Em
defesa do genérico
Lúcia
Vânia
Goiânia
se tornou a capital dos medicamentos ao sediar
três eventos nacionais: o 4º Congresso
Brasileiro de Medicamentos Genéricos,
a 3ª Exposição da Indústria
Farmacêutica e o 2º Congresso
Nacional de Medicamentos. Enquanto em todos
os Estados a venda de medicamentos genéricos
atinge 6% do mercado, em Goiânia, de
acordo com pesquisa da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa),
a venda é de 8%. Ainda segundo a Anvisa,
as farmácias de Goiânia mantêm
75,4% das listas de genéricos atualizadas.
Um
dos principais desafios do Brasil na área
social é o acesso da população
aos medicamentos. Para cerca de 50% das pessoas
atendidas pelos médicos faltam condições
de comprar os medicamentos prescritos, segundo
dados da Federação Brasileira
da Indústria Farmacêutica. São
50 milhões os brasileiros com problemas
de saúde diagnosticados, mas que não
conseguem fazer o tratamento adequado, por
falta de dinheiro para ir à farmácia.
Esse é um
problema que envolve dois aspectos graves.
O primeiro: o drama do cidadão impossibilitado
de curar sua enfermidade ou da família.
O segundo é o custo para o sistema
público de saúde. Por não
ter sido medicado, o doente, em muitos casos,
retorna ao posto ou ao hospital com o estado
de saúde agravado, o que exige tratamento
mais dispendioso. A dificuldade de acesso
aos medicamentos está diretamente
ligada à renda. Em famílias
que ganham até quatro salários
mínimos, o salário é totalmente
consumido com alimentação,
aluguel e transporte. Remédio passa
a ser supérfluo.
O
problema se agrava quando envolve doenças
crônicas como hipertensão, diabetes
e colesterol alto, que exigem uso continuado
de medicamentos.Pior: são doenças
mais comuns na terceira idade, fase em que
cai a renda do cidadão.
O
sistema atual de distribuição
de medicamentos no sistema público
de saúde tem se mostrado ineficiente
diante da dimensão do problema. Faz-se
necessária uma intervenção
mais efetiva do governo. Um dos programas
de sucesso adotados em outros países
que poderiam ser implementados no Brasil,
com as necessárias adaptações, é o
sistema de co-pagamento do custo dos medicamentos.
Trata-se de programa em que o cidadão
paga parte do custo e o governo complementa
o restante. Essa fórmula foi adotada
com grande êxito em países como
Canadá e Epha, e conta com cenário
favorável no setor farmacêutico
brasileiro. Uma significativa ampliação
do acesso da população aos
medicamentos ocorreria sem necessidade de
investimento adicional, seja na cadeia de
produção seja na rede de comercialização.
A
indústria farmacêutica nacional
disporia de condições para
atender o aumento de demanda, já que
se encontra com 40% de sua capacidade ociosa,
segundo a Febrafarma. Com 55 mil farmácias,
a rede de comercialização existente
poderia absorver o aumento na procura por
medicamentos. Em ambos os casos – das
indústrias e das farmácias – seriam
revigorados dois segmentos em queda de atividade,
mantendo ou gerando postos de emprego.
Por
suas vantagens, os medicamentos genéricos
são a base dos programas de acessos
a medicamentos em outros países. No
Canadá, a prescrição
de medicamentos a serem adquiridos pelo sistema
de co-pagamento se baseia em uma relação
divulgada pelo governo e composta, em sua
maior parte, por genéricos.
A preferência por genéricos decorre de terem a mesma qualidade
dos remédios de marca, a preços muito mais baixos. Isso otimiza
o uso dos recursos públicos, permitindo que, com um mesmo orçamento,
se possa viabilizar o acesso de maior número de pessoas aos medicamentos.
A
ampliação da demanda por genéricos
traria outro benefício: a redução
ainda maior de seus preços, como ocorreu
no Canadá, e custo ainda menor para
o governo.
A
implantação dos genéricos
no Brasil, pela seriedade e eficiência
com que foi feita, é apontada internacionalmente
como um modelo. Os números falam por
si. Desde fevereiro de 2000, quando saíram
os primeiros registros de medicamentos genéricos,
já foram colocados no mercado mais
de mil genéricos. Além de um
avanço na saúde pública,
a introdução dos genéricos
representou um grande incentivo à produção
de medicamentos no País. De todos
os genéricos em comercialização
no mercado brasileiro, 70% são produzidos
no Brasil.
Uma
vez que o presidente Lula se comprometeu
com a manutenção da política
de genéricos, espero que o governo
não se torne, involuntariamente, um
aliado de poderosos setores industriais,
a fim de recuperar os mercados que perderam
para os medicamentos sem marca.
Publicado
em O Popular |