC Fertilizantes, historicamente a tecnologia dos magnetos mais avançados pertence a empresas japonesas, mas a China já tem dezenas de produtores licenciados e centenas de piratas.


Reciclagem

Já a reciclagem de terras-raras não tem se mostrado tão fácil. Os ímãs de carros híbridos, por exemplo, ainda não estão ­acessíveis, já que poucos desses automóveis foram aposentados. Retirar os ímãs do motor do Toyota Prius, principal carro híbrido do Japão, só parece possível se for feita uma modificação no projeto.

Quanto aos ímãs dos discos rígidos dos computadores, 100% já são reciclados, mas a Aist tenta uma forma de retirá-los facilmente e obter informação sobre a procedência do material.

O Japão, entretanto, também procura uma fonte própria de terras-raras. Em março deste ano, anunciou a descoberta de um grande depósito dos elementos no fundo do Oceano Pacífico, que, se for confirmada, pode até levar a uma revisão de suas estratégias.