Em
busca da terra prometida
Depoimentos
conflitantes marcaram o retorno dos 31 goianos
deportados dos Estados Unidos
no início deste mês. Eles fizeram
parte do grupo de 318 brasileiros obrigados
a voltar depois de presos na fronteira entre
o México e os Estados Unidos.
Para muitos, foi o fim de um drama que preferem
esquecer. Para outros, apenas uma batalha perdida.
Assim que puderem, tentarão conquistar
novamente
o eldorado americano.
Todos foram unânimes num ponto: deixaram o Brasil com a esperança
de uma vida melhor nos Estados Unidos. O desemprego, o futuro incerto e as necessidades
familiares foram os grandes motivadores de suas decisões.
Na lista dos 318 deportados, há um grande número de jovens na faixa
dos 20 aos 30 anos. Muitos estão desempregados e têm baixa ou média
escolaridade.
Foi para eles e para os 3,5 milhões de jovens desempregados que o governo
federal prometeu, e fracassou, nas sucessivas propostas de políticas para
a juventude, em especial as voltadas para a inserção no mercado
de trabalho.
Nesses dois anos e oito meses de governo, foram criados nove programas voltados
para os jovens, entre eles o Primeiro Emprego, o ProJovem, a Escola de Fábrica,
o Soldado Cidadão e o Consórcio Social de Juventude. Seus resultados
foram pífios.
Assim como os jovens, homens e mulheres na faixa dos 40 e 50 anos também
têm emigrado clandestinamente do Brasil. Essa verdadeira diáspora
de cidadãos brasileiros está a exigir reflexões profundas.
O Brasil precisa, mais do que nunca, de um projeto que compatibilize desenvolvimento
social com crescimento econômico sustentado, que permita a real melhora
da qualidade de vida, com geração de empregos, e não apenas
o controle da inflação.
Se não forem adotadas medidas para a redução do nível
de desemprego, da informalidade e das desigualdades sociais, o governo deve estar
preparado para os custos econômicos, sociais e políticos que advirão.
Por exemplo: os 318 deportados representam pouco mais de 1% dos 25 mil brasileiros
que ainda estão nas cadeias norte-americanas à espera da ajuda
do governo brasileiro.
No entanto, quem está agindo é o Congresso Nacional. Desde o início
da atual legislatura parlamentares das duas Casas têm denunciado a rede
de emigração clandestina que alicia brasileiros para convencê-los
a deixar o país.
Há dois meses, foi criada e está em pleno funcionamento, a Comissão
Mista Parlamentar de Inquérito da Emigração Ilegal, da qual
faço parte. Seus principais objetivos são investigar os crimes
relacionados com a entrada ilegal de brasileiros em outros países e a
garantia de seus direitos no exterior.
O retorno dos brasileiros está mostrando que o esquema é ainda
pior do que se imaginava. Vários crimes são praticados, desde aliciamento,
divulgação enganosa, adulteração de documentos e
de passaportes, e até tráfico de pessoas, inclusive de menores.
O que já se sabe é que a emigração ilegal proporciona
uma movimentação de dinheiro ainda não dimensionada, mas
que chega a milhões de dólares.
A rota do dinheiro que sai das mãos daqueles que pretendem deixar o país
inicia com o pagamento aos coiotes, em torno de 10 mil dólares por pessoa.
Além de cobrar todo esse montante, há inúmeros casos de
roubos de documentos pelos atravessadores, que os usam para prática de
crimes no exterior. Um passaporte, na Europa, pode chegar a valer até 5
mil dólares.
Já há indícios de que os coiotes também podem estar
facilitando as prisões de brasileiros em troca de pagamento. O governo
norte-americano paga aos presídios cerca de 60 dólares por dia
por brasileiro preso, o que equivale a 1,8 mil dólares ou aproximadamente
R$ 4.200,00 por mês.
Acredito que, ao lado das investigações que a Comissão está iniciando
com tanto empenho, será fundamental esclarecer à população
sobre os aspectos legais e ilegais da emigração.
Entrar em outro país de forma clandestina é assumir riscos, inclusive
de vida, e alimentar um esquema criminoso que, esse sim, atravessa fronteiras à luz
do dia sem medo das conseqüências.
Ao governo cabe a tarefa de cumprir o que prometeu: tornar o Brasil um país
digno de se viver para os brasileiros, onde o sonho não esteja além
fronteiras, mas nas oportunidades aqui criadas.
· Senadora (PSDB) e jornalista
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