Reflexões
sobre o primeiro emprego
Lúcia
Vânia
Precisamente
3,6 milhões de jovens, entre 15 e
24 anos, estavam desempregados em 2001, segundo
a última Pesquisa Nacional de Amostragem
Domiciliar (PNAD) do IBGE. Embora a falta
de qualificação dificulte a
inserção do jovem no mercado
de trabalho, o desemprego nessa faixa é agravado,
acima de tudo, pela baixa escolaridade, inferior
até mesmo a de países vizinhos,
como Argentina e Uruguai. Fora das salas
de aula e com poucos anos de estudo, os jovens
têm chances limitadas de sucesso profissional
e iniciativas para incluí-los – como
o Primeiro Emprego – pecam porque ainda
trazem resquícios da valorização
do trabalho em detrimento da educação.
A
educação para e pelo trabalho
foi e continua sendo oferecida aos jovens
das regiões metropolitanas, com baixa
escolaridade e restrito poder aquisitivo,
como a melhor opção para formá-los
e socializá-los. De fato, há um
vazio de políticas e programas sócio-culturais
para os jovens brasileiros. Poucas oportunidades
lhes são oferecidas para desenvolverem
suas habilidades e competências, importantes
para a vida em sociedade e o exercício
da cidadania. As conseqüências
dessa exclusão vão do recolhimento
até a revolta, a desconfiança
nas instituições e no futuro.
Culturalmente,
o trabalho e a profissionalização
precoce foram considerados naturais, inclusive,
como modos privilegiados de formação
e inclusão social das camadas populares.
Acontece que jovens adolescentes que trabalham
e estudam têm dificuldades de compatibilizar
as duas tarefas, resultando em geral, na
queda do aprendizado e no abandono escolar.
Isso explica, em parte, os altos índices
de evasão e de repetência escolar
no ensino fundamental, que frearam o avanço
do ensino médio.
O
lamentável é que a educação
de nível médio esteve, até há pouco
tempo, fora das políticas públicas
educacionais. Vista como um ritual de passagem
para os adolescentes, praticamente transformou-se
em educação obrigatória
apenas para as classes médias e mais
abastadas. Para os segmentos de baixa renda,
o grande desafio se limitava à conclusão
do ensino fundamental, objetivo alcançado
por menos de 50% dos ingressantes na primeira
série do antigo primário, devido à cultura
da repetência prevalecente.
Cabe
ressaltar, contudo, que, nos anos 1990, registrou-se
uma expansão, em termos numéricos,
do ensino médio. Esse crescimento
pode ser atribuído à pressão
do mercado, especialmente nos grandes centros
e Estados mais desenvolvidos, que passou
a exigi-lo como credencial de acesso ao mundo
do trabalho. Outros fatores responsáveis
pelo aumento estão relacionados à melhoria
do funcionamento do ensino fundamental; à ênfase
em programas de combate à repetência
e melhoria do fluxo escolar; e à reforma
do ensino médio.
A
educação é uma das poucas
portas que a sociedade contemporânea
abre e exige para a mobilidade social. Entretanto,
do ponto de vista das políticas públicas,
não houve uma capacidade de integração
de ações que tratassem a condição
da juventude sob um enfoque mais amplo, relacionando
educação, participação,
saúde, emprego, cultura etc.
De
acordo com a pesquisadora da USP, Maria do
Carmo Brant de Carvalho, houve até um
retrocesso em relação ao perfil
da juventude brasileira. Nos anos 1960, por
exemplo, apostava-se no protagonismo político
dos jovens pela via de iniciativas como partidos,
sindicatos, pastorais de igrejas, festivais
de música, movimentos estudantis.
Nos anos 1980, segundo ela, praticamente
desapareceram iniciativas mais amplas e impregnou-se
a política da idéia de que
a educação escolar (com ênfase
no ensino fundamental) ou ainda que o trabalho
(especialmente para os pobres) significava
a melhor via de inclusão de jovens.
Na
verdade, ao propor a criação
da Subcomissão da Criança,
do Adolescente e da Juventude quis promover
uma reflexão, no âmbito do Senado
Federal, sobre a inclusão social dos
jovens e adolescentes, principalmente os
mais pobres. Para esse debate, convoquei
tanto representantes do governo federal quanto
do Legislativo, do Judiciário, de
organizações não-governamentais
e da sociedade civil, com larga experiência
em projetos relacionados aos jovens. São
setores que precisam se unir para construirmos
um cenário de oportunidades e expectativas
positivas.
Qualquer
política para ser exitosa na área
da juventude requer uma oferta variada de
programas formativos, inovadores e ambiciosos,
que priorizem a consciência de direitos
e deveres. A juventude se destaca não
somente como parcela significativa da população,
mas como um grupo com expressões peculiares
de conduta que precisa do apoio da sociedade
e do governo (por meio de políticas
públicas) para vencer como adulto
e se realizar em sua dimensão mais
ampla de ser humano.
Publicado
em O Popular |