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22.05.04

Propaganda enganosa

Lúcia Vânia e
Ana Carla Abrão Costa

Há um verdadeiro bombardeio do governo federal na mídia, por meio das propagandas do PT. São idéias geradas no núcleo partidário, responsável por importantes decisões, que utiliza uma visão já consagrada em seus programas: a de que a verdade é um detalhe que se presta a uma conveniente apresentação dos fatos.

O bordão “Isso é fato, isso é verdade” esconde um princípio que deve ser denunciado, à custa de não se compactuar com o desconhecimento e a desinformação, aos quais a propaganda do PT visa nos induzir.

Ao comparar os oito anos do governo Fernando Henrique com os arrastados 16 meses do governo PT, a propaganda esconde, atrás dos números convenientemente escolhidos, informações importantes.

O uso de indicadores econômicos para analisar desempenho deve ser acompanhado de uma preocupação clara de transmitir a visão do todo, pois do contrário a análise deixará de ser isenta e correta. Caso esse erro tenha sido cometido de forma consciente, ele se transforma em má-fé, em enganação, com objetivos escusos de desinformar, contrariamente ao que se espera de uma propaganda responsável e ética.

É justamente uma apresentação honesta do conjunto de dados que falta à propaganda do PT.

Tais como aqueles citados pelo jornalista Gilberto Dimenstein, no jornal Folha de São Paulo, edição de 9 de maio, intitulado O melhor presente de Lula no Dia das Mães. Segundo ele, faltou ao PT dizer que estava comparando o aumento de preços ocorrido durante oito anos do governo FHC com o que se deu durante o período de apenas um ano de Lula. Para o jornalista, aquela foi uma das manipulações mais rasteiras que já viu.

O ano de 2002, caracterizado nas peças publicitárias como “o último ano do governo Fernando Henrique”, e vastamente utilizado como base de comparação com o atual governo, foi também o ano em que o então candidato Luís Inácio Lula da Silva despontou nas pesquisas de intenção de voto.

Na época, a iminente eleição do candidato do PT produziu um cenário de grande incerteza sobre a orientação do futuro governo. Como resultado, tivemos uma das mais graves crises de confiança já enfrentadas pela economia brasileira. Investidores domésticos e internacionais, amparados na insegurança em relação às mensagens - já dúbias - do partido e da equipe de formação do novo governo, se sentiram impelidos a buscar portos mais seguros, desencadeando um processo de fuga de capitais e elevação do dólar frente ao real, impactando os índices de inflação.

Afinal de contas, o discurso do PT sempre foi estatizante, gastador, contrário à austeridade fiscal e monetária, ao FMI e ao respeito de contratos. O nível do salário mínimo era uma bandeira de luta, independentemente da capacidade econômica de financiá-lo e dos seus impactos fiscais. O patamar dos juros básicos recebia críticas, tivesse ou não o papel de controlar a inflação. As dívidas, principalmente a externa, eram questionadas em relação ao seu pagamento, sob argumento de que representavam o enriquecimeto do capital. Além disso, o custo do desrespeito aos contratos não tinha peso algum nas análises petistas.

Fica claro que tudo mudou no discurso e na prática! É inegável que a contaminação dos indicadores econômicos existiu, sem que se possa creditar ao governo Fernando Henrique um custo que cabe ao PT e à ambigüidade da sua postura.

O uso do bordão “Isso é fato, isso é verdade”, se fosse feito de forma responsável, deveria comparar sim os resultados institucionais de longo prazo, muitos deles obtidos no passado, apesar do PT e atualmente graças à oposição.

Se formos nos ater a fatos convenientes, a recente piora expressiva de alguns indicadores econômicos do País, como a queda do PIB - ou cada vez que a base aliada critica o excesso de austeridade da equipe econômica - teremos um bom exemplo de números pontuais, que a responsabilidade nos proíbe de usar de forma oportunista.

Lúcia Vânia é senadora pelo PSDB e preside a Comissão de Assuntos Sociais do Senado
Ana Carla Abrão Costa é doutoranda em Economia pela Universidade de São Paulo

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