Serenidade
já
Lúcia
Vânia
Desejar
violentamente uma coisa, é tornar-se
cego para o demais. (Demócrito, Fragmento
72)
Dolorosas
são as ilusões sobre nós
mesmos, quando expostas em público.
Refiro-me à postura defensiva adotada
pelo Partido dos Trabalhadores, que vem demonstrando
profundo sentimento de injustiça em
relação a toda e qualquer crítica.
Seja dos professores universitários,
dos intelectuais, dos magistrados, entidades
de classe ou de qualquer um que se oponha
a decisões de governo.
Compreendo
a frustração de quem hoje se
vê obrigado a alterar discurso e prática,
reconhecidamente adotados visando à conquista
do poder. Hoje levados a assumir posturas
que combatiam com intransigência, revelam-se
em posição de desconforto.
Encontram dificuldade para superar mágoas
diante de uma pretensa incompreensão
da sociedade às suas ações.
Nos últimos
dias, o Governo tem reagido com desmedida
exaltação às ponderações
do ex-presidente Fernando Henrique. Desmedida,
a meu ver, pois elas se deram no âmbito
das comemorações dos 15 anos
do PSDB, no jornal do partido, em tom sereno,
como compete a um ocupante de cargo público.
Bem menos elegantes tem sido as críticas
internas e dos próprios aliados da
base governista.
Alerto
para o tom exaltado, quase impróprio
aos homens públicos, com que se vem
rebatendo as ponderações do
ex-presidente. Lembro que exaltação
combina com os palanques, mas perde sentido
passados oito meses das eleições.
Com ânimos
mais serenos, podemos avaliar que o ex-presidente
apenas externou o que a sociedade já aponta:
as profundas contradições do
PT. Que por exemplo impediu a aprovação
das reformas hoje apresentadas como urgentes
e inegociáveis no plano nacional.
E contradição maior: enquanto
exige empenho dos governadores no plano nacional,
vota contra a reforma do governador Geraldo
Alkimin em São Paulo.
Da
falta de planos consistentes de governo,
esperados após a posse, ao sucessivo
adiamento de programas como Primeiro Emprego,
configura-se o improviso e a cerceamento
de opiniões. Basta lembrar a manutenção
dos juros altos, diante dos sinais de recessão.
Houve
quem tenha recomendado humildade ao ex-presidente.
Venho sugerir sim maior serenidade - virtude
essencial aos governantes. Com serenidade é possível
analisar os legítimos interesses em
conflito no cenário nacional. Para
então decidir com sabedoria quando
recuar, identificando a crítica sistemática,
da expressão de convicções
mais verdadeiras.
Vivemos
numa democracia plena, para a qual muito
contribuiu meu partido. Podemos e devemos
divergir, já que estamos na Oposição.
Mas os interesses da Nação
se colocam acima de questões partidárias.
Foi assim que o PSDB agiu em relação
ao Cartão Alimentação.
Trabalhamos com afinco para corrigir o que
julgávamos equivocado e oferecemos
uma proposta aperfeiçoada.
Com
o maior rigor técnico analisamos a
proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias
que excluía o IDH e o recolocamos
no projeto. O equívoco foi percebido
pelo PT, cujo relator acatou emenda de minha
autoria na Comissão Mista do Orçamento.
Assim temos nos pautado diante das escassas
demandas do governo para o Legislativo.
Acolher críticas com serenidade é uma virtude que se desenvolve
com o tempo e com a experiência.
Publicado
no Diário da Manhã |