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27.01.05

OBESIDADE E SAÚDE PÚBLICA

*Lúcia Vânia

A obesidade, como uma enfermidade caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, associada a problemas de saúde entrou na pauta da política nacional de saúde pública.

A nutricionista Leonor Pacheco, do Ministério da Saúde, que participou da Pesquisa recentemente divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003, afirma que os resultados acendem a luz vermelha no campo alimentar e nutricional da população brasileira.

Segundo a pesquisadora “Estamos vivendo com o pior dos dois mundos. Desnutrição e doenças de países pobres e a obesidade dos países ricos”.

A pesquisa, que chegou a despertar uma reação crítica do presidente Lula sobre a sua validade, conclui, de fato, que o brasileiro está se alimentando mal. Nossa população está consumindo mais gordura e fazendo uma inadequada ingestão de açúcar. Para se ter uma idéia, somente o consumo de refrigerantes aumentou 400% entre a primeira pesquisa (1974-1975) e divulgada agora.

Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o consumo de açúcar deveria equivaler a, no máximo, 10% das calorias ingeridas, no Brasil esse percentual já chega a 12,63%.

Há alguns resultados da POF 2002/2003 que soam como alerta para os gestores da saúde pública no Brasil:

v Houve acentuado declínio de consumo do arroz com feijão, em detrimento de alimentos enlatados, dos refrigerantes, dos sorvetes e das chamadas comidas rápidas;

v Os brasileiros engordaram acentuadamente nas três últimas décadas, chegando a 38,6 milhões de pessoas com peso acima do recomendado, ou o equivalente a 40,6% da população adulta do país;

v Existem 10,5 milhões de brasileiros obesos; e

v O problema permeia todas as camadas, atingindo de alto a baixo na escala social: entre os 20% mais pobres da população, 27% dos homens estão com peso acima do recomendado e apenas 9,5% com falta de pesa; entre as mulheres estes percentuais apontam 38,2% acima do peso e 6,6% com peso inferior ao recomendado.

No mundo a obesidade triplicou nos últimos 20 anos, levando a OMS a considerar o fenômeno tão grave quanto o tabagismo e o alcoolismo, principalmente entre as crianças e os adolescentes.

Em 2002, o governo dos Estados Unidos gastou 117 bilhões de dólares com os obesos e as doenças conseqüentes como diabetes, hipertensão, doenças coronarianas e outras. Foram realizadas 100 mil cirurgias para redução do estômago e encurtamento do intestino.

No México a situação é mais alarmante, com a taxa de obesidade chegando a 70% da população e 7 milhões de diabéticos numa população de 100 milhões.

Muitos países estão tomando as suas providências: na Suécia foi instituído um selo verde para os alimentos de alto teor de fibras e baixo teor de calorias e foram proibidos anúncios de alimentos calóricos dirigidos a crianças. Na Austrália firma-se a idéia da instituição de um imposto para obesos mórbidos, pelos seus altos custos para o sistema de saúde.

No Brasil a Justiça tem adotado algumas medidas, como a do juiz João Batista Ribeiro, de Belo Horizonte, que determinou às lojas McDonald’s imprimir nas embalagens dos seus produtos o seu valor nutricional.

Em São Paulo, o dr. João Lopes Guimarães, do Ministério Público do Estado, entrou com uma ação contra a Coca-Cola e outra contra a Ambev (fabricante de refrigerantes), com a finalidade de proibir campanhas publicitárias que associem refrigerantes a um estilo de vida saudável.

Por todos esses motivos voltei a minha atenção especialmente para a adoção da propaganda indiscriminada de refrigerantes no Brasil, apresentando o Projeto de Lei (PLS) nº 431/2003. O projeto visa a que a propaganda comercial e o rótulo dos refrigerantes contenham, obrigatoriamente, advertência sobre os malefícios que o consumo excessivo pode provocar à saúde.

A problemática que discutimos até agora está atingindo dramaticamente as crianças brasileiras, cuja prevalência da obesidade saltou de 3% para 15% no período de 15 anos.

A par da gravidade das lesões orgânicas conseqüentes da obesidade, há a questão psíquica, que tem levado muitos adolescentes obesos a tentar o suicídio, devido à estigmatização e ao preconceito.

A propaganda de refrigerantes dirigida ao público infantil é bastante poderosa, principalmente se considerarmos a falta de discernimento da criança para defender-se dessas mensagens.

Tenho a firme opinião, avalizada por vários especialistas, de que uma política pública visando uma alimentação saudável deve incluir a restrição da publicidade, nos de meios de comunicação de massa, de alimentos de escasso valor nutricional, e a veiculação de anúncios que induzam a redução do consumo desses alimentos.

*Jornalista e Senadora (PSDB-GO)

 

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