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28.04.04

O medo está vencendo a esperança

Da guerra urbana na favela carioca às manifestações de integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o governo Lula e o País viveram uma semana particularmente desastrosa. Entretanto, são fatos e pesquisas extremamente reveladores do momento vivido pela sociedade brasileira, principalmente no seu aspecto emocional.

Lúcia Vânia

O documento Análise de Conjuntura, preparado por assessores da CNBB para fundamentar as discussões da assembléia da entidade, fez críticas à política econômica afirmando que os movimentos sociais viram rompida a parceria que tinham com o PT e “já não sabem se devem apoiar as políticas do governo”. Ele ainda salienta que o governo não foi ágil o suficiente no caso das denúncias envolvendo o ex-assessor da Presidência, Waldomiro Diniz.

Merecem também reflexão os dados da pesquisa divulgada pela Organização das Nações Unidas, revelando que a maioria dos habitantes da América Latina estaria disposta a trocar a democracia por um governo autoritário que resolvesse os problemas econômicos.

Dentre as nações pesquisadas, incluindo a Argentina, o México e o Chile, o Brasil ficou em 15º lugar em termos porcentuais da população considerada democrata: os dados da pesquisa no Brasil revelam que apenas 30,6% dos brasileiros foram classificados como democratas. A média desse porcentual nos demais países ficou em 43% e o líder em convicção democrática é o Uruguai, cujo porcentual correspondente ficou em 72,3%.

Isso não significa que estejamos desprovidos de liberdades civis. Nós as temos e bastante aperfeiçoadas, graças a uma participação histórica da população brasileira, conforme pudemos também recordar nas comemorações da campanha das Diretas Já.

O que não temos é uma democracia na plenitude da expressão, com igualdade de oportunidade para todos; com igualdade de acesso da maioria aos bens da civilização, como educação, saúde, habitação, transporte, emprego, saúde, etc. Neste sentido, pelo contrário, temos uma sociedade de marginalizados e de desiguais.

Há que se acrescentar, ainda, como agravante, que embora o setor econômico seja o mais destacado quando se discute o problema de marginalização dentro de uma sociedade, ele é apenas um dos componentes básicos da estrutura social, juntamente com os setores social, político e cultural.

O indivíduo marginalizado de um ou de outro destes setores, ou de todos eles, o que é o mais comum, acaba por forjar, na luta desesperada pela sobrevivência, estruturas marginalizadas, que passam a ser o seu ponto de apoio.

É exatamente na constatação de que este governo tem se mostrado inoperante na implementação de suas promessas de campanha e na operacionalização dos programas sociais, mesmo aqueles já existentes, que se instala no inconsciente coletivo da população brasileira a desesperança detectada pela nota da CNBB.

Em março, o brasilianista Norman Gall, diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, disse que o presidente Lula tinha a chance histórica de fazer uma verdadeira revolução social, mas foi vencido pelo populismo e pelo corporativismo dos sindicatos e da máquina burocrática.

Por fim, outro destaque na imprensa foi a pesquisa realizada pela Associação Internacional de Estresse Gerencial do Brasil, que detectou que 82% dos profissionais brasileiros apresentam traços de ansiedade em diversos graus. Dentre as causas de tão elevado índice de estresse está o desemprego, uma das principais. A pesquisadora acredita que o índice de estresse seja até maior que atinja, sem distinção, “toda a massa de trabalhadores em qualquer segmento ou carreira”.

Não é para menos. A população teve uma promessa recente do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva da criação de 10 milhões de emprego em seu mandato e, até agora, só viu as taxas de desemprego crescerem.

A pesquisa conclui: “O fato de o presidente não ter correspondido às expectativas da população gerou apatia e depressão. Percebeu-se que não adianta boa vontade e poder nas mãos para resolver a questão do desemprego. É preciso lançar mão de uma série de estratégias embasadas e planejadas de acordo com a real situação do Brasil”.

Como oposição, queremos adotar atitudes pelo Brasil, a fim de que a esperança que está sendo quebrada pela incapacidade de administrar do atual governo seja reacendida na população, e a torne capaz de visualizar horizontes mais favoráveis.

Lúcia Vânia é senadora pelo PSDB e presidente da Comissão de Assuntos Sociais

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