O
Entorno no limite
Lúcia
Vânia
Duas
conclusões importantes podem ser extraídas
da notícia de que as cadeias públicas
do Entorno do Distrito Federal estão
superlotadas. A primeira revela que a repressão
policial aumentou, assim como a apuração
de denúncias de crimes hediondos,
de narcotráfico e de ação
de quadrilhas organizadas. A segunda conclusão
aponta a urgência de ações
seqüenciais ao Plano Nacional de Segurança,
implantado pelo governo federal na região
há dois anos.
O
Plano possibilitou a criação
de 14 Centros Integrados de Operações
Policiais e um novo presídio em Luziânia,
a aquisição de novas viaturas
e armamento, além de ter aberto a
possibilidade de uma gratificação
especial para os agentes de segurança.
Ao todo, três mil policiais foram mobilizados
em operações e blitzen conjuntas
para reprimir a criminalidade e o tráfico
de drogas na região, por meio dos
convênios de cooperação
técnica firmados entre o Estado de
Goiás e a União. Em situações
de emergência, as equipes podiam cruzar
os limites entre os Estados, o que até então
era proibido.
A
gratificação, que se encontra
suspensa por determinação legal,
remunerava os policiais goianos de forma
isonômica aos do Distrito Federal;
uma reivindicação antiga e
justa dos agentes que atuam nas 21 cidades
da região. Na verdade, essa gratificação,
que se tornou um grande estímulo para
a categoria, acabou sendo vetada pelo Ministério
da Justiça que se negou a cumprir
o acordo com o governo goiano de repassar
parte dos recursos. Goiás, contudo,
chegou a arcar com o pagamento integral durante
alguns meses, sendo obrigado a recuar mais
tarde. Vale lembrar, ainda, que acordo com
a União foi feito pelo próprio
governador de Goiás, Marconi Perillo,
com a participação de parlamentares
que representam a região e o apoio
de entidades ali instaladas.
Agora,
a retomada das negociações
com o novo governo federal pode definir uma
saída no sentido de regularizar o
benefício salarial e dar continuidade
a um trabalho de resultados tão expressivos
e que consumiu recursos do erário
público. Uma alternativa para honrar
o compromisso com a categoria seria incluir
um novo plano estratégico para aumentar
a segurança no Entorno do Distrito
Federal em Medida Provisória apresentada
ao Congresso Nacional.
A
preocupação com a segurança
se constitui hoje em um dos maiores anseios
da sociedade, mas não existem soluções
fáceis ou imediatas ao problema. O
bom senso recomenda ser necessário
atacar simultaneamente suas várias
faces - a social, a judicial e a policial,
o que somente acontecerá se for posta
em prática uma política de
segurança pública. Tal política,
por sua vez, só adquire pleno sentido
como parte de um processo mais amplo de transformação
das estruturas sociais e econômicas
do país, que priorize o combate à exclusão
e à desigualdade social.
Fica
claro que, embora o Entorno do Distrito Federal
venha se destacando devido aos índices
de violência e a proximidade ao centro
da decisões do país, a violência
não pode merecer, apenas, medidas
repressoras, sendo necessário estimular
a geração de políticas
e serviços específicos para
evitar sua geração.
Para
promover o desenvolvimento social do Entorno,
devem ser destacadas metas e estratégias
para erradicação da pobreza
absoluta; uma série de diretrizes
relativas à educação
básica; integração social,
envolvendo indicações para
políticas de assistência; e
recomendações com relação à políticas
de geração de emprego e de
renda. Sem dúvida, não é uma
ação de um único governo
ou prefeitura. Por sua amplitude, é recomendável
uma maior articulação e coordenação
entre os governos para a formulação
e o apoio ao programas sociais.
Nesse
trabalho, também convém ampliar
a capacidade da população para
equacionar os problemas sociais e ambientais,
fortalecendo ainda a capacidade dos jovens
para participar de forma mais ativa na luta
contra a pobreza, a exclusão, a violência
e a promoção do desenvolvimento
e o exercício da cidadania. Afinal,
os jovens representam hoje mais de 20% da
população brasileira e estão
no centro das principais preocupações
sobre o futuro do país. Além
disso, grande parcela desses jovens demostra
interesse em atuar nas suas comunidades,
carecendo de espaços e locais onde,
livre de influências e ingerências,
possam expressar suas vontades.
As
ações públicas devem
proporcionar uma vida digna no Entorno, com
qualidade, permitindo a inclusão social
e contribuindo expressivamente para a redução
das desigualdades. Esta sim é uma
forma verdadeira de promoção
da cidadania.
Publicado
no Correio Braziliense |