Farmácia
Popular na contramão do SUS
* Lúcia Vânia
As
Farmácias Populares lançadas
pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva estão fadadas a entrar para
a lista dos programas cuja expectativa não
corresponde à realidade esperada,
a exemplo do Fome Zero. Criado, segundo o
próprio presidente, para atender às
pessoas que saem dos consultórios
com a receita, mas não têm dinheiro
para comprar o medicamento, o programa, como
concebido, está longe de atingir esse
objetivo.
Cada farmácia instalada este ano, custará, aproximadamente, R$
3 milhões. Já estão funcionando 23. Até o final
de 2004 o Ministério da Saúde pretende implantar 100 farmácias.
Somente com essas unidades serão gastos R$ 277 milhões, assim
distribuídos: R$ 255 milhões na aquisição e distribuição
dos medicamentos, R$ 2 milhões na implantação das farmácias
e R$ 20 milhões na sua manutenção.
É bom lembrar que, para conseguir esse total de recursos, o Ministério
da Saúde ainda depende de crédito adicional de R$ 199 milhões,
em apreciação no Congresso Nacional.
A esse montante de quase R$ 300 milhões, é preciso somar o débito
com a Saúde do ano de 2003, para o qual o governo terá de empenhar
R$ 670 milhões, ainda no corrente exercício, para cumprir os
recursos mínimos de que trata a Emenda 29. A questão é saber
como o Ministério da Saúde reporá quase R$ 1 bilhão
dentro do atual exercício.
Não há o que justifique um programa com gastos tão exorbitantes
para resultados tão pífios, com a agravante de não estar
direcionado à população de baixa renda, na prática.
Uma administração competente e não populista do programa
poderia empregar os recursos para garantir e ampliar a distribuição
gratuita de medicamentos pela rede do Sistema Único de Saúde,
evitando cobrar dos mais carentes.
A universalidade dos programas sociais do governo é uma das exigências
para sua inclusão na Emenda Constitucional nº 29/00, que define
o montante mínimo de recursos para a saúde.
Na Farmácia Popular do presidente Lula, o medicamento, além de
pago, também pode ser adquirido por qualquer pessoa, não importando
se ganha salário mínimo ou altos rendimentos. Basta apresentar
a receita médica que pode ser de médico do SUS ou de consultório
particular.
O próprio presidente Lula afirmou, em 15 de junho p.p., que a Farmácia
Popular “é pra atender aquelas pessoas que pegam a receita e têm
que comprar o remédio numa farmácia normal. Eu já cansei
de ver pessoas entrarem em farmácias, perguntar quanto custa o remédio
e sair sem comprar o remédio, porque não têm dinheiro”.
Bem mais consistente foi o programa Farmácia Popular implantado em 2001.
Consistia na aquisição e distribuição, pelo Ministério
da Saúde, de um kit de medicamentos com 31 itens de atenção
básica à saúde.
O kit era entregue, diretamente, às mais de 13 mil equipes de Saúde
da Família espalhadas pelo Brasil, e fornecido aos pacientes durante
o atendimento médico residencial. Até o final de 2001 foram distribuídos
41 mil kits em cerca de 3.684 municípios beneficiando mais de 45,4 milhões
de pessoas. Certamente aquele programa poderia ser aperfeiçoado e estendido
a todos os municípios, no campo de atuação do SUS.
Sem a cobrança, os custos adicionais e a demagogia, presentes no atual
programa.
Por isso, a pergunta: quem vai se beneficiar da Farmácia Popular do
governo Lula? Certamente não será a população que
mais necessita.
*Senadora (PSDB-GO), presidente da Comissão de Assuntos Sociais
Publicado
em 30/08/2004 no Jornal do Brasil |