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29.07.05

Um País de Voluntários


Lúcia Vânia *

A revista Veja, em sua edição de 20 de julho, divulga os dados de uma pesquisa do IBOPE que estima que, entre abril e junho deste ano, 25 milhões de brasileiros realizaram trabalho voluntário. Esse é um número bastante significativo: representa cerca de 30% da população economicamente ativa do Brasil. É como se, nos últimos três meses, quase toda a população do Peru ou as populações do Chile e da Bolívia somadas ou 4 vezes a população do Paraguai se engajasse em trabalho voluntário. É como se tivéssemos, dentro do Brasil, um verdadeiro país de voluntários.

Esse é um tema que me toca de perto. Há 30 anos, em 1975, assumi a presidência da Organização das Voluntárias de Goiás, que, naquele momento, já tinha uma longa história de quase três décadas, fundada que foi, em 1947, por Dona Ambrosina Coimbra Bueno. Goiás, portanto, tem já uma importante tradição de voluntariado, incorporada em sua Organização das Voluntárias, e tenho orgulho de ser parte dela.

É certo que a assistência social, cada vez mais, ao ser assumida definitiva e claramente como política pública, exige um grau crescente de comprometimento, de especialização e de “profissionalismo”. Como política pública, não pode ter um caráter eventual e fragmentado, mas deve representar um esforço continuado e sustentado por parte do poder público e da sociedade civil.

Tem sido assim também no Brasil, mais acentuadamente desde a promulgação, em 1993, da Lei Orgânica da Assistência Social. Tenho, aliás, grande satisfação de ter contribuído para sua efetiva implantação, quando fui Secretária Nacional de Assistência Social, no primeiro governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ainda assim, mesmo que a “profissionalização” acompanhe a evolução da assistência social, não há como prescindir do inestimável envolvimento dos voluntários. Há inúmeras razões que poderíamos alegar para sustentar tal afirmação, e quero, aqui, desenvolver uma delas.

Hoje já é consensualmente aceito que “assistência social” não é sinônimo de “assistencialismo”. Hoje, a assistência social é vista como um pressuposto para a cidadania e como um direito social. Visto por esse ângulo – ou seja, do ponto de vista da cidadania –, o trabalho voluntário ganha uma dimensão que precisa ser enfatizada. De fato, não se trata apenas da cidadania daquele que é assistido, mas também da cidadania daquele que dá assistência. Se, por um lado, os excluídos muitas vezes precisam da assistência para sua inclusão, ou seja, para que reúnam os requisitos necessários ao pleno gozo de sua condição de cidadãos, por outro, aqueles que se engajam no trabalho de levar assistência a quem dela necessita não deixam de estar exercitando, de forma exemplar, sua cidadania.

O trabalho voluntário, visto nessa perspectiva, implica uma noção ampla e rica de cidadania. Na medida em que cresce o envolvimento das pessoas com esse tipo de atividade, portanto, podemos dizer que se enriquece a própria cidadania.

Mas nem todo trabalho voluntário precisa visar a esse horizonte mais complexo e exigente da assistência social. Um mutirão para limpar a rua, uma campanha para doação de sangue, de alimentos ou de livros, um movimento para recuperar as instalações de uma escola ou para renovar a paisagem de uma praça pública – tudo isso, envolvendo a participação voluntária das pessoas, representa um ganho em termos do envolvimento dos cidadãos.

O trabalho voluntário, enfim, é a solidariedade aplicada, é a fraternidade posta em prática. É a sociedade civil trabalhando em prol de si mesma, o que é especialmente relevante quando os governos falham em fazer retornar, na forma de benefícios, os recursos que recolhem na forma de impostos. Não se pode, naturalmente, ver o esforço voluntário como paliativo da incompetência governamental. No entanto, a conclusão de que nós mesmos podemos fazer muitas coisas e de que nosso esforço, por pequeno que nos pareça, faz diferença é, acredito, altamente saudável para a sociedade como um todo.

Por isso, vejo como sinal inequívoco da saúde da sociedade brasileira, apesar de todos os lamentáveis pesares atuais, o fato revelado pela pesquisa do IBOPE sobre a extensão do trabalho voluntário. É o que nos faz crer que o Brasil é muito maior e muito mais forte do que aqueles que se esforçam incansavelmente para diminuí-lo.

* Senadora (PSDB)

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