OBESIDADE
E SAÚDE PÚBLICA
*Lúcia
Vânia
A
obesidade, como uma enfermidade caracterizada
pelo acúmulo excessivo de gordura
corporal, associada a problemas de saúde
entrou na pauta da política nacional
de saúde pública.
A nutricionista Leonor Pacheco, do Ministério da Saúde, que participou
da Pesquisa recentemente divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística sobre Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003, afirma
que os resultados acendem a luz vermelha no campo alimentar e nutricional da
população brasileira.
Segundo a pesquisadora “Estamos vivendo com o pior dos dois mundos. Desnutrição
e doenças de países pobres e a obesidade dos países ricos”.
A pesquisa, que chegou a despertar uma reação crítica
do presidente Lula sobre a sua validade, conclui, de fato, que o brasileiro
está se alimentando mal. Nossa população está consumindo
mais gordura e fazendo uma inadequada ingestão de açúcar.
Para se ter uma idéia, somente o consumo de refrigerantes aumentou 400%
entre a primeira pesquisa (1974-1975) e divulgada agora.
Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda
que o consumo de açúcar deveria equivaler a, no máximo,
10% das calorias ingeridas, no Brasil esse percentual já chega a 12,63%.
Há alguns resultados da POF 2002/2003 que soam como alerta para os gestores
da saúde pública no Brasil:
v Houve acentuado declínio de consumo do arroz com feijão, em
detrimento de alimentos enlatados, dos refrigerantes, dos sorvetes e das chamadas
comidas rápidas;
v Os brasileiros engordaram acentuadamente nas três últimas décadas,
chegando a 38,6 milhões de pessoas com peso acima do recomendado, ou
o equivalente a 40,6% da população adulta do país;
v Existem 10,5 milhões de brasileiros obesos; e
v O problema permeia todas as camadas, atingindo de alto a baixo na escala
social: entre os 20% mais pobres da população, 27% dos homens
estão com peso acima do recomendado e apenas 9,5% com falta de pesa;
entre as mulheres estes percentuais apontam 38,2% acima do peso e 6,6% com
peso inferior ao recomendado.
No
mundo a obesidade triplicou nos últimos
20 anos, levando a OMS a considerar o fenômeno
tão grave quanto o tabagismo e o alcoolismo,
principalmente entre as crianças e
os adolescentes.
Em 2002, o governo dos Estados Unidos gastou
117 bilhões de dólares
com os obesos e as doenças conseqüentes como diabetes, hipertensão,
doenças coronarianas e outras. Foram realizadas 100 mil cirurgias para
redução do estômago e encurtamento do intestino.
No México a situação é mais alarmante, com a taxa
de obesidade chegando a 70% da população e 7 milhões de
diabéticos numa população de 100 milhões.
Muitos países estão tomando as suas providências: na Suécia
foi instituído um selo verde para os alimentos de alto teor de fibras
e baixo teor de calorias e foram proibidos anúncios de alimentos calóricos
dirigidos a crianças. Na Austrália firma-se a idéia da
instituição de um imposto para obesos mórbidos, pelos
seus altos custos para o sistema de saúde.
No Brasil a Justiça tem adotado algumas medidas, como a do juiz João
Batista Ribeiro, de Belo Horizonte, que determinou às lojas McDonald’s
imprimir nas embalagens dos seus produtos o seu valor nutricional.
Em São Paulo, o dr. João Lopes Guimarães, do Ministério
Público do Estado, entrou com uma ação contra a Coca-Cola
e outra contra a Ambev (fabricante de refrigerantes), com a finalidade de proibir
campanhas publicitárias que associem refrigerantes a um estilo de vida
saudável.
Por todos esses motivos voltei a minha atenção especialmente
para a adoção da propaganda indiscriminada de refrigerantes no
Brasil, apresentando o Projeto de Lei (PLS) nº 431/2003. O projeto visa
a que a propaganda comercial e o rótulo dos refrigerantes contenham,
obrigatoriamente, advertência sobre os malefícios que o consumo
excessivo pode provocar à saúde.
A problemática que discutimos até agora está atingindo
dramaticamente as crianças brasileiras, cuja prevalência da obesidade
saltou de 3% para 15% no período de 15 anos.
A par da gravidade das lesões orgânicas conseqüentes da obesidade,
há a questão psíquica, que tem levado muitos adolescentes
obesos a tentar o suicídio, devido à estigmatização
e ao preconceito.
A propaganda de refrigerantes dirigida ao público infantil é bastante
poderosa, principalmente se considerarmos a falta de discernimento da criança
para defender-se dessas mensagens.
Tenho a firme opinião, avalizada por vários especialistas, de
que uma política pública visando uma alimentação
saudável deve incluir a restrição da publicidade, nos
de meios de comunicação de massa, de alimentos de escasso valor
nutricional, e a veiculação de anúncios que induzam a
redução do consumo desses alimentos.
*Jornalista
e Senadora (PSDB-GO)
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