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outubro.03

O idoso após o Estatuto

Lúcia Vânia

Obrigação para uns, aprendizado para outros. Os pontos de vista se alternam quando discutimos a convivência das famílias brasileiras com seus idosos. Uma questão muito mais cultural do que política, que pode ser mal dimensionada pela grande expectativa em torno do recém-aprovado Estatuto dos Idosos. Afinal, é ingenuidade esperar que uma única lei – ou código - seja capaz de frear abusos e injustiças, sem que ocorram mudanças significativas no papel que o idoso representa não somente para o poder público mas para toda sociedade.

Convém lembrar que, antes do Estatuto, tivemos outras inovações legais e experiências bem-sucedidas. A própria Constituição Federal, em seu artigo 230, determina que a família, a sociedade e o poder público têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua dignidade, bem-estar e participação na comunidade. Mais recentemente, a Lei nº8842/94 tratou das atribuições do poder público para implantação da Política Nacional do Idoso, e a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas) estabeleceu um benefício mensal para os mais carentes e disciplinou a participação de entidades assistenciais.

As leis reproduzem o que se tornou tendência dentro de uma sociedade. E, na verdade, amparados na convicção de que éramos um país de jovens, fomos percebendo aos poucos a importância demográfica, econômica e social da população idosa e suas necessidades e expectativas. Não é de estranhar que, durante muito tempo, o foco das políticas públicas estivesse concentrado nas crianças, também necessitadas de acões planejadas, de leis de proteção e de mobilização da sociedade civil.

Foi preciso um alerta sobre a mudança na pirâmide etária do País – e as conseqüências acarretadas na previdência social pública - para que as atenções se voltassem a essa questão. Atualmente, 16% da população brasileira têm acima de 60 anos de idade e estima-se que, depois do ano de 2020, o Brasil terá a sexta maior população idosa do mundo, o que corresponderá a 32 milhões de pessoas. Acrescentem-se a esses dados que o aumento da expectativa e a melhoria da qualidade de vida trazidos pelos avanços da ciência vão tornar os idosos mais autönomos e colaborar para derrubar clichês e mitos relacionados à terceira idade.

Mesmo que, por ora, essas mudanças sejam melhor percebidas nas classes sociais mais privilegiadas, temos uma perspectiva real de que a terceira idade será vista de forma ampliada, não apenas sob o aspecto da seguridade, mas também do lazer, da educação, da moradia, da cidadania. Esse é o caminho para retirar o idoso do isolamento ao qual vem sendo submetido e evoluirmos como nação.

Publicado no Jornal Entrelagos

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