Independência
entre os poderes
O
Congresso Nacional forma, ao lado do Poder
Executivo e do Poder Judiciário, a
base institucional sobre a qual se assenta
a Nação. É na harmonia
entre os três que a democracia se consolida
e deixa sua marca na sociedade.
Se,
no entanto, um desses Poderes extrapola seus
limites sobre o outro, o equilíbrio
se perde e os reflexos se fazem sentir imediatamente.
O
Legislativo é o grande intérprete
da vontade popular. Pelo Congresso Nacional
passam as principais transformações
que vêm a modificar o semblante do
País.
É no
Legislativo que se exercita o contraditório. É lá,
também, que as diferenças podem
ser resolvidas para que ao final de todo
o trâmite de uma lei se obtenha o consenso
que vai mudar a vida econômica e social
do país.
Antes
que isso aconteça, no entanto, é preciso
debater, ouvir as partes envolvidas, proceder-se
a uma tramitação que, enfim,
não leva menos de dois anos entre
Câmara dos Deputados e Senado Federal.
Além
disso, é preciso ouvir a sociedade,
através dos segmentos interessados
nos projetos para que haja certeza de que
sua aprovação atenderá aos
interesses da maioria. Isso só é possível
com a realização de audiências
públicas, que também demandam
tempo.
Infelizmente,
após a criação do instituto
das medidas provisórias exercidas
pelos governos anteriores e com maior gravidade
neste governo, as relações
entre o Executivo e o Legislativo têm
enfraquecido o equilíbrio entre os
dois Poderes.
Ao
retirar do Congresso a sua prerrogativa de
legislar pela imposição do
grande número de Medidas Provisórias
que nada mais são do que uma exceção
visando a garantir a sua governabilidade,
o Governo tem impedido o andamento do processo
legislativo, que é muito mais rico
e produtivo.
Em menos de dois anos, o Executivo enviou
ao Congresso 123 Medidas Provisórias,
que têm sido responsáveis por impedir o andamento normal da pauta
de votações do Congresso, tanto em plenário quanto nas
comissões.
Nos últimos
meses, a oposição tem mostrado,
de forma contundente, o seu desagrado com
o excesso de Medidas Provisórias imposto
pelo Governo.
Na
semana passada, havia 28 MPS trancando a
pauta da Câmara dos Deputados, levando
o PSDB e o PFL a avisar que começarão
a exigir a instalação de comissões
mistas para analisar cada uma das Medidas
Provisórias, conforme prevê o
regimento das duas Casas.
O
próprio senador Aloízio Mercadante
manifestou seu descontentamento com o excesso
de MPs editadas pelo seu governo, afirmando
que das 123 editadas desde o ano passado,
22% são inapropriadas e 25% são
discutíveis.
Na verdade o que se percebe é que o Governo tem sido vítima do
seu próprio afã em editar excessivo número de MPS, a ponto
de se ver obrigado, com freqüência, a emitir novas medidas para
corrigir as anteriores.
Não é só o
excesso que causa tanto transtorno no Parlamento.
Pela Constituição, toda Medida
Provisória deve chegar ao Congresso
pela Câmara dos Deputados entrando
em regime de urgência se não
for votada em 45 dias. Isso significa que
nada mais poderá ser votado na Casa
em que ela estiver tramitando, até que
seja votada.
No
total, Câmara e Senado tem 120 dias
para votar uma Medida Provisória,
do contrário ela perde a validade
e é arquivada. O problema é que
os deputados utilizam praticamente todo esse
período em negociações,
restando muito pouco tempo para que os senadores
possam analisar o conteúdo da matéria
com a profundidade exigida antes de votar.
Por
conta desse embate entre os dois Poderes,
a oposição enviou um duro recado
ao Governo. Utilizará de sua legítima
prerrogativa de retardar o processo de votação
em andamento, inclusive do Orçamento
da União, uma vez que o Governo tem
descumprido, sistematicamente, os seus acordos
com o Congresso.
A
peça orçamentária, por
ter um calendário de votação
e conter matérias de interesse do
Governo, é usada como instrumento
legítimo de pressão dos congressistas,
na tentativa de restaurar o respeito do Executivo
ao Parlamento, como representante da população
brasileira.
O
Congresso não pode ser irresponsável,
mesmo diante da ameaça do rolo compressor
do Governo, em votar açodadamente
assuntos do mais alto interesse do país.
Àqueles
que desconhecem o ritual do Parlamento, pode
parecer que há uma intenção
em retardar o processo legislativo. Na verdade,
o que existe é o aprofundamento da
discussão dos projetos, a fim de que
sejam entendidas suas repercussões, às
vezes sobre a vida de milhões de brasileiros.
Por
isso mesmo, um projeto tramita em duas a
três Comissões em cada uma das
duas Casas antes de ir a plenário
para a votação final.
Parece
evidente, portanto, que se existe impasse
em relação às matérias
no Congresso, esse impasse se deve a uma
cultura autoritária ainda existente
nos relacionamentos entre os Poderes. É preciso
que haja por parte do Executivo e da sociedade
a clareza de que o processo democrático
se fortalece pela independência e
autonomia dos Poderes.
O
parlamentar que é eleito pelo povo
assume outras responsabilidades que precisam
ser levadas em conta. Além da análise
e votação de projetos, ele
integra três, quatro comissões
e subcomissões, e tem várias
atividades como representações
diplomáticas, participação
em seminários, conferências
e reuniões ministeriais. |