Especial 20 Anos do Mercosul
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Jornais mostram grandes mudanças em duas décadas


Foto:José Cruz

Os exemplares amarelados dos jornais que trazem a notícia da assinatura do Tratado de Assunção, a partir do qual teve início a experiência do Mercosul, mostram um Brasil e um mundo bem diferentes dos atuais. Naquele final de março de 1991, o Brasil do então presidente Fernando Collor enfrentava altos índices de inflação, apesar de dois planos econômicos e queda na atividade econômica. O mundo assistia aos últimos capítulos da história do império soviético.

O Tratado de Assunção foi firmado em 26 de março, pouco mais de um ano após a posse de Collor. No dia 16 de março do ano anterior, o país havia sido surpreendido com as duras medidas do Plano Collor I, como o congelamento por 18 meses das quantias que excedessem 50 mil cruzados novos nas contas correntes e de poupança e a substituição do cruzado novo pelo cruzeiro, como moeda nacional.

A inflação, que havia chegado a 82% no mês da posse de Collor, de fato caiu ao longo dos meses seguintes. Mas voltou a subir no final do ano, alcançando 20% em janeiro de 1991, quando foi lançado o Plano Collor II, que incluiu congelamento de preços. Os resultados começariam a aparecer nos meses seguintes, embora com índices mensais bem superiores às atuais metas anuais de inflação.

No mesmo dia em que o então presidente brasileiro firmava o tratado que criaria o Mercosul – juntamente com os colegas de Argentina, Paraguai e Uruguai – a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo, mostrava uma queda, para 11,75%, do Índice de Custo de Vida dos paulistanos com renda de dois a seis salários mínimos. A notícia foi publicada pelo jornal Correio Braziliense. A mesma edição divulgava a queda de 10% na atividade industrial do país. A “racionalização” de combustíveis, informava o Correio de 27 de março, chegara ao fim, dois meses depois de sua criação, motivada pela primeira Guerra do Golfo.

Os planos de uma viagem ao Japão da então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo na mesma data, mostram a pouca credibilidade internacional do país naquele momento. “Zélia viaja ao Japão sem nenhuma expectativa de ser recebida por autoridades econômicas daquele país”, relata o jornal, ressaltando as dificuldades encontradas pelo Brasil com os bancos credores japoneses. Durante a sua permanência em Tóquio, Zélia acabou apenas participando de uma reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

As dificuldades econômicas, naquele ano, também atingiam a China, que, duas décadas depois, alcançou o posto de segunda maior economia mundial. O déficit público, segundo anunciou o então ministro chinês das Finanças, Wang Binggian, havia crescido 58% em 1990, chegando a US$ 2,9 bilhões. “Em matéria de finanças governamentais, a situação é extremamente grave”, disse Binggian, de acordo com reportagem de O Estado de S. Paulo.

Na seção internacional o destaque do Correio Braziliense da mesma data foi a decisão do então presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, de proibir todas as manifestações políticas em Moscou. Era uma “aparente tentativa”, segundo o jornal, de evitar protestos de simpatizantes de Boris Yeltsin, então presidente da República da Rússia e principal opositor político de Gorbachev. Nove meses depois, Gorbachev renunciaria ao cargo.

Marcos Dantas de Moura Magalhães / Agência Senado
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)