Cabe à mulher
ampliar espaços no poder
Lúcia
Vânia
Pela
primeira vez, mulheres parlamentares dos
países de língua portuguesa
se reuniram para discutir a ampliação
da presença feminina nas esferas do
poder e a evolução das legislações
em prol dos direitos humanos. Além
do idioma, a difícil realidade do
exercício parlamentar iguala as representantes
do Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde,
Guiné Bissau, Moçambique, São
Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Uma realidade que reflete o predomínio
masculino e o baixo engajamento feminino
na política.
No
Brasil, a reduzida presença feminina
nas esferas do poder se deve, principalmente, à demora
da obtenção de nossa cidadania.
Afinal, foram 108 anos de diferença
entre a primeira lei eleitoral, que assegurava
o direito de votar e serem votados a alguns
homens, e a lei eleitoral que assegurava
o mesmo direito às mulheres.
Poder
votar e ser votada foi um grande passo, mas
as mulheres ainda ocupam uma posição
tímida na política, sendo poucas
as que, de fato e de direito, exercem cargos
de liderança nas entidades de classe,
nos partidos e nos governos.
Na
verdade, a maioria ingressa na política
ou devido ao parentesco com outros políticos
(esposas, irmãs, filhas etc) ou impulsionadas
por movimentos sindicalistas e sociais. No último
caso, ocorre um fenômeno : eleita,
a mulher se vê na condição
de não importar muito na estrutura
partidária, passando a atuar isoladamente.
Em conseqüência, criam-se segmentos
dessas representações, alijando
a mulher do contexto partidário, uma
espécie de apêndice do partido,
com influência restrita ou inexistente.
Vale
destacar, porém, que houve uma ação
direta no sentido de equilibrar a participação
política das mulheres em espaços
de poder, no início dos anos 90, com
a adoção de políticas
de cotas para mulheres ou de cotas por sexo.
E, embora ainda seja recente e tenha contribuído
pouco para o aumento efetivo de mulheres
eleitas, a Lei de Cotas favoreceu o crescimento
das candidaturas de mulheres para as prefeituras
e o Legislativo. Porém, mais importante
do que o número de eleitas foi o fato
de a Lei de Cotas ter provocado o debate
sobre a importância da participação
das mulheres nos espaços de poder.
Ficou
claro que a participação de
mulheres candidatas aos mandatos legislativos é limitada
por fatores não apenas culturais -
um deles é o financiamento de campanha,
que desponta a situação de
dependência econômica feminina
e por si representa uma desigualdade. Uma
situação que deverá ser
resolvida com a reforma política,
a ser rediscutida nesta Casa.
Falar
em reformar o sistema político é mais
do que construir um bom sistema eleitoral
partidário, mas também assegurar
condições de termos regras
claras no jogo democrático, deixando
os concorrentes em igualdade de condições.
Dentro
da reforma, outro instrumento favorável
ao acesso da mulher à política
deverá ser a adoção
do sistema misto: distrital e proporcional.
São inegáveis as vantagens
dos dois sistemas clássicos – o
proporcional, porque assegura a representação
das minorias; e o distrital puro, porque
permite a proximidade do eleitor e a representação
das diversas regiões do Estado.
No
atual sistema, os eleitos do partido são
os mais votados do partido. Ou seja, a disputa
acontece dentro do partido e não fora
dele. Como hoje, no Brasil, as mulheres têm
uma participação partidária
muito pequena, estando fora até das
executivas nacionais e regionais, isso também
se reflete no resultado das eleições.
Além
de mudar a estrutura política, é preciso
promover campanhas que estimulem as mulheres à filiação
partidária, dando-lhes ainda capacitação
política. Uma campanha para a filiação
traria a mulher para a política de
forma objetiva, ou seja, com capacidade de
influenciar a estrutura político-partidária,
o que não ocorre atualmente.
Por
fim, quero ressaltar que, no Congresso Nacional,
embora seja minoritária, a bancada
feminina tem sido fundamental na conquista
de inúmeros avanços para a
sociedade brasileira. Espero que consigamos
avançar nos próximos anos e
que essa primeira troca de experiências
entre as parlamentares de língua portuguesa
contribua para isso. |