Brincando
de casinha
Lúcia
Vânia
Estamos
contando os dias para a chegada de 2004,
o Ano da Mulher no Brasil. A Secretaria Especial
de Políticas para as Mulheres marcou
para o mês de junho a 1ª Conferência
Nacional de Políticas para as Mulheres.
E realizou essa semana o Encontro Nacional
de Conselhos de Direitos das Mulheres.
A
mobilização é estimulante.
A ministra Emília Fernandes se propõe
não só a fortalecer os 114
conselhos existentes no país, como
também a envolver as mulheres na discussão
profunda sobre o plano plurianual 2004/2007.
Afinal, sem recursos, não se garantem
as conquistas femininas.
No
entanto, é preciso reconhecer nossa
limitada participação nas esferas
de poder. No Legislativo, por exemplo, a
presença numérica das mulheres
ainda não corresponde aos avanços
que obtivemos no acesso à educação
e à chefia de família. A atual
bancada feminina no Congresso conta apenas
com 54 mandatos, em um total de 594 parlamentares,
o que representa a porcentagem apenas 9,09%.
Estamos
muito defasados em relação à Finlândia,
cuja recente visita de sua presidente Tarja
Halonen ao Brasil, nos permitiu uma saudável
discussão sobre o papel da mulher
nas sociedades modernas. Ao contrário
de nosso país, onde somos maioria
da população e dos eleitores,
lá, as mulheres representam 33,5%
do povo finlandês. No entanto, ocupam
a maior parte dos cargos do Executivo e das
vagas do Legislativo. São mulheres,
além da presidente, a prefeita da
capital, a governadora da maior província,
dez entre 18 ministros e 75 dos 200 parlamentares.
Os
espaços conquistados pela mulher finlandesa
são fruto de um longo amadurecimento
político: foram elas as primeiras
com direito ao voto na Europa, no começo
do século passado. Certamente contribui
para a liberdade de atuação
política, o eficiente sistema de creches
e a duração da licença
maternidade de onze meses, prorrogável
por até três anos.
Ainda
temos longo caminho a percorrer para obtermos
destaque equivalente nos poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário. Mas, não
acredito que isso se dê, isolando a
mulher em instâncias de discussão
política, apartadas dos grupos masculinos.
Ao contrário. Em minha experiência
de três mandatos na Câmara dos
Deputados e desses onze meses no Senado,
pude constatar que é difícil,
mas não impossível, conquistar
o respeito dos nossos pares do sexo masculino.
Não
podemos ignorar o desafio de vencer resistências
nas diversas instâncias partidárias.
Por inércia ou conveniência,
nós mulheres somos mais convocadas
a obter votos, fazer número ou pressão,
do que a contribuir com idéias e propostas.
No entanto, no exercício diário
da política no Congresso Nacional,
onde nos colocamos em pé de igualdade
no debate político e econômico,
conseguimos nos fazer ouvir.
Em
minha cruzada para impedir perdas para o
Centro-Oeste na reforma tributária
no Senado, tenho a oportunidade de expor
a questão a diversas platéias
de empresários. Constato, porém,
o quanto surpreende o fato de uma mulher,
ainda que Senadora da República, discorrer
sobre orçamento, arrecadação
ou incentivos fiscais. A ponto de receber
uma tosca tentativa de elogio em um debate,
quando um empresário admitiu que esperava
me ouvir falar de “casinha de boneca”.
E não de questões decisivas
para o desenvolvimento do estado que me elegeu,
tais como competitividade, incentivos fiscais
e guerra fiscal.
O
episódio revela o preconceito que
enfrentamos há anos e prova que mudar
costumes e comportamentos é um desafio
para várias gerações.
Preconceito se vence com educação
e acesso à informação.
Não apenas com alterações
legais. Na Constituição de
1988, garantimos a adoção de
políticas públicas universais
que reconhecem nossos direitos nas famílias
e na sociedade. Além disso, tramitam
no Congresso Nacional cerca de trezentas
proposições voltadas para os
direitos das mulheres, que englobam praticamente
todas as reivindicações de
organizações representativas
e contam com o apoio da bancada feminina.
Apesar
de tudo, observa-se um grande distanciamento
entre as conquistas legais obtidas e a realidade
da condição feminina e das
relações de gênero no
País. O que aponta para a necessidade
de concentração dos esforços
legislativos no acompanhamento da execução
das leis já existentes.
É ,
no dia a dia, que a precariedade no tratamento
dado às mulheres persiste. E, essa
realidade se impõe ainda mais no mercado
de trabalho, principalmente, em relação à remuneração.
Embora tenha diminuído a diferença
entre os rendimentos de homens e mulheres
que exercem atividades iguais, ainda prevalece
uma diferença média de 29,2%
em favor dos homens. Seria mais que justo,
adotarmos uma política pública
que desse maiores garantias a quem arca com
a responsabilidade dos filhos, e tem dificuldades
no mercado de trabalho. Está claro
que se não houver uma preocupação
da sociedade em valorizar a mão-de-obra
feminina, as famílias estarão
cada vez mais empobrecidas.
Ao
lado da questão do trabalho, precisamos
prosseguir no combate à violência
contra a mulher. A conquista de delegacias
especializadas colhe rendimentos irrefutáveis,
porém, o silêncio da sociedade,
que insiste em resistir à denúncia, é um
desafio a ser enfrentado. Da mesma forma
que o tráfico de mulheres, contra
o qual precisamos adotar medidas definitivas.
São
inúmeras as frentes de ação.
Elas se impõem como um dos grandes
desafios da democracia brasileira para o
amadurecimento de uma sociedade em que dois
sexos diferentes, embora iguais em direitos
e deveres, venham a atuar em igualdade de
condições.
Publicado no Jornal do Brasil |