Um
País
de Voluntários
Lúcia Vânia
*
A revista Veja, em sua edição de 20 de julho, divulga os dados
de uma pesquisa do IBOPE que estima que, entre abril e junho deste ano, 25
milhões de brasileiros realizaram trabalho voluntário. Esse é um
número bastante significativo: representa cerca de 30% da população
economicamente ativa do Brasil. É como se, nos últimos três
meses, quase toda a população do Peru ou as populações
do Chile e da Bolívia somadas ou 4 vezes a população do
Paraguai se engajasse em trabalho voluntário. É como se tivéssemos,
dentro do Brasil, um verdadeiro país de voluntários.
Esse é um tema que me toca de perto. Há 30 anos, em 1975, assumi
a presidência da Organização das Voluntárias de
Goiás, que, naquele momento, já tinha uma longa história
de quase três décadas, fundada que foi, em 1947, por Dona Ambrosina
Coimbra Bueno. Goiás, portanto, tem já uma importante tradição
de voluntariado, incorporada em sua Organização das Voluntárias,
e tenho orgulho de ser parte dela.
É certo que a assistência social, cada vez mais, ao ser assumida
definitiva e claramente como política pública, exige um grau crescente
de comprometimento, de especialização e de “profissionalismo”.
Como política pública, não pode ter um caráter eventual
e fragmentado, mas deve representar um esforço continuado e sustentado
por parte do poder público e da sociedade civil.
Tem sido assim também no Brasil, mais acentuadamente desde a promulgação,
em 1993, da Lei Orgânica da Assistência Social. Tenho, aliás,
grande satisfação de ter contribuído para sua efetiva
implantação, quando fui Secretária Nacional de Assistência
Social, no primeiro governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.
Ainda assim, mesmo que a “profissionalização” acompanhe
a evolução da assistência social, não há como
prescindir do inestimável envolvimento dos voluntários. Há inúmeras
razões que poderíamos alegar para sustentar tal afirmação,
e quero, aqui, desenvolver uma delas.
Hoje já é consensualmente aceito que “assistência
social” não é sinônimo de “assistencialismo”.
Hoje, a assistência social é vista como um pressuposto para a
cidadania e como um direito social. Visto por esse ângulo – ou
seja, do ponto de vista da cidadania –, o trabalho voluntário
ganha uma dimensão que precisa ser enfatizada. De fato, não se
trata apenas da cidadania daquele que é assistido, mas também
da cidadania daquele que dá assistência. Se, por um lado, os excluídos
muitas vezes precisam da assistência para sua inclusão, ou seja,
para que reúnam os requisitos necessários ao pleno gozo de sua
condição de cidadãos, por outro, aqueles que se engajam
no trabalho de levar assistência a quem dela necessita não deixam
de estar exercitando, de forma exemplar, sua cidadania.
O trabalho voluntário, visto nessa perspectiva, implica uma noção
ampla e rica de cidadania. Na medida em que cresce o envolvimento das pessoas
com esse tipo de atividade, portanto, podemos dizer que se enriquece a própria
cidadania.
Mas nem todo trabalho voluntário precisa visar a esse horizonte mais
complexo e exigente da assistência social. Um mutirão para limpar
a rua, uma campanha para doação de sangue, de alimentos ou de
livros, um movimento para recuperar as instalações de uma escola
ou para renovar a paisagem de uma praça pública – tudo
isso, envolvendo a participação voluntária das pessoas,
representa um ganho em termos do envolvimento dos cidadãos.
O trabalho voluntário, enfim, é a solidariedade aplicada, é a
fraternidade posta em prática. É a sociedade civil trabalhando
em prol de si mesma, o que é especialmente relevante quando os governos
falham em fazer retornar, na forma de benefícios, os recursos que recolhem
na forma de impostos. Não se pode, naturalmente, ver o esforço
voluntário como paliativo da incompetência governamental. No entanto,
a conclusão de que nós mesmos podemos fazer muitas coisas e de
que nosso esforço, por pequeno que nos pareça, faz diferença é,
acredito, altamente saudável para a sociedade como um todo.
Por isso, vejo como sinal inequívoco da saúde da sociedade brasileira,
apesar de todos os lamentáveis pesares atuais, o fato revelado pela
pesquisa do IBOPE sobre a extensão do trabalho voluntário. É o
que nos faz crer que o Brasil é muito maior e muito mais forte do que
aqueles que se esforçam incansavelmente para diminuí-lo.
* Senadora (PSDB)
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