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21.06.03

Serenidade já

Lúcia Vânia

Desejar violentamente uma coisa, é tornar-se cego para o demais. (Demócrito, Fragmento 72)

Dolorosas são as ilusões sobre nós mesmos, quando expostas em público. Refiro-me à postura defensiva adotada pelo Partido dos Trabalhadores, que vem demonstrando profundo sentimento de injustiça em relação a toda e qualquer crítica. Seja dos professores universitários, dos intelectuais, dos magistrados, entidades de classe ou de qualquer um que se oponha a decisões de governo.

Compreendo a frustração de quem hoje se vê obrigado a alterar discurso e prática, reconhecidamente adotados visando à conquista do poder. Hoje levados a assumir posturas que combatiam com intransigência, revelam-se em posição de desconforto. Encontram dificuldade para superar mágoas diante de uma pretensa incompreensão da sociedade às suas ações.

Nos últimos dias, o Governo tem reagido com desmedida exaltação às ponderações do ex-presidente Fernando Henrique. Desmedida, a meu ver, pois elas se deram no âmbito das comemorações dos 15 anos do PSDB, no jornal do partido, em tom sereno, como compete a um ocupante de cargo público. Bem menos elegantes tem sido as críticas internas e dos próprios aliados da base governista.

Alerto para o tom exaltado, quase impróprio aos homens públicos, com que se vem rebatendo as ponderações do ex-presidente. Lembro que exaltação combina com os palanques, mas perde sentido passados oito meses das eleições.

Com ânimos mais serenos, podemos avaliar que o ex-presidente apenas externou o que a sociedade já aponta: as profundas contradições do PT. Que por exemplo impediu a aprovação das reformas hoje apresentadas como urgentes e inegociáveis no plano nacional. E contradição maior: enquanto exige empenho dos governadores no plano nacional, vota contra a reforma do governador Geraldo Alkimin em São Paulo.

Da falta de planos consistentes de governo, esperados após a posse, ao sucessivo adiamento de programas como Primeiro Emprego, configura-se o improviso e a cerceamento de opiniões. Basta lembrar a manutenção dos juros altos, diante dos sinais de recessão.

Houve quem tenha recomendado humildade ao ex-presidente. Venho sugerir sim maior serenidade - virtude essencial aos governantes. Com serenidade é possível analisar os legítimos interesses em conflito no cenário nacional. Para então decidir com sabedoria quando recuar, identificando a crítica sistemática, da expressão de convicções mais verdadeiras.

Vivemos numa democracia plena, para a qual muito contribuiu meu partido. Podemos e devemos divergir, já que estamos na Oposição. Mas os interesses da Nação se colocam acima de questões partidárias. Foi assim que o PSDB agiu em relação ao Cartão Alimentação. Trabalhamos com afinco para corrigir o que julgávamos equivocado e oferecemos uma proposta aperfeiçoada.

Com o maior rigor técnico analisamos a proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias que excluía o IDH e o recolocamos no projeto. O equívoco foi percebido pelo PT, cujo relator acatou emenda de minha autoria na Comissão Mista do Orçamento. Assim temos nos pautado diante das escassas demandas do governo para o Legislativo.

Acolher críticas com serenidade é uma virtude que se desenvolve com o tempo e com a experiência.

Publicado no Diário da Manhã

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