O
medo está vencendo a esperança
Da
guerra urbana na favela carioca às
manifestações de integrantes
da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), o governo Lula e o País
viveram uma semana particularmente desastrosa.
Entretanto, são fatos e pesquisas
extremamente reveladores do momento vivido
pela sociedade brasileira, principalmente
no seu aspecto emocional.
Lúcia
Vânia
O
documento Análise de Conjuntura, preparado
por assessores da CNBB para fundamentar as
discussões da assembléia da
entidade, fez críticas à política
econômica afirmando que os movimentos
sociais viram rompida a parceria que tinham
com o PT e “já não sabem
se devem apoiar as políticas do governo”.
Ele ainda salienta que o governo não
foi ágil o suficiente no caso das
denúncias envolvendo o ex-assessor
da Presidência, Waldomiro Diniz.
Merecem
também reflexão os dados da
pesquisa divulgada pela Organização
das Nações Unidas, revelando
que a maioria dos habitantes da América
Latina estaria disposta a trocar a democracia
por um governo autoritário que resolvesse
os problemas econômicos.
Dentre
as nações pesquisadas, incluindo
a Argentina, o México e o Chile, o
Brasil ficou em 15º lugar em termos
porcentuais da população considerada
democrata: os dados da pesquisa no Brasil
revelam que apenas 30,6% dos brasileiros
foram classificados como democratas. A média
desse porcentual nos demais países
ficou em 43% e o líder em convicção
democrática é o Uruguai, cujo
porcentual correspondente ficou em 72,3%.
Isso
não significa que estejamos desprovidos
de liberdades civis. Nós as temos
e bastante aperfeiçoadas, graças
a uma participação histórica
da população brasileira, conforme
pudemos também recordar nas comemorações
da campanha das Diretas Já.
O
que não temos é uma democracia
na plenitude da expressão, com igualdade
de oportunidade para todos; com igualdade
de acesso da maioria aos bens da civilização,
como educação, saúde,
habitação, transporte, emprego,
saúde, etc. Neste sentido, pelo contrário,
temos uma sociedade de marginalizados e de
desiguais.
Há que
se acrescentar, ainda, como agravante, que
embora o setor econômico seja o mais
destacado quando se discute o problema de
marginalização dentro de uma
sociedade, ele é apenas um dos componentes
básicos da estrutura social, juntamente
com os setores social, político e
cultural.
O
indivíduo marginalizado de um ou de
outro destes setores, ou de todos eles, o
que é o mais comum, acaba por forjar,
na luta desesperada pela sobrevivência,
estruturas marginalizadas, que passam a ser
o seu ponto de apoio.
É exatamente
na constatação de que este
governo tem se mostrado inoperante na implementação
de suas promessas de campanha e na operacionalização
dos programas sociais, mesmo aqueles já existentes,
que se instala no inconsciente coletivo da
população brasileira a desesperança
detectada pela nota da CNBB.
Em
março, o brasilianista Norman Gall,
diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial, disse que o presidente Lula tinha
a chance histórica de fazer uma verdadeira
revolução social, mas foi vencido
pelo populismo e pelo corporativismo dos
sindicatos e da máquina burocrática.
Por
fim, outro destaque na imprensa foi a pesquisa
realizada pela Associação Internacional
de Estresse Gerencial do Brasil, que detectou
que 82% dos profissionais brasileiros apresentam
traços de ansiedade em diversos graus.
Dentre as causas de tão elevado índice
de estresse está o desemprego, uma
das principais. A pesquisadora acredita que
o índice de estresse seja até maior
que atinja, sem distinção, “toda
a massa de trabalhadores em qualquer segmento
ou carreira”.
Não é para
menos. A população teve uma
promessa recente do então candidato
Luiz Inácio Lula da Silva da criação
de 10 milhões de emprego em seu mandato
e, até agora, só viu as taxas
de desemprego crescerem.
A
pesquisa conclui: “O fato de o presidente
não ter correspondido às expectativas
da população gerou apatia e
depressão. Percebeu-se que não
adianta boa vontade e poder nas mãos
para resolver a questão do desemprego. É preciso
lançar mão de uma série
de estratégias embasadas e planejadas
de acordo com a real situação
do Brasil”.
Como
oposição, queremos adotar atitudes
pelo Brasil, a fim de que a esperança
que está sendo quebrada pela incapacidade
de administrar do atual governo seja reacendida
na população, e a torne capaz
de visualizar horizontes mais favoráveis.
Lúcia
Vânia é senadora pelo PSDB e
presidente da Comissão de Assuntos
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